Voltar para Artigos

Podcast: A necessidade da melancolia

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
"Melancolia", por Edvard Munch (1894)

A imagem do artista, do intelectual, do pensador irrequieto e criativo está associado, no imaginário coletivo, a uma certa ideia de sofrimento, de tristeza, de angústia. Se fôssemos buscar uma só palavra que bem definisse essa imagem imprecisa que se consolidou, em grande parte, desde o Romantismo e o século XIX, tal palavra seria melancolia.

“A melancolia é necessária”, afirmou Elizabeth Roudinesco em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, em 2016.

 

 

Parece que sim, afinal, desde a época de Aristóteles – muito antes do Romantismo, portanto – acredita-se que esse traço psíquico (ou de comportamento) é constitutivo de certas personalidades. Na Grécia antiga, Aristóteles (ou um discípulo) se perguntava: “Por que todos os indivíduos excepcionais, na atividade filosófica ou política, artística ou literária, têm um temperamento melancólico e atrabiliário, sendo mesmo afetados pelos estados doentios que derivam disso?”

Segundo a medicina da época, todos os nossos estados de ânimo seriam regulados pelo fluxo dos quatro humores ou fluidos vitais: o sangue, a fleuma, a bile amarela e a bile negra (em grego: melàina cholé). Para Hipócrates, o “pai da medicina”, o excesso de líquido negro levava a uma permanência aberrante do “medo” e do “desânimo”, e daí os sintomas do melancólico: a lenteza de gestos, o comportamento penseroso, o abatimento, a genialidade criativa irritadiça. Dali em diante, essa misteriosa “tristeza sem causa” seguiu seu curso oscilante na história humana, enviesando-se pelos campos da espiritualidade, da filosofia, da vida moral e das artes e letras, e desencadeando ora um quietismo desesperado ante as misérias do mundo, ora a abertura das portas da percepção. Mas desde Galeno, passando por Robert Burton até Freud, toda vez que se tentou traçar rigorosamente os limites conceituais da melancolia, esses mesmos limites foram, ato contínuo, borrados pela fluidez de seu objeto. E mesmo hoje, na era da moderna neuropsiquiatria e dos psicofármacos sintéticos, não é diferente.

Para discutir o tema, o podcast Estado da Arte conversou com Ivan Frias (pós-doutor em Historia da Filosofia pela Universidade de Nantes na França, médico, e autor de Doença do Corpo, Doença da Alma – medicina e filosofia na Grécia Clássica), Lilian Wurzba (professora doutora do Instituto Jungiano e autora de Natureza irreal ou fantástica realidade? Reflexões sobre a melancolia religiosa e suas expressões simbólicas na obra de Hieronymus Bosch) Rodrigo Petronio (doutor em Literatura Comparada (UERJ), escritor, filósofo e professor titular da Fundação Armando Alvares Penteado).

>> Ouça o podcast!