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Paul Bloom e a diretriz da moralidade humana: primeiro eu, depois os meus e nada para os outros

Leis, regulações, educação etc são ferramentas para que o ser humano ultrapasse a diretriz moral que compartilha com chimpanzés.
Leis, regulações, educação etc são ferramentas para que o ser humano ultrapasse a diretriz moral que compartilha com chimpanzés.

O que uma senhora que joga um gato na lixeira e uma pessoa que escreve posts racistas no Facebook têm em comum? E o que há de universal na reação de pessoas que se manifestam violentamente nas redes sociais? Para o psicólogo canadense Paul Bloom, é necessário investigar estes acontecimentos com base em uma força social milenar: a moralidade.

O que nos faz bons ou maus é o problema que perpassa toda a obra de Bloom, interessado em compreender este pilar de nossa vida em sociedade. O psicólogo, que realiza suas pesquisas no laboratório do Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale, encarou o desafio de estudar a mente dos bebês, mantendo-se atentos às reações e ao repertório de comportamentos dos pequeninos.

As conclusões de suas pesquisas com bebês apontam para dois fatos:
1 - As vivências individuais e coletivas, sobretudo em família, fazem evoluir a moralidade que, no adulto, é modulada tanto pelas emoções como pela razão.
2 - Nossa vida moral tem uma base inata, que trazemos desde o nascimento. 

Essa moral inata, que ele diz ser compartilhada com outros primatas, possui uma diretriz interna, estruturada como "primeiro eu, depois os meus e nada para os outros". Assim, Bloom defende que sempre vamos precisar de uma força externa para que ultrapassemos esta diretriz. Seja por meio de ensinamentos, por leis, costumes, o que for, mas, sem esta ajuda externa, não seríamos melhores do que os chimpanzés. Porém, há alguns campos da vida social em que fica mais difícil ir além da diretriz "tribal", para usarmos um termo de Joshua Greene, do "primeiro eu, depois os meus". A política é o grande exemplo disso. Paul Bloom nos explica* abaixo:

Lealdade ao time é o que importa. Um conjunto de experiências realizado pelo psicólogo de Stanford Geoffrey Cohen ilustra esse princípio à perfeição. Os sujeitos foram informados sobre uma proposta de programa de bem­-estar social, descrito como sendo apoiado ou pelos republicanos ou pelos democratas, e perguntados sobre se aprovavam ou não o programa. Alguns foram informados sobre um programa extremamente generoso e outros sobre um programa extremamente escasso, mas isso fez pouca diferença. O que importava era o partido: democratas apoiavam o programa democrata, e republicanos, o programa republicano. Instados a justificar suas decisões, porém, os participantes insistiam que as considerações partidárias eram irrelevantes. Eles consideravam estar reagindo aos méritos objetivos do programa. Esta parece ser a regra.

O psicólogo da Brown Steven Sloman e seus colegas descobriram que, quando se pede que as pessoas justifiquem suas posições políticas, mesmo aquelas em que elas mais acreditam, muitas não conseguem apontar questões específicas. Por exemplo, muitas pessoas que disseram acreditar firmemente em limitar e negociar ou em imposto único faziam pouca ideia do que essas políticas realmente queriam dizer.

Então, sim, caso queira ver as pessoas em sua pior forma, pressione-­as sobre os detalhes daquelas complexas questões políticas que correspondem à identidade política e que partem os Estados Unidos quase que perfeitamente ao meio.

>> Assista a todos os vídeos com Paul Bloom no fronteiras.com

Mas, se este tipo de dogmatismo irracional refletisse como nossas mentes funcionam normalmente, nós sequer conseguiríamos sair da cama todas as manhãs. Esses exemplos dispersos e selecionados de irracionalidade não devem ofuscar nossa visão das bases racionais da nossa vida cotidiana. Isso seria como dizer que a coisa mais interessante da medicina não é a descoberta dos antibióticos e da anestesia ou da construção de programas em grande escala para distribuição de assistência de saúde, mas o fato de que as pessoas às vezes se esquecem de tomar seus remédios.

A razão fundamenta muito do que importa no mundo, inclusive o projeto exclusivamente humano de transformar nosso ambiente para atingir objetivos maiores. Pensemos novamente nos estereótipos raciais e de gênero.

Muita gente acredita que existem circunstâncias nas quais é errado usar esses estereótipos para fazer julgamentos. Se nos preocupamos com isso, podemos agir. Podemos usar a razão para inventar procedimentos que eliminem nossos preconceitos explícitos e implícitos. Revisões às cegas e testes às cegas impedem que juízes usem estereótipos, mesmo que inconscientemente, isolando-­os de informações sobre a raça, o sexo ou qualquer outra coisa a respeito do candidato que não sejam os méritos do que ele deveria estar julgando. O sistema de cotas e as exigências de diversidade fazem o caminho inverso, e têm a raiz em diferentes intuições sobre o que é moralmente certo de se fazer. Eles impõem a representação de grupos de minorias, dessa forma tirando a decisão das mãos de indivíduos com seus próprios preconceitos, preferências e pautas.

É assim que acontece o progresso moral. Nós não nos tornamos melhores simplesmente através de boas intenções e força de vontade, assim como normalmente não perdemos peso ou deixamos de fumar apenas querendo.

Nós usamos a nossa inteligência. Estabelecemos leis, criamos instituições sociais, escrevemos constituições e evoluímos os costumes. Gerenciamos informações e limitamos opções, permitindo que a melhor parte de nós supere aqueles sentimentos e apetites viscerais com os quais consideramos que estaríamos melhores.

Sim, nós somos seres físicos e, sim, somos continuamente modificados por fatores que escapam do nosso controle. Mas, como Aristóteles reconheceu muito tempo atrás, o que é muito interessante em nós é nossa capacidade de raciocinar, que reina sobre tudo. Se perdemos isso, perdemos quase tudo o que importa.

*Excerto do artigo de Bloom, The war on reason (A guerra contra a razão)