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Os seres humanos estão melhorando?

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Mundialmente conhecido por sua obra Libertação animal, de importante influência formativa no movimento homônimo de defesa dos animais, Singer possui extensa bibliografia no campo da ética prática, abrangendo as mais diversas áreas da vida cotidiana.

No texto abaixo, extraído do projeto Syndicate – site que reúne análises e comentários de grandes pensadores mundiais, Singer reflete sobre a evolução da sociedade com relação à violência se baseando em outro conferencista do Fronteiras, o psicólogo canadense Steven Pinker. No polêmico livro Os anjos bons da nossa natureza, Pinker apresenta sua pesquisa sobre a redução da violência ao longo das eras para concluir que a contemporaneidade é o período mais pacífico da história.

PETER SINGER | MELBOURNE - Com manchetes diárias focando nas guerras, no terrorismo, nos abusos de governos repressivos e com os líderes religiosos a lamentarem frequentemente do declínio dos padrões de comportamento público e privado, é fácil ficar com a impressão de que estamos a testemunhando um colapso moral. Mas, acho que temos motivos para estarmos otimistas em relação ao futuro.

Há trinta anos, escrevi um livro intitulado The expanding circle, onde afirmei que, historicamente, o círculo de seres a quem nós estendemos consideração moral se ampliou: primeiro, da tribo à nação, depois, à raça ou grupo étnico, depois, a todos os seres humanos, e, finalmente, aos animais não-humanos. Isso, certamente, é progresso moral.

Poderíamos pensar que a evolução leva à seleção de indivíduos que pensam apenas nos seus próprios interesses e dos seus parentes, uma vez que os genes para tais características seriam mais propensos a se propagarem. Mas, tal como argumentei na época, o desenvolvimento do raciocínio pode nos levar a uma direção diferente.

Por um lado, ter uma capacidade de raciocínio confere uma óbvia vantagem evolutiva, porque torna possível resolver problemas e planejar para evitar perigos, aumentando, assim, as perspectivas de sobrevivência. No entanto, por outro lado, o raciocínio é mais do que uma ferramenta neutra para resolução de problemas. É mais como uma escada rolante: assim que nos colocamos sobre dela, ficamos suscetíveis a sermos transportados para lugares que nunca esperávamos alcançar. Em particular, o raciocínio nos permite ver que os outros, anteriormente fora dos limites do nosso ponto de vista moral, são como nós em aspectos relevantes. Excluí-los da esfera dos seres aos quais devemos consideração moral pode então parecer arbitrário ou simplesmente errado.

O recente livro de Steven Pinker, Os anjos bons da nossa natureza [no Brasil, pela Companhia das Letras], dá um importante apoio a este ponto de vista. Pinker, professor de Psicologia na Universidade de Harvard, baseia-se nas investigações recentes em História, Psicologia, Ciência cognitiva, Economia e Sociologia para argumentar que a nossa era é menos violenta, menos cruel e mais pacífica do que qualquer período anterior da existência humana.

O declínio da violência registra-se nas famílias, nos bairros, nas tribos e nos estados. Em essência, os seres humanos que vivem hoje são menos propensos a terem uma morte violenta, ou a sofrerem de violência ou crueldade nas mãos de outros, que os seus antecessores, em qualquer século anterior.

Muitas pessoas duvidarão desta afirmação. Alguns têm uma visão cor-de-rosa das vidas mais simples, supostamente mais tranquilas, dos caçadores-coletores tribais, em relação à nossa. Mas, um exame aos esqueletos encontrados em locais arqueológicos, sugere que cerca de 15% dos seres humanos pré-históricos tiveram uma morte violenta nas mãos de outra pessoa (em termos de comparação, na primeira metade do século XX, as duas guerras mundiais causaram uma taxa de mortalidade na Europa, de pouco mais de 3%.)
Mesmo aqueles povos tribais enaltecidos pelos antropólogos como sendo especialmente "gentis" - por exemplo, a tribo Semai da Malásia, a tribo Kung do Kalahari e a tribo Inuit do Ártico Central - revelaram ter taxas de homicídios que são, tendo em conta a população, comparáveis a Detroit, que tem uma das maiores taxas de homicídio nos Estados Unidos. Na Europa atual, a chance de sermos assassinados são inferiores a 10% e, em alguns países, é de apenas um quinto das que teríamos tido se vivêssemos há 500 anos.

Pinker aceita que o raciocínio é um fator importante subjacente às tendências que ele descreve. Para apoiar esta afirmação, ele refere-se ao "Efeito Flynn" - descoberta notável feita pelo filósofo James Flynn: desde que os testes de QI foram administrados pela primeira vez, os resultados têm aumentado consideravelmente. Por definição, a média do QI é 100, mas, para atingir este resultado, os resultados brutos precisam ser padronizados. Se um adolescente atual fizesse um teste de QI de 1910, ele ou ela teria um resultado de 130, o que seria melhor do que 98% daqueles que fizeram o teste na época.

Não é fácil atribuir este aumento à melhoria da educação, porque os aspectos dos testes onde as pontuações subiram mais não exigem um bom vocabulário, ou até mesmo habilidade matemática, mas sim a avaliação dos poderes de raciocínio abstrato.

Uma teoria é que estamos melhorando nos testes de QI, porque vivemos num ambiente mais rico em símbolos. O próprio Flynn pensa que a propagação do modo de raciocínio científico tem desempenhado um papel.

Pinker defende que o reforço dos poderes de raciocínio nos dá a habilidade de nos separarmos da nossa experiência imediata e da nossa perspectiva pessoal ou provinciana e de enquadrarmos nossas ideias em termos mais abstratos e universais. Isto, por sua vez, conduz a melhores compromissos morais, incluindo a prevenção da violência. É exatamente este tipo de capacidade de raciocínio que melhorou durante o século XX.

Portanto, há motivos para crer que as nossas melhores capacidades de raciocínio nos permitiram reduzir a influência desses elementos mais impulsivos da nossa natureza que levam à violência. Talvez, isso reforce a queda significativa do número de mortes provocadas pela guerra desde 1945 - um declínio que se tornou ainda mais acentuado nos últimos 20 anos. Se assim for, não haverá como negar que continuamos a enfrentar graves problemas, incluindo, naturalmente, a ameaça da catastrófica alteração climática. Mas, há, contudo, alguma razão para termos esperança no progresso moral.

Leia o texto original, Are humans getting better?