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Quando se trata de Covid-19, a entrega ao risco é coisa de jovem

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Imagem: United Nations / Unsplash
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Quem tem maior probabilidade de ignorar as regras de distanciamento social?

Os jovens adultos, que se amontoaram em parques e praias durante as férias e agora andam falando em festas COVID-19? Ou seus pais, que parecem se perguntar “Me preocupar? Pra quê?” quando pensam em viagens de férias ou aulas de ioga?

E quanto aos avôs e avós? A avó de um amigo, com 88 anos de idade, afirmou que não pretendia abrir mão das partidas de damas com o bisneto. Quando perguntada sobre a quarentena, ela respondeu: “Na minha idade, vou me preocupar com o quê?”.

Conforme as lojas e escolas forem reabrindo, a resposta a essa questão será crucial para as estratégias de combate ao coronavírus causador da COVID-19. Ainda que no momento vacinas e remédios fantasiosos (como o desinfetante sugerido por Trump) monopolizem as conversas, o principal fator de contaminação tem sido o comportamento humano. E o comportamento social humano muda de acordo com a idade.

Em toda parte, jovens entre 16 e 19 anos constituem grupos pequenos e muito próximos, enquanto adultos com mais de 20 se integram em redes mais amplas, constituídas a partir de afinidade e interesses em comum. As pessoas de meia idade se ligam umas às outras em razão de suas responsabilidades, concentrando seus momentos de socialização em qualquer âmbito possível. Já os idosos veem suas amizades caírem por terra de uma hora para outra, e por isso valorizam os relacionamentos remanescentes tantos quanto os adolescentes.

Não há dúvidas de que, para os adultos, sacrificar o contato social é doloroso em qualquer idade ou estágio da vida, ainda mais para os jovens e solteiros. É por isso que fiquei com a pulga atrás da orelha após ler uma pesquisa publicada pela Statistics Canada no início de abril, segundo a qual 90 por cento dos canadenses de todas as idades estão cumprindo rigorosamente as orientações de distanciamento físico. Para começo de conversa, a pesquisa é aberta: ela se baseia em formulários online preenchidos por voluntários. Quem responde a esse tipo de enquete? Cidadãos preocupados que matam o tempo no website Statscan e se dispõem a gastar suas horas de ócio preenchendo questionários. Qualquer pessoa que já assistiu a Schitt’s Creek sabe que esse detalhismo não é um atributo universal dentre os canadenses.

>> Leia ainda: Como o coronavírus se comporta dentro de um paciente?

Em epidemias anteriores, constatou-se que a idade está muito relacionada ao espalhamento de um vírus. A gripe de 1918, que deixou ao menos 50 milhões de mortos, devastou uma geração inteira. A idade era um fator de grande impacto na hora de determinar quem perderia a vida, assim como é nos dias de hoje. À época, eram os jovens adultos que tinham a maior probabilidade de morrer. De acordo com Jacalyn Duffin, professora de história da medicina na Queen’s University de Kingston, os jovens tinham muito pouca imunidade das ondas anteriores de gripe e se aglomeravam mais, fossem eles “soldados em quarteis ou estudantes em dormitórios”, e a transmissão do vírus se dava nesses alojamentos. Na época, como hoje, a pneumonia era o ceifador da morte.

Mas agora os mais velhos são os mais vulneráveis. Hoje são eles que vivem aglomerados, seja em prédios altos, casas de repouso ou clínicas especializadas. Tendo sobrevivido décadas a mais que a geração de seus avôs e avós, esse grupo etário acumulou mais doenças crônicas, que corroem suas defesas. E, é claro, há razões estruturais para os altos índices de mortalidade entre idosos. Cuidadores mal remunerados, que precisam cumprir turnos consecutivos em diferentes lares de repouso para garantir seu sustento, transportaram involuntariamente o vírus de um local para outro. Mas será que de início esses idosos estavam descrentes?

É possível que alguns idosos tenham sido displicentes durante o avanço da pandemia, mas duvido que esse estrato tenha acelerado a taxa de infecção de maneira significativa. Uma série de estudos recentes demonstrou que, conforme ficamos mais velhos, aprendemos a domar melhor os nossos impulsos. Em um estudo publicado no mês passado pelo periódico Emotion, pesquisadores enviaram notificações de smartphone três vezes ao dia para adultos com idades entre 20 e 80 anos. Seu intuito era descobrir o que os tentava naquele exato momento, fosse comida, bebida, contato social, sexo, compras ou a Internet – e se eles eram capazes de resistir a essas tentações.

“Uma das descobertas mais interessantes foi que os adultos mais velhos resistem melhor aos seus desejos, mesmo quando não estão satisfeitos com suas vidas”, disse Daisy Burr, autora principal do estudo e pesquisadora da Duke University, dos Estados Unidos. “Mas isso custa esforço”, afirmou Gregory Samanez-Larkin, professor de psicologia na Duke. “Acho que os adultos mais velhos sabem reconhecer quando algo importa de verdade. É uma questão de estabelecer prioridades.”

E nossas prioridades variam conforme o estágio da vida. Outra enquete aberta da Statscan publicada na semana passada relata que adultos de diferentes idades têm preocupações distintas em relação à pandemia. Canadenses entre 15 e 24 anos, e aqueles com idade até 44, estão mais preocupados com questões sociais, como ter que ficar confinado em casa e a “possibilidade de caos civil”.

Em contraste, 60 por cento dos idosos estão “muito ou extremamente preocupados com sua saúde”. A preocupação dos idosos com a própria saúde, somada à sua habilidade de dominar os impulsos, faz com que seja muito improvável que um número considerável deles viole as normas de distanciamento físico.

Como escreveu Oscar Wilde, “a tragédia da velhice consistem não em sermos velhos, mas em sermos jovens”. Em outras palavras, os desejos persistem conforme envelhecemos. Mas e os prazeres da indulgência? Isso é coisa de jovens – mesmo que caiba aos idosos pagar o preço.

(Via The Globe and Mail)