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Rede de intrigas – mídias sociais e fake news (I)

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Mark Zuckerberg (imagem por Eddie Guy/Wired)
Mark Zuckerberg (imagem por Eddie Guy/Wired)

Por Eduardo Wolf | No dia 08 de fevereiro passado, o jornal Folha de São Paulo anunciou que não utilizaria mais sua página no Facebook para divulgar seu conteúdo. A notícia teve repercussão nacional, como era de se esperar, mas confesso que não sei se o mercado e o meio profissional deram a devida atenção ao que a jogada do maior jornal do país pode significar. A repercussão internacional que a decisão da Folha teve, com matérias no americano Wall Street Journal e no britânico The Guardian, talvez fosse já indicativa da maior importância do fato. A matéria de capa da revista Wired que acaba de sair, contudo, inequivocamente aponta para a centralidade do problema Folha/Facebook. A empresa de Mark Zuckerberg é, hoje, não apenas uma peça essencial no mundo da mídia (jornais, rádios, tv’s, publicidade, etc.): é uma peça chave também para o funcionamento da democracia.

Leia a matéria da Wired: Inside the Two Years That Shook Facebook — and the World

Aos fatos. A razão pela qual a Folha decidiu deixar de publicar conteúdo em sua página do Facebook é simples: no dia 11 de janeiro, Mark Zuckerberg divulgou uma mudança importante no algoritmo do feed de notícias de sua rede social, que passaria a privilegiar mais postagens de amigos e familiares em detrimento de conteúdo de empresas. Um dos setores mais fortemente atingidos pela medida, obviamente, foi o das empresas de comunicação e jornalismo.

O Facebook perdeu, em apenas um dia, 24 bilhões de dólares. Zuckerberg sozinho perdeu aproximadamente 3 bilhões. Ainda assim, a mudança não apenas foi mantida como, agora se sabe, foi fruto de dois longos e difíceis anos de conflitos internos e externos na empresa, como revela o incrível trabalho jornalístico de Nicholas Thompson e Fred Vogelstein para a Wired. Pressões políticas, uma eleição presidencial traumática, sabotagem internacional, pressão econômica e disputa de poder: a rede social criada para aproximar alunos de Harvard e que em pouco tempo se transformou em uma plataforma mundial para mais de 2 bilhões de pessoas acabou se envolvendo em uma trama que mais se parece com um thriller hollywoodiano.

A mudança no algoritmo do feed de notícias foi motivada, de público, por uma dupla intenção: promover interações positivas entre os usuários (tecla na qual Zuckerberg insiste constantemente) e enfrentar o problema da propagação das fake news. Os dois objetivos são louváveis e, mais importante, verdadeiros: diversas equipes da companhia vinham trabalhando nessas alterações havia tempo. A história de como esse propósito se tornou tão indispensável para a sobrevivência do Facebook, no entanto, é muito mais complicada, e começou, como se poderia imaginar, durante os primeiros estágios da campanha presidencial dos Estados Unidos, em 2016, que elegeu Donald Trump presidente do país.

Como podemos ler na impressionante matéria dos repórteres da Wired, tudo começou em fevereiro de 2016 quando um jornalista que trabalhava na divisão de Trending Topics (os assuntos com mais destaque na nossa time line do Facebook) vazou duas informações para um colega do site Gizmodo. A primeira era um simples memorando de Zuckerberg criticando aqueles que não tinham entendido a mensagem do movimento Black Lives Matter, numa indicação indireta e genérica de apoio à causa. A segunda destacava uma das questões preferidas dos funcionários da empresa para discutir em encontro com seu CEO: “Que responsabilidade o Facebook tem na tarefa de impedir que Trump seja presidente?”. Isso mesmo que você leu.

Não é difícil adivinhar que as matérias tiveram repercussão e que os funcionários que vazaram as informações foram demitidos. Já a dimensão que esse problema aparentemente menor iria ganhar não é tão previsível. Em pouco tempo, os executivos do Facebook se viram forçados a negociar pesadamente com representantes de diversas alas do Partido Republicano para garantir que a plataforma era neutra ideologicamente, não selecionando discricionariamente conteúdo algum. E a preocupação da empresa em deixar isso muito claro não era apenas para agradar um partido ou uma facção ideológica: por lei, o Facebook precisa ser neutro (seção 230 do do Communications Decency Act, de 1996). Caso contrário, seria possível responsabilizar o Facebook pelo conteúdo que circula em suas páginas, o que levaria, em seguida, a pesadas regulamentações que incidiriam sobre a companhia. A preocupação é tão grande que quase 10 milhões de dólares foram gastos somente em 2016 com 36 lobistas em Washington para impedir que o governo... regule o Facebook.

O problema é que a coisa não ficou por aí. Não bastou à gigante de tecnologia mostrar que era, sempre tinha sido e sempre seria “uma plataforma para todas as ideias”, sem seleções prévias, sem trabalho editorial ou intervenção de conteúdo que privilegiasse um assunto, uma posição política ou uma visão de mundo em detrimento de outros. Claro, esse era o mantra do Facebook. Ocorre que, desde 2012, quando resolveu enfrentar seu principal concorrente – o Twitter, que havia se tornado a mídia social número um na divulgação de conteúdo jornalístico –, a empresa de Mark Zuckerberg tinha entrado com tudo na indústria jornalística: em alguns anos, o Facebook assumira a posição de fonte principal de acesso a notícias de uma gigantesca parcela da população.

Em pouco tempo, um fenômeno que hoje conhecemos muito bem se consolidou: “li no Face”. Ao se tornar uma das principais vias de acesso às notícias, com jornais e televisões aliando-se à plataforma, o Facebook ajudou a tornar indiscernível para milhões de pessoas exatamente de onde vinham essas notícias. Fosse da Folha de São Paulo ou do Globo, jornais tradicionais com equipes profissionais, fosse do “MegaBlastNews” (estou inventando, é claro, um nome de site de notícias falso), o Facebook, cumprindo com seu papel de plataforma neutra, não distinguiria os posts, não interferiria na divulgação desses conteúdos e não faria nada para impedir a propagação desses conteúdos.

O leitor consegue imaginar o que isso significou para a empresa? Dou uma pista: há até mesmo uma investigação do FBI sobre o assunto. Exato: a interferência russa na campanha presidencial de 2016 nos Estados Unidos por meio de fake news.   

Parece ou não um enredo hollywoodiano? 

>> Leia a segunda parte deste artigo   

EDUARDO WOLF | Doutor em Filosofia pela USP, curador-assistente do Fronteiras do Pensamento