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Os seis aplicativos que tornaram o Ocidente uma potência

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(ilustração: Jesse Lenz)
(ilustração: Jesse Lenz)

Em seu livro Civilização, cujo título se iguala ao tema do Fronteiras do Pensamento 2017, o historiador Niall Ferguson diz que o fator decisivo para a supremacia do Ocidente foram suas instituições -- sistemas de representação política, direitos individuais e propriedade privada --, mas não apenas isso. 

Segundo o historiador britânico, existe um conjunto de ideias e de modos de vida que cooperaram para esta hegemonia, como a "competição", fruto direto da fragmentação do moderno mundo político europeu, especialmente após a Reforma. Na obra, ele também fala, seguindo Weber, da ética do trabalho e da progressiva vitória da ciência e do conhecimento aplicado, cujo primeiro e espetacular resultado foi a Revolução Industrial.

Por fim, o autor se pergunta se o Ocidente continua tendo condições de dominar o mundo hoje da mesma forma que sempre fez – ou se, na verdade, estaria indo rumo à decadência e à queda. Leia abaixo um excerto da obra Civilização, de Niall Ferguson, próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento (POA, 27; SP, 28):

CIVILIZAÇÃO, POR NIALL FERGUSON

Para usar a linguagem do mundo computadorizado e sincronizado de nossos dias, estes foram os seis “incríveis aplicativos” (ou apps) que permitiram que uma minoria da humanidade, originando-se no extremo oeste da Eurásia, dominasse o mundo durante a maior parte dos últimos 500 anos. 

Agora, antes que você escreva para mim indignado, reclamando que esqueci algum aspecto crucial da supremacia ocidental, como o capitalismo ou a liberdade ou a democracia (ou, aliás, armas, germes e aço), leia as seguintes breves definições:

1. A competição: uma descentralização da vida política e econômica, que criou as condições para o surgimento dos Estados-nação e do capitalismo.

2. A ciência: uma forma de estudar, entender e, finalmente, transformar o mundo natural, que deu ao Ocidente (entre outras coisas) uma importante vantagem militar sobre o restante.

3. Os direitos de propriedade: o controle da lei como um meio de proteger os proprietários privados e solucionar pacificamente as disputas entre eles, que assentou a base para a forma mais estável de governo representativo.

4. A medicina: um ramo da ciência que possibilitou uma importante melhoria na saúde e na expectativa de vida, inicialmente nas sociedades ocidentais, mas também em suas colônias.

5. A sociedade de consumo: um modo de vida material em que a produção e a compra de roupas e outros bens de consumo desempenham um papel econômico central, e sem o qual a Revolução Industrial teria sido insustentável.

6. A ética do trabalho: um sistema moral e um modo de atividade derivados do cristianismo protestante (entre outras fontes) que fornece coesão à sociedade dinâmica e potencialmente instável criada pelos itens 1 a 5.

Não se engane: esta não é mais uma versão presunçosa do “triunfo do Ocidente”. Pretendo mostrar que não foi só a superioridade ocidental que levou à conquista e à colonização de grande parte do restante do mundo; foi também a fraqueza fortuita de seus rivais. 

Na década de 1640, por exemplo, uma combinação de crise fiscal e monetária, mudança climática e epidemia desencadeou uma rebelião e o colapso da dinastia Ming. Isso não teve nada a ver com o Ocidente. Da mesma maneira, o declínio político e militar do Império Otomano teve mais causas internas do que externas. 

As instituições políticas norte-americanas floresceram à medida que cresciam as feridas da América do Sul; mas o fracasso de Simón Bolívar em criar os Estados Unidos da América Latina não foi culpa dos gringos.

O ponto crítico é que a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo era institucional. A Europa Ocidental superou a China em parte porque no Ocidente havia mais competição tanto na esfera política quanto na econômica. A Áustria, a Prússia e, mais tarde, até mesmo a Rússia se tornaram mais eficazes em termos administrativos e militares porque a rede de comunicação que levou à Revolução Científica surgiu no mundo cristão, mas não no muçulmano. 

A razão pela qual as ex-colônias norte-americanas se saíram muito melhor que as da América do Sul é que os colonizadores ingleses estabeleceram no Norte um sistema de direitos de propriedade e representação política completamente diferente daquele implementado por espanhóis e portugueses no Sul. (O Norte era uma “ordem de acesso aberto”, em vez de fechado, administrada segundo os interesses de elites exclusivas e em busca de privilégios.) 

Os impérios europeus foram capazes de penetrar na África não só porque tinham a metralhadora Maxim; eles também conceberam vacinas contra doenças tropicais às quais os africanos eram igualmente vulneráveis.

Da mesma maneira, a industrialização precoce do Ocidente refletia vantagens institucionais: a possibilidade de uma sociedade de consumidores em massa existia nas ilhas britânicas bem antes do advento e da disseminação da energia a vapor ou do sistema fabril. 

Mesmo quando a tecnologia industrial estava disponível quase universalmente, a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo persistiu: de fato tornou-se ainda maior. Sem um maquinário totalmente padronizado de fiação e tecelagem de algodão, o trabalhador europeu ou norte-americano ainda era capaz de trabalhar de maneira mais produtiva, e seu empregador capitalista de acumular riqueza mais depressa do que seus pares orientais.

O investimento em saúde e em educação pública deu bons resultados; onde não houve investimento, as pessoas continuaram pobres. Este livro é sobre todas essas diferenças – por que existiram e por que foram tão importantes.


livro niall ferguson

Niall Ferguson é um dos mais renomados historiadores da Grã-Bretanha. Professor e pesquisador na Universidade de Stanford, é autor de 14 livros, incluindo Império – Como os britânicos fizeram o mundo moderno A ascensão do dinheiro – A história financeira do mundo. Ferguson sobe ao palco do Fronteiras no final de novembro. 

Acesse o libreto especial sobre a vida e a obra do historiador. O libreto inclui breve biografia e informações de destaque sobre o conferencista. Também traz um trecho de Civilização: Ocidente x Oriente, livro lançado em 2017 pela editora Planeta.