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Peter Sloterdijk: A fronteira entre artes, ciências, filosofia e outros saberes

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Peter Sloterdijk (arte por Não Obstante)
Peter Sloterdijk (arte por Não Obstante)

Em artigo para a Revista Fronteiras do Pensamento, o escritor e professor Rodrigo Petrônio* analisa o pensamento e a obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk, conferencista do Fronteiras do Pensamento 2016.

Após o artigo, ouça o podcast Não Obstante, em que Petrônio conversa sobre a importância de Sloterdijk para a filosofia contemporânea.

Sloterdijk é considerado um dos principais escritores vivos da língua alemã. Ganhou notoriedade sua crítica ao discurso humanista de Habermas, numa época (fim da década de 1990) em que a biotecnologia representava uma das maiores polêmicas político-filosóficas na Europa. Mas esta é apenas uma “ponta" da extensa e profunda obra de Sloterdijk, marcada principalmente por um olhar fenomenológico e por uma ontologia relacional.

Peter Sloterdijk nasceu na pequena cidade de Karlsruhe, em 1947, onde vive e é professor de filosofia e de teoria da mídia. Pelas minhas contas, até agora sua obra ultrapassa as 5 mil páginas.

Além dessa impressionante produtividade, alguns comentadores ressaltam o valor excepcional de seu ensaísmo, considerando-o um dos principais escritores vivos da língua alemã. Nesse caso, transcenderia os limites estritos da teoria. Para outros, Sloterdijk seria um dos autores mais inovadores da filosofia contemporânea.

Independente do aspecto em questão, o leitor deve ter ideia da dificuldade de sintetizar uma obra dessas dimensões, que se situa na fronteira entre artes, ciências, filosofia e saberes distintos, e se encontra ainda em plena expansão.

Em linhas gerais, o pensamento de Sloterdijk atualiza duas grandes matrizes da filosofia: a fenomenologia e a ontologia. Como diversos autores, de Hegel a Husserl e de Husserl a Heidegger, Sloterdijk articula fenômeno e ser, manifestação e realidade, emergência e devir.

Apoiando-se no método fenomenológico, sua obra consiste em uma enorme narrativa da coevolução entre vida e forma, entre sistema e meio. Se a vida é forma, não há como separar a substância dos seres de seus modos de atualização. Por isso, alguns eixos de seu pensamento são a morfologia, a teoria dos sistemas e a metabiologia. Todos os fenômenos vivos e não vivos, humanos ou meta-humanos, podem ser compreendidos a partir de suas manifestações formais. O método descritivo e a suspensão [epoch] possibilitam esse acesso transversal às formas de vida e à vida das formas, para além do bem e do mal.

Por outro lado, Sloterdijk pode ser inserido no chamado ontological turn, a virada ontológica ocorrida na filosofia e na antropologia nas últimas décadas.

A novidade de seu pensamento nesse sentido consiste na criação de uma ontologia da díade, concepção esta que tenho chamado de ontologia relacional. Se é impossível separar sistema e meio, todos os seres orgânicos e inorgânicos coexistem, em ininterruptas e novas composições.

A busca da simplicidade foi o sonho fracassado da metafísica. Apagam-se as fronteiras entre natureza e técnica, entre constituído e constituinte. Não existem seres isolados. Ser é sempre sem-com. Ser é sempre relação. Ser um é sempre ser-dois. O mundo é a constante emergência de novas composições, hibridismos, multiplicidades.

Como diz Sloterdijk, não é a essência que precede a existência. A coexistência é que precede a existência.

Nesse sentido, acredito que a obra de Sloterdijk possa ser compreendida a partir dessas duas categorias angulares: forma e relação. Essa relacionalidade radical funda um projeto estruturalmente interdisciplinar. Por meio dele, todos os fenômenos são fenômenos de intervalo, de emergência, ou seja, relacionais. O cinismo, a economia libidinal da ira no Ocidente, as construções do eu, a biotecnologia, as teorias cinéticas, a psicopolítica, a constituição da psicanálise como saber, os conflitos entre religiões, a hominização, a paleontologia, o papel das tecnologias, as teologias contemporâneas, a secularização, a politologia, as teorias da informação, dos sistemas e dos meios, as relações entre vida e arte e a identidade entre real e imaginário.

Acredito que todos esses temas que atravessam a obra de Sloterdijk possam ser compreendidos à luz da trilogia Esferas, seu opus magnum. Os fenômenos não são dados da consciência, representações ou jogos de linguagem. São processos reais, internos aos seres e às formas contingentes que esses seres assumem no espaço e no tempo.

As relações de vinculação, de proximidade, de distância, de domesticação, de imunidade e de animação configuram uma ampla teoria dos meios. Essa teoria assume diversos aspectos, mas pode ser compreendida como o conjunto das formas emergentes das multiplicidades das relações. Por meio delas, ao longo de bilhões de anos, a vida veio a ser o que é. Por meio delas, o sapiens traz em si a potência de ultrapassar suas determinações e caminhar em direção a um futuro vazio.

*Rodrigo Petrônio: Escritor e filósofo, professor da FAAP. Mestre em Ciência da Religião (PUCSP), mestre em Literatura Comparada (UERJ) e doutor na interface entre Literatura Comparada e Filosofia (UERJ)


Podcast Não Obstante >> No episódio 17 desta produção conjunta do Filosofia do Design e do Anticast, Marcos Beccari e Daniel B. Portugal recebem Rodrigo Petrônio para discutir a obra do filósofo alemão.