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Pierre Lévy, Carlo Ginzburg e a dimensão humana da tecnologia

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Crédito da imagem: Sergey Zolkon / Unsplash
Crédito da imagem: Sergey Zolkon / Unsplash

Por Júlia Corrêa*

Em um artigo publicado na Politico Magazine em 2016, Jacob Soll, professor da Universidade da Califórnia, propunha uma interessante exposição da história das fake news. O termo ganhava destaque naquele momento devido à proliferação de mentiras que marcou os bastidores da disputa eleitoral entre Hillary Clinton e Donald Trump. O argumento de Soll era de que as notícias falsas não eram um fenômeno novo. Afinal, difamações e boatos corriam à solta antes mesmo da invenção da imprensa por Gutenberg, que apenas permitiria a ampla circulação dessas mentiras.

Embora não seja este o seu objetivo, o texto de Soll contribui para o questionamento de uma ideia recorrente entre muitas pessoas — a de que a internet seria a grande culpada pela degradação do debate público, pela descrença na imprensa e pela ascensão de líderes autoritários. Nesse sentido, a exposição do professor americano sobre as fake news nos ajuda a compreender, direta ou indiretamente, as ideias apresentadas por dois pensadores que já estiveram no Fronteiras do Pensamento: o filósofo francês Pierre Lévy e o historiador italiano Carlo Ginzburg

Professor de Inteligência Coletiva na Universidade de Ottawa, Lévy abordou, em 2016, o tema da curadoria de dados e da inteligência coletiva. Antes, em 2007, ele já havia feito uma conferência para o Fronteiras a respeito da linguagem na era digital. Em sua fala mais recente, o teórico fez questão de ressaltar as qualidades da internet, como o poder que as pessoas adquiriram de falarem por si, sem o monopólio da mídia, e de discutirem coletivamente os problemas da vida política. Mas o grande alerta de Lévy concentrou-se, mais especificamente, no que seria uma frequente transferência de responsabilidade para as tecnologias em si.



De acordo com filósofo francês, devemos tomar cuidado com o fato de considerar uma mídia técnica como um agente político. Nesse terreno, aliás, a propaganda sempre existiu, muito antes da invenção da internet. Segundo essa lógica, atribuir a ascensão de regimes totalitários no século XX à popularização do rádio constituiria um “pensamento curto”. O mesmo vale para as fake news, que como bem evidenciou o texto de Soll, são produto das relações humanas, apenas intensificadas pelos meios técnicos — no caso, a invenção da imprensa. “Nós sempre encontramos esse tipo de desculpa, mas são evoluções políticas, culturais e de imaginário simbólico que estão em jogo e que, evidentemente, vão usar a tecnologia”, acrescenta Lévy. 

A respeito dessa dimensão humana, Carlo Ginzburg trouxe, em sua conferência ao Fronteiras, intitulada “A história na era Google”, argumentos que buscavam desmistificar a idealização desse “poderoso instrumento de pesquisa histórica”. Para isso, Ginzburg apresentou o caso de uma moça da Sibéria que entrou em contato com ele depois de fazer uma pesquisa na internet e chegar aos benandanti, grupo de feiticeiros abordado pelo autor em um livro de 1966. Ao ler a obra de Ginzburg, ela estabeleceu conexões entre a sua trajetória pessoal e a de uma mulher que fora condenada em 1616 por integrar o grupo. Para a moça, essa era a confirmação de que ela mesma era uma benandante, conforme um anjo havia revelado a ela. 

“Escrevi para Diana que a analogia entre ela e Maria Panzona era ilusória. Para Maria, ser benandante tinha sido uma constrição (cultural); para ela, Diana, tinha sido uma escolha, tornada possível por seu uso ativo do Google. Não fui capaz de convencê-la”, relatou Ginzburg na conferência. Com essa exposição, o historiador buscou ilustrar a sua visão de que o potencial desse mecanismo de pesquisa é imenso, mas de que não funciona sem uma pergunta que o ligue. E precisamente por essa dimensão humana (e falível) por trás das pesquisas, o Google pode ser considerado também, segundo ele, um “poderoso instrumento de cancelamento da história”, uma vez que, em nosso presente eletrônico, “o passado se dissolve”.



Em última instância, portanto, as ideias de Ginzburg e de Lévy nos permitem refletir sobre nossa responsabilidade ao usarmos a tecnologia — seja como instrumento de acesso à informação, seja como meio de ação política.


Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)