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Projetos que valorizam a vitalidade das cidades

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Neste mês, a Prefeitura de Copenhague lançou um relatório que coloca a cidade como pioneira na grande virada da mobilidade urbana: as bicicletas agora já ultrapassam os automóveis no trânsito local.

O mais recente balanço de tráfego indica que, em média, 265.700 bicicletas entraram no centro de Copenhague por dia no último ano, em comparação com 252.600 carros. É a primeira que vez isso ocorre desde que os registros começaram em 1970.

Cheia de bicicletas, repleta de espaços verdes e com ótimo transporte público. Em setembro, Copenhague foi eleita a cidade mais habitável do mundo por uma publicação especializada. O surpreendente, talvez, seja saber que até o início da década de 1960 não era assim. À frente do pensamento que mudou Copenhague estava um de seus moradores: o arquiteto Jan Gehl, que, desde 1971, quando lançou seu primeiro livro, Life between buildings ("Vida entre prédios", em tradução livre), é o porta-voz de um urbanismo feito para as pessoas.

Jan Gehl é o conferencista que encerra a temporada 2016 do Fronteiras do Pensamento. O arquiteto sobe ao palco do Fronteiras São Paulo hoje, quarta-feira.

Envie sua pergunta para Gehl até o final da manhã através do e-mail digital@fronteiras.com. A pergunta selecionada será respondida pelo dinamarquês diretamente do palco do projeto. Amanhã, divulgaremos a resposta em nosso site e canais digitais, patrocinados pela Braskem.

Conheça o trabalho deste urbanista que se dedica, há mais de meio século, a fazer das cidades espaços de promoção de saúde, interação e qualidade de vida. Em artigo exclusivo ao Fronteiras, Edson da Cunha Mahfuz* nos fala sobre a importância do trabalho de Gehl para o futuro da vida urbana. Leia abaixo e não esqueça de nos enviar sua pergunta.

Na imagem em destaque, Guia para construir cidades cicloinclusivas na América Latina e no Caribe - Gehl Architects)

PROJETOS QUE VALORIZAM A VITALIDADE DAS CIDADES

Atualmente, há muitos arquitetos famosos entre o público leigo; em geral, suas produções não têm qualidade compatível com suas famas, nem suas obras são relevantes para a sociedade como um todo. Jan Gehl é uma exceção: é bem conhecido entre os arquitetos, sem gozar da fama que os arquitetos-estrela possuem, e começa a ser conhecido por quem se interessa pelo futuro das nossas cidades. Esse reconhecimento não está baseado em charme pessoal ou estratégias de marketing, mas na capacidade das suas ideias de transformar para melhor a vida de muita gente por meio da qualificação dos espaços urbanos em que vivem.

Gehl nasceu em 1936, em Copenhague, e estudou na Academia Real de Belas Artes da Dinamarca, onde também foi professor e pesquisador até se aposentar. Em 2000, fundou o Gehl Architects e passou a se dedicar exclusivamente a consultoria e projetos urbanísticos. No entanto, o conhecimento que é procurado por clientes localizados em 40 países 1, na sua maioria públicos, foi desenvolvido desde muito cedo na sua carreira, a partir do momento em que, questionado por sua esposa psicóloga, começou a desenvolver pesquisas de campo que buscavam entender como as pessoas realmente usam o espaço público e o que constitui espaços benéficos para a vida humana. Também foi de grande influência na sua formação o “planejamento humanístico" de Jane Jacobs, autora do famoso livro Morte e vida de grandes cidades, de quem se considera uma espécie de neto intelectual.

Para entender a evolução e a importância do pensamento de Gehl, é fundamental que se saiba que ele se formou em arquitetura no momento em que predominava uma ideologia urbanística pouco interessada nas pessoas reais (embora seus praticantes apoiassem políticas sociais de esquerda), que não entendia como a arquitetura influencia pessoas nem como a cidade é usada pelas pessoas. Gehl descreve esse período, por volta de 1960, como o fundo do poço para o urbanismo.

A partir do momento em que entendeu que o ambiente urbano edificado tem enorme efeito sobre o que se pode fazer ou não fazer – “os edifícios emolduram nossas vidas" –, Gehl passou a desenvolver estudos sobre o modo como as pessoas usam os espaços públicos e quais componentes tornam um espaço mais ou menos vital.2

Jan Gehl vê a evolução das cidades em três estágios de duração diferente. O primeiro estágio é a cidade tradicional, predominante até 1960. Obviamente, a cidade histórica continua existindo, mas deixou de ser a referência principal do planejamento urbano nas últimas décadas. Até recentemente, não se entendia por que a cidade histórica é tão boa para viver. Na sua maioria, os arquitetos modernistas, embora tivessem preocupações sociais, não entendiam o que faz as pessoas mais felizes do ponto de vista do urbanismo. As qualidades da cidade tradicional só ficaram evidentes quando começamos a perdê-las.

É importante aprender como as pessoas usam os espaços públicos e levar tudo em conta ao propor melhorias, incluindo a experiência acumulada ao longo da história. As cidades antigas são boas fontes de inspiração para a cidade contemporânea, e não apenas aquelas do nosso país. Culturas podem ser diferentes, mas no fundo todos fazemos parte da mesma espécie. Por isso, muitas experiências podem ser transladadas a outros tempos e lugares. A maioria do que é proposto hoje por Gehl e sua equipe não é exatamente inovação, mas fruto de suas cuidadosas observações de como a vida transcorre nas boas cidades – em geral tradicionais – e nas más – quase sempre geradas pelo urbanismo pós-guerra.

O segundo estágio é o da “cidade invadida", caracterizada por dois paradigmas destrutivos que dominaram o pensamento e a prática do urbanismo desde o segundo pós-guerra, sendo 1960 uma data emblemática, não por acaso o ano da fundação de Brasília. O primeiro paradigma destrutivo é a cidade fora de escala, projetada desde cima, cidades que são ótimas e parecem belas quando vistas de um avião, mas que são terríveis para se viver ao nível do chão. Como exemplos, ele cita Brasília – e chegou a criar o termo “síndrome de Brasília" para ilustrar o problema –, Dubai e as cidades chinesas das últimas décadas. No caso brasileiro, Brasília exemplifica o pior do urbanismo modernista: ruas e avenidas dedicadas primordialmente ao tráfego veicular, espaços abertos de dimensões gigantescas, edifícios muito afastados entre si, baixa densidade, pouca atividade nos térreos, separação das atividades essenciais da cidade em setores funcionalmente exclusivos e distantes entre si.

O outro paradigma destrutivo é a cidade do carro, onde as ruas deixam de ser espaços públicos e as pessoas ficam em segundo plano. Se a mobilidade é o aspecto prioritário do urbanismo, a cidade como lugar de encontro morre.

Contra esse tipo de cidade que oferece baixa qualidade de vida estaria surgindo, segundo Gehl, um novo paradigma, o da “cidade reconquistada", sustentável, amigável para as pessoas, que é compacta, composta por bons espaços públicos, segura, boa para caminhar e pedalar, com boas opções de transporte público e vegetação por todo lado. Pode-se dizer que há uma tendência mundial de recuperar as cidades para o uso humano seguindo essas linhas.

“A vida em bons espaços públicos é parte importante de uma vida democrática e completa." (Jan Gehl)

Um dos temas que mais interessam a Gehl e seus associados é o da importância do que acontece ao nível da rua para a qualidade de vida nas cidades. Gehl crê que, nos últimos 50 anos, a dimensão humana foi seriamente negligenciada pelo planejamento urbano, o que é evidenciado pela falta de estudos e de visão dos urbanistas em relação ao que acontece ao nível da rua. Os estudos que há, na sua maioria realizados pela equipe de Gehl, comprovam que quanto mais atividade acontecer no nível térreo, mais segura e saudável será a cidade. Quanto mais gente estiver na rua, melhor. Como já havia afirmado Jane Jacobs há 50 anos.

O sucesso das cidades depende de como os edifícios se relacionam com o solo, como se conectam entre si e como os espaços públicos ao seu redor se organizam. A vida que ocorre entre os edifícios é mais importante do que os próprios edifícios. É uma pena que a maioria dos arquitetos estejam mais interessados na forma dos edifícios do que nas atividades que eles propiciam ou impedem.

Trazer as pessoas para a rua e mantê-las aí depende da criação de uma série de condições fundamentais para isso. No livro Cidades para pessoas, Gehl sugere 12 critérios para avaliar a qualidade de uma cidade quando considerada ao nível da rua.

1. Proteção dos pedestres contra o tráfego e acidentes, o que elimina o medo do trânsito e leva a uma sensação de segurança.

2. Proteção contra o crime e a violência urbana: depende de haver muitas atividades na rua – dia e noite –, de a rua estar sob os olhos de muita gente, e ter boa iluminação.

3. Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis, causadas por vento, chuva, calor/frio, poluição, ruído, poeira etc.

4. Oportunidades para caminhar: espaço suficiente e sem obstáculos, boas superfícies, acessibilidade para todos e fachadas interessantes, que ofereçam o que ver.

5. Espaços de permanência: zonas atraentes para sentar e/ou ficar de pé nas bordas dos espaços, suportes para ficar de pé.

6. Ter onde sentar, aproveitando as vantagens que o lugar oferece.

7. Possibilidades de observar: vistas interessantes, distâncias razoáveis, sem obstáculos, iluminação.

8. Oportunidades de conversar e ouvir: baixo nível de ruído, mobiliário adequado e que leva a isso.

9. Locais para jogar e se exercitar: convite à criatividade e a atividades físicas, a toda hora e em todas estações.

10. Escala humana nos edifícios e nos espaços abertos: que sejam pensados para a pessoa que caminha e não para quem passa dentro de um carro. É uma questão de tamanho e densidade.

11. Oportunidades de aproveitar os aspectos positivos do clima: sol/sombra, calor/frescor, brisas.

12. Experiências sensoriais positivas: bom projeto arquitetônico, bons materiais, vistas, árvores, plantas e água.

Dificilmente se consegue alcançar todos os itens ao examinar ou criar espaços públicos. Mas deve-se sempre tentar obter o máximo. Um caso em que todos os 12 itens estão presentes é a Piazza del Campo, em Siena, na Itália.

Outro tema central ao pensamento da Gehl Architects, compartilhado por muitos urbanistas, é que a cidade compacta e densa é melhor e mais sustentável do que a sua versão espraiada. Segundo este pensamento, as cidades devem ser compactas e complexas. Em oposição à segregação de funções, cada bairro deve oferecer acesso a saúde, escola e trabalho, tendo como base a moradia e o transporte coletivo de qualidade. Misturar as atividades e reunir as pessoas é essencial para a vitalidade das cidades.

A boa cidade equilibra a função de ser lugar de encontro com a de lugar de mercado de bens e serviços, servidos por uma boa mobilidade. O planejamento urbano contemporâneo deve ser pensado como uma série de setores – bairros ou vilarejos – que possam ser percorridos a pé, conectados por transporte público eficiente, como as contas de um colar 3.

As melhores cidades favorecem a realização dos três tipos principais de atividades externas: as necessárias ou funcionais – que formam o dia a dia de cada um –, as opcionais – que só ocorrem sob condições externas favoráveis – e as sociais, que dependem da presença de outras pessoas em espaços públicos.

A expansão horizontal das cidades, combinada com baixa densidade, é coisa do passado, pois os combustíveis fósseis têm os seus dias contados. Mas alta densidade não significa cobrir a cidade com torres, que são uma resposta preguiçosa ao problema; como comprovam Barcelona e Paris, é possível atingir altas densidades sem passar dos 6 ou 7 andares 4. No entanto, para fazer uma cidade baixa e densa é preciso bons arquitetos, sensíveis ao que é preciso para fazer o nível da rua ser atraente.

Algumas pessoas relacionam medidas como as mencionadas acima a um processo de gentrificação da cidade, isto é, da substituição de populações de baixa renda por outros com mais recursos. Gehl sugere que isso pode ser evitado tomando-se medidas para incluir todos os grupos sociais quando a cidade se qualifica, não apenas do ponto de vista econômico como demográfico.

Embora o conceito de cidade compacta e densa seja hoje quase uma unanimidade, as cidades brasileiras se desenvolvem horizontalmente e com baixa densidade, sendo a anomalia mais gritante o alto número de condomínios fechados que surgem em toda parte. Embora reflitam a insegurança reinante, sua consequência mais importante é matar a cidade tradicional.

Outro tema importante é o da mobilidade; Gehl considera muito importante tomar medidas para reduzir o uso de carros particulares. A solução para o congestionamento não é simplesmente melhorar o transporte público, mas criar mais opções para o deslocamento das pessoas: a pé, de bicicleta, táxi, ônibus, trem, teleférico etc.

Grande parte do trabalho da Gehl Architects é focado no uso da bicicleta, que eles veem como um meio de transporte que vai se tornar cada vez mais comum. Uma cidade que incentiva as pessoas a caminhar e pedalar – criando condições para isso – é uma cidade mais saudável: além de aumentar a saúde individual de cada ciclista, diminui a poluição, o consumo de combustível não renovável e os gastos com saúde pública.

Uma cidade densa, compacta e que concentra muitas atividades essenciais em pouco espaço favorece o caminhar como meio de transporte. Mas para uma caminhada ser prazerosa é preciso haver o que ver e fazer ao longo do caminho, ou seja, os sentidos precisam ser estimulados. Daí o esforço deste escritório dinamarquês para qualificar as cidades.

Ler os livros de Jan Gehl nos enchem de esperança de poder criar e viver em cidades melhores. No entanto, essa esperança logo se esvai quando nos damos conta de que no Brasil nos faltam duas condições essenciais. Uma é a segurança, coisa inexistente até nas cidades menores. Como aproveitar a vida na rua e nos parques se estamos sujeitos a ser assaltados a qualquer momento? Melhorias urbanísticas ajudam, mas não resolvem o problema. A outra condição é a omissão das autoridades, que muito raramente assumem papel propositivo quando se trata de urbanismo, preferindo agir como bombeiros em situações que normalmente são irreversíveis.

De qualquer modo, Jan Gehl nos oferece os instrumentos para qualificar nossas cidades. Mais não pode fazer. O resto é conosco.


*EDSON DA CUNHA MAHFUZ é graduado em Arquitetura pela UFRGS (1978), pós-graduado pela Diploma School da Architectural Association School of Architecture (Londres, 1980) e doutorado pelo Doctoral Program
in Architecture da University of Pennsylvania (Filadélfia, 1983). Atualmente, é professor titular de Projetos da UFRGS, onde leciona na graduação e na pós-graduação (Propar).


1 No Brasil, ele já atuou ou está atuando em projetos em São Paulo (Praça da Sé), Florianópolis (Bairro Pedra Branca) e no Distrito Federal.

2 Estas pesquisas resultaram numa série de livros dos quais os mais importantes são: Cidades para pessoas, Editora Perspectiva, São Paulo: 2014; Life between buildings, Island Press, Washington, DC: 2011; New City Spaces (com Lars Gemzoe), The Danish Architectural Press, Copenhagen: 2006, e How to Study Public Life (com Birgitte Svarre), Island Press, Washington, DC: 2013.

3 Idealmente, o tamanho desses bairros não deveria ultrapassar um diâmetro máximo de 1km, com todas as necessidades essenciais aí incluídas, permitindo a movimentação a pé.

4 Não é necessário sair da América do Sul para encontrar bons exemplos da cidade compacta e densa: os bairros Bom Fim, Menino Deus e Moinhos de Vento em Porto Alegre, Higienópolis em São Paulo, Leblon, Ipanema no Rio de Janeiro, Positos em Montevidéu e Recoleta e Palermo em Buenos Aires.


Acesse o libreto preparatório para a conferência com Jan Gehl. O libreto contém biografia, indicações de livros, links com o escritor, bem como algumas de suas ideias: “As cidades se tornaram tão atraentes para as pessoas mais jovens – que preferem bicicleta ao carro, tomar café no centro ao subúrbio – que estão encarecendo. Você precisa ter política econômica, não só urbanismo."