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Por que Michel Houellebecq?

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Considerado um dos mais polêmicos e conhecidos escritores franceses da atualidade, autor de romances marcantes e provocativos como Extensão do domínio da luta, Partículas elementares, O mapa e o território e Submissão, Houellebecq retornou ao palco do Fronteiras do Pensamento em 2016, após 10 anos de sua vinda, na primeira edição do Fronteiras.

Para compreender a relevância do escritor francês ao pensamento contemporâneo, o Caderno de Sábado perguntou a Michel Maffesoli, Carlos Gerbase e Bertrand Ricard, "qual a importância de Houellebecq? Por ler seus livros?" Leia abaixo as três respostas:

LUZES BRUXULEANTES DA MODERNIDADE | por Michel Maffesoli, sociólogo e professor de Sociologia na Sorbonne

Embora afirme não gostar de Nietzsche, o escritor Michel Houellebecq poderia concordar com o filósofo alemão, que dizia « não crer em verdades que precisem ser demonstradas ». O homem comum, senhor todo-mundo, não demonstra. Contenta-se em mostrar o que é, o que está aí. « Mostração ou « Monstração » que provocou, provoca e provocará muitos sustos na medida em que as elites, por exemplo, as franceses, cegas por uma lógica moralista do dever ser, simplesmente se esquecem de ver o que é, o que está aí, o que se dá a ver.

Michel Houellebecq parece sentir um prazer malicioso em fazer esse tipo de constatação. Refiro-me a essa « neutralidade axiológica » em que o julgamento de fato ocupava legitimamente o lugar do julgamento de valor. Max Weber usava isso como método no começo da modernidade. Houellebecq, nosso engenheiro agrônomo, sabe que não se brinca com aquilo que é. Sendo assim, faz constatações.

A sua monografia de conclusão de curso não tratava justamente da poluição de um pequeno rio em Yvelines ? Nos seus romances, Michel Houellebecq como que extrapola esse aspecto mostrando (« monstrando ») essa outra poluição representada pela saturação dessa forma particular de convivência, de estar-junto, inventada pela modernidade, a da República das Luzes, República do Iluminismo.

Sempre houve espíritos lúcidos, como um Horácio, capazes de reconhecer que « muitas coisas caídas ressurgirão, e muitas outras, em alta, cairão ». Michel Houellebecq é desses autores que fazem ver que em lugar de uma história linear e progressista, sempre segura de si, há histórias, ciclos que se chocam e que suscitam o retorno de coisas que acreditávamos para sempre ultrapassadas.

Tal constatação não deve provocar inquietação ou agrura. Houellebecq parece, ao contrário, a expressão da tranquilidade de quem não se posiciona contra aquilo que entra em decadência. Ele mostra, com precisão e argúcia, o que se foi. Lendo Michel Houellebecq, tenho a impressão de ouvir um eco do pensamento de Husserl : « Toda época, conforme a sua vocação, é uma grande época ».

Lembro que o termo « época » significa parêntese. Um parêntese que se abre ou que se fecha segundo a lógica inexorável da nossa natureza humana. É isso que chamamos de mudança de paradigma. Depois de ter sido fecunda, uma matriz torna-se estéril. A partir daí, a vida (re)nasce em outro lugar. Os medíocres e os pensadores fracassados podem esfalfar-se repetindo suas ladainhas. Essas arengas não encantam mais muita gente. A verdadeira vida está noutra parte.

Assim, para além das respostas prontas, existe outra maneira de falar de encantamento. Michel Houellebecq faz, com alguma crueza, perguntas que não podem mais ser caladas. Como cada um vê meio-dia na soleira da sua porta, eu puxo a brasa para o meu lado e, nas entrelinhas da sua obra, vejo a lúcida descrição do Homo eroticus de que trato e para o qual a emoção é o elemento essencial.

Não é mais essa República Una e Indivisível, surgida no século XIX, que prevalece, mas uma res publica, uma coisa pública à qual, do jeito que dá, comunidades (que chamei, em 1988, de « tribos ») se ajustam em busca de convivência. Para bem ou mal, pior ou melhor, passa-se do antes ao depois. E claro que não adianta tentar negar esse fenômeno por considerá-lo perigoso. Vale mais à pena trabalhar para compreendê-lo e conseguir acompanhar seus desdobramentos.

O mesmo ocorre com a laicidade, termo que, na origem, caracterizava o povo (« laos ») . Depois, virou « laicismo », marca do espírito sacerdotal, tão intolerante e fanático quanto aquilo que deveria combater. Existe certo clericalismo na obsessão laica. Com alguma ironia, Michel Houellebecq mostra, « monstra », que não é possível ignorar ou tentar anular o retorno da religiosidade.

As narrativas de Michel Houellebecq lembram, com pertinência, como já se disse, que a modernidade « começa com o fim dos anjos ». Para bem ou mal, temos um « reencantamento do mundo » por meio do qual a ficção supera a realidade. Ou, mais exatamente, vê-se que o Real não se reduz ao político, ao econômico, ao racionalismo, mas é cheio de fantasmas, de fantasias, de fantasmagorias, de torrões marcados pela intensidade do espírito religioso. É esse espírito que dá todo o valor das coisas que não tem preço, as coisas do mundo simbólico e imaterial. Com a República e com a secularização, a Filosofia das Luzes, o Iluminismo, alçou voo. Mas as Luzes estão esmaecendo. Já não iluminam grande coisa nem esclarecem muita gente.

Mais uma vez, Michel Houellebecq, sem azedume, coloca o dedo na ferida. Faz isso seguindo a sabedoria popular, que, como dizia Joseph de Maistre, sabe apreciar « o encontro do bom senso e da razão ». Uma razão sensível, consciente, por experiência acumulada, de que uma sociedade asséptica resulta em violência incontrolável. Ou, ainda, que o mito igualitário e o « legalitarismo » dele derivado contrariam as duras leis que regem nossa natureza humana.

De fato, dura lex. A postura intelectual do escritor Michel Houellebecq, com a sua neutralidade, e a sua obra são uma espécie de « caricatura », no sentido literal do termo: engrossa-se o traço para destacar o que existe e constitui a vida cotidiana. Ora, a principal característica da caricatura é que ela não é exata, mas é verdadeira. E basta! Um bom romance, como um bom modo de pensar, não é aquele que revela uma sociedade para si mesma?

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VÁ, COLOQUE UM MUÇULMANO NO PODER | por Carlos Gerbase, cineasta, escritor e professor da Famecos/PUCRS

A modernidade encerrou a era dos herois heroicos e confiáveis. Há quem diga que eles nunca existiram. Afinal, Aquiles era um narcisista e um sádico, Ulisses era um demagogo e Agamemnon matou a própria filha, afirmando que esta era uma exigência dos deuses para que a Hélade fosse à guerra, quando, na verdade, alimentava sua fome egoísta pelo poder. Os gregos podiam ser corajosos, mas estavam longe daquela retidão de caráter que se espera de um heroi de verdade. Talvez do outro lado da luta, na figura do troiano Heitor, encontremos maior solidez moral, mas, infelizmente, Heitor não soube controlar um irmão lascivo e inconsequente, além de se submeter a um pai de desmedido orgulho. A Ilíada e a Odisseia inauguram a literatura ocidental com um pacote de personagens tão grandes quanto eticamente imperfeitos.

A cristandade, contudo, soube forjar uma cultura em que a retidão de caráter e a alma impoluta tornaram-se matérias-primas essenciais na construção dos herois. É claro, a partir da Renascença temos anti-herois como Don Quixote e Hamlet, nada confiáveis e muito difíceis de enquadrar, mas o padrão heroico da literatura e do teatro mais “comerciais" do final do século 19, que foi herdado pelo cinema, exige que o protagonista enfrente o mal com absoluta convicção de que há dois lados no conflito e de que ele está do lado certo, ou seja, o lado do bem. A aurora da minha formação intelectual está vinculada a esse tipo de heroi. Tarzan podia ser um quase-selvagem, mas tinha uma ética inatacável, enquanto os civilizados europeus eram, por natureza, pouco confiáveis. Os moradores do Sítio do Picapau Amarelo, começando com Dona Benta e terminando em Emília, queriam, todos, um mundo mais justo e desprezavam os desvios de caráter. O Batman daqueles tempos não tinha dilemas morais: ele estava a serviço da justiça e metia na cadeia os criminosos. Simples assim.

Essa simplicidade, pelo menos para mim, terminou em algum momento do final dos anos 60, quando comecei a ler os livros certos (ou errados, aí depende do ponto de vista). O Capitão Nemo, por exemplo, era um cara bacana, um cientista cheio de grande ideais, ou um marginal perigoso, um pirata, um outsider egoísta a ser devidamente enquadrado pela civilização? Até hoje estou em dúvida. O próprio Capitão Rodrigo, para ficarmos na mesma patente, era um sujeito corajoso e bem intencionado, mas tinha seus arroubos machistas e cometia todo tipo de violência, nem sempre justificada. Para quem acha que estou fazendo uma salada indigesta, misturando Edgar Rice Burroughs, Monteiro Lobato, Júlio Verne e Erico Veríssimo no mesmo prato, tenho que advertir: este é apenas um aperitivo para a mistura ainda mais sem pé nem cabeça que farei daqui pra diante: vou comparar os herois de Harper Lee e Michel Houellebecq.

Atticus, personagem criado por Harper Lee, é um advogado que mora em Maycomb, uma pequena cidade do Alabama, no sul dos Estados Unidos, lá pelos anos 1930. O François de Houellebecq é um professor universitário que vive numa Paris cosmopolita, em 2022. Aparentemente, além da imensa distância histórica e geográfica, há um contraste notável entre as condutas morais de Atticus e François. Em O sol é para todos, Atticus defende um negro, injustamente acusado de estupro, mesmo que para isso ele tenha que enfrentar o preconceito de toda a cidade. Atticus é, em suma, um corajoso e virtuoso heroi romântico. Em Submissão, François vai se deixando levar – lenta e inexoravelmente – por uma nova ordem ideológica e cultural que toma conta da França, resultado de uma aliança da esquerda e do centro com um partido denominado Fraternidade Muçulmana. Atticus, um humanista, está ao lado de um negro pobre e vítima de preconceito. François, um niilista, é seduzido pelos petrodólares, por uma universidade convenientemente amordaçada e pela possibilidade de casar-se com duas mulheres: uma boa na cozinha e outra boa na cama.

Além de ser um grande sucesso literário, com reedições frequentes até os dias de hoje, o romance de Harper Lee ainda virou um longa (devidamente oscarizado) estrelado por Gregory Peck no papel de Atticus, o que reforçou a lenda do advogado branco, paladino da justiça, que não se deixa dobrar pelo preconceito irracional de uma sociedade doente. A lenda durou até que, depois da morte de Harper Lee, fosse publicado Vá, coloque um vigia, em que reencontramos os mesmos personagens de O sol é para todos, alguns anos depois. Há uma grande polêmica em torno desse segundo romance. Alguns críticos dizem que Harper Lee nunca quis que ele saísse da gaveta e é resultado da ganância de seus herdeiros. E há quem defenda – estou com esse grupo – que a publicação de Vá, coloque um vigia, é um evento literário sensacional, que nos faz pensar, numa perspectiva muito desconfortável, sobre a integridade moral do advogado Atticus Finch e sobre a visão de mundo de Harper Lee.

O François de Submissão é um sujeito solitário, quase um misantropo, que, coerente com a trajetória de outros anti-herois de Houellebecq, não está nem aí para a democracia (tão ineficaz que provocou a vitória da Fraternidade Muçulmana) e para a moral burguesa (tão corrompida pelo dinheiro que nada pode reclamar do arrivismo dos milionários árabes). O Atticus de Vá, coloque um vigia, é um cidadão que se reúne regularmente com os elementos mais reacionários da cidade para discutir como manter os negros em seu devido lugar, ou seja, na pobreza e na ignorância. Quando pensamos que pode haver um engano – afinal, é o Atticus, nosso heroi! – ficamos sabendo que, não muito tempo atrás, Atticus participou de uma organização chamada Ku Klux Klan. Mas, afinal, por que este advogado defendeu um negro, indispondo-se com toda a cidade? Simplesmente para manter as aparências. Atticus, que era um heroi da justiça, vira um mentiroso desprezível.

Simplifiquei bastante as coisas e, principalmente, esqueci de falar da filha de Atticus, Scout Finch, a verdadeira heroína de Harper Lee, mas, mesmo nesse quadro esquemático que montei, dá pra perceber que François é um personagem menos condenável que Atticus, não só porque sua submissão é resultado de forças sociais poderosas agindo sobre um indivíduo frágil, mas também porque ele não chega a ter participação ativa e consciente nas atrocidade cometidas pelos novos donos do poder. Atticus está envolvido até o pescoço com os atuais donos do poder e, por mais que tente justificar sua posição como uma defesa dos “velhos valores do sul", que estão sendo exterminados por uma suposta ascensão social dos negros, não fica qualquer dúvida – pelo menos para mim – de que ele não passa de um reacionário da pior espécie, isto é, daquela que não admite claramente o que pensa do mundo. Perto de Atticus, François é bastante honesto. Perto da Harper Lee de Vá, coloque um vigia, Michel Houllebecq é um escritor que ainda procura sua definitiva submissão ao fim dos herois e ao fracasso do homem.

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POR QUE SE DEVE LER MICHEL HOUELLEBECQ? | por Bertrand Ricard, Professor na Universidade de Reims, França

Se Michel Houellebecq é o escritor francês mais conhecido e traduzido no mundo atualmente, ele sempre é também objeto de polêmicas e controvérsias. Nos últimos 20 anos, os seus adversários mais persistentes não pararam de atacá-lo e de desqualificá-lo por tudo e quase nada. Já o trataram de machista, reacionário, racista, provocador, escandaloso e sem estilo. Mas o homem resiste e a obra se mantém de pé apesar das críticas e dos seus possíveis pontos fracos, alguns das quais o próprio autor estimulou. Existe certamente um lado masoquista em Houellebecq. Muitas vezes, suas incursões midiáticas acabam por colocar seus livros em segundo plano. É um pouco como se o criador não conseguisse se impedir de reduzir o alcance da sua criatura provocando regularmente polêmicas ocas e fastidiosas. Se o autor é muito conhecido, contudo, nem todos o leram realmente ou se aventuraram a superar esse aroma de escândalo que envolve todos os seus livros. Ora, uma coisa é fundamental, para além desse lado marqueteiro consciente ou não: é preciso absolutamente, mais do que nunca, ler Houellebecq. Por quê?

Antes de tudo, porque Houellebecq, assim como Lobos Antunes, faz parte dos raros escritores que jamais cedem a qualquer forma de pressão para seduzir jurados de Nobel. Ele busca, acima de tudo, descrever o mundo tal qual ele é, como ele o vê, não como o mundo poderia ou deveria ser. Na obra de Houellebecq as relações humanas são áridas, duras, às vezes, interesseiras, objeto de acordos e de comprometimentos, o que se vê bem especialmente no seu último romance, Submissão, no qual professores universitários não hesitam em sacrificar até as suas mulheres em nome do sucesso na carreira acadêmica. Os raros sentimentos que se exprimem dirigem-se, com frequência, a animais domésticos mais do que a seres humanos. Aqueles personagens que cedem ao sentimentalismo acabam literalmente moídos pela existência, como se observa nos primeiros romances de Michel Houellebecq, que nos apresenta um mundo maculado, impuro, imperfeito, no momento em que o politicamente correto se impõe, pouco a pouco, em todas as esferas da existência pública ou privada.

Em segundo lugar, é preciso ler Houellebecq porque ele está, quase sempre, um passo à frente, uma ideia, um pensamento adiante em relação aos demais. Quem antes dele mostrou a desestruturação fundamental das relações produzida pelo neoliberalismo, como se vê em Extensão do domínio da luta? Que mostrou melhor do que ele a impregnação das nossas sociedades por essa religiosidade porosa que se dissemina por toda parte sob a forma de um retorno em força dos monoteísmos de seitas ou « comunidades que emergem », como diria Agamben ? Bem antes dos atentados na França, ele já havia colocado o dedo na ferida das dificuldades que a sociedade francesa encontraria num futuro próximo, o que já está ocorrendo. Por fim, Michel Houellebecq não hesita em recorrer à ciência, como em Partículas elementares, ou à sociologia, para dar estofo ou ampliação às suas narrativas. Longe de um mero efeito de estilo, trata-se sobretudo para ele de demonstrar a que ponto a ciência, mole ou dura, impregna nossos modos de pensar e nossas ações individuais ou coletivas.

Na era e na hora da internet, das novas tecnologias e do desenvolvimento das neurociências e do pensamento cognitivo, muitos escritores continuam, ao contrário de Houellebecq, temerosos de abordar as consequências da ciência no cotidiano. Michel Houellebecq justifica o uso de teorias na sua ficção como sendo úteis para explicar o contexto da ação ou dos acontecimentos sociais ou políticos. De qualquer maneira, a força principal da sua obra consiste em ser uma literatura de ideias no momento em que a maioria dos escritores só pensa no próprio umbigo ou em contar a própria vida « miserável ». Houellebecq vai além da simples narrativa de acontecimentos puramente idiossincráticos e privilegia uma verdadeira leitura sociológica do que nos acontece, na medida em que estamos presos em contingências sociais e sociológicas que acabam, como em toda grande literatura, por tornar-se « históricas ». Houellebecq pode ser um fraco psicólogo, mas é um brilhante sociólogo.

Enfim, é preciso ler Houellebecq também porque seus livros são divertidos e cheios de humor. Longe dos clichês que falam dele como um autor de forma rasa ou sem estilo, frio ou clínico, o escritor nunca deixa de resolver uma situação qualquer com uma tirada espirituosa ou de humor, dando leveza à narrativa e criando um distanciamento interessante em relação à posição do leitor. É como se Michel Houellebecq, por trás do seu lado sério e até sombrio, lembrasse todos nós do caráter efêmero e ligeiro da vida. Como se a mensagem principal fosse « não é tão sério ou grave quanto parece ». Nesse sentido, ele representa bem a ambiguidade que nos caracteriza e envolve, encurralados que estamos entre a gravidade e a leveza.