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Rede de Intrigas – mídias sociais e fake news (II)

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Mark Zuckerberg (imagem por Eddie Guy/Wired)
Mark Zuckerberg (imagem por Eddie Guy/Wired)

Enquanto milhões de pessoas interagem com conteúdos falsos no Facebook, a pressão política sobre a mídia social aumenta. Em meio às eleições norte-americanas, Mark Zuckerberg precisa tomar uma decisão: seguir agarrado à suposta neutralidade ou agir e intervir o quanto antes. 

Eduardo Wolf prossegue o artigo sobre a(s) polêmica(s) mudança(s) no algoritmo do Facebook e sobre como tudo isso tem afetado o mundo da informação e, portanto, a sociedade como um todo. Acesse a parte I deste texto antes de continuar sua leitura abaixo:

Por Eduardo Wolf | “A mais importante decisão editorial da história”. Essa é uma boa maneira de caracterizar a atitude do Facebook em relação ao seu feed de notícias, leitor. Lembre-se que, no artigo anterior, chamei atenção para uma característica do modo como as notícias são veiculadas no seu feed: não há diferença de formato, de espaço, de identidade visual e de possibilidade de acesso que diferencie uma coluna de opinião de uma matéria investigava, nem uma matéria de um jornal profissional de uma matéria falsa produzida por jovens da Macedônia – grandes produtores de fake news –  vendendo os clicks na página. “É difícil argumentar que não se tratou de uma decisão editorial. Pode ter sido uma das mais importantes jamais tomada”, escrevem Nicholas Thompson e Fred Vogelstein em seu artigo.

Muito mais do que uma frase de efeito, a tese dos repórteres da revista Wired captura perfeitamente bem o que estava em jogo. Vamos seguir com a análise deles. De um lado, a empresa de Mark Zuckerberg sentia-se pressionada a andar na linha e não fazer nenhum tipo de intervenção no conteúdo do que era publicado na plataforma; de outro, ao seguir esse caminho, a rede social mais popular do planeta se transformou no maior veículo de transmissão de fake news que se poderia imaginar. O que fazer?

Para completar a situação infernal vivida pela empresa, todo esse quadro vinha se desenhando em plena campanha eleitoral para a presidência dos Estados Unidos. Rapidamente, até os investidores da empresa começaram a perceber que conteúdos que se pareciam com notícias, na verdade, não eram, e que atividades associadas a um ou outro candidato, na realidade, eram falsificações grosseiras. Uma “notícia falsa” alegando que o Papa havia publicamente apoiado Trump para presidente atingiu perto de um milhão de interações. Outras postagens travestidas de notícias, como as que afirmavam que Hillary Clinton vendia armas para o Estado Islâmico em pouco tempo passaram a alcançar mais pessoas e a gerar mais engajamento do que as notícias verdadeiras.

Se você acha que essas preocupações são exageradas, que o acontece no Facebook não tem esse impacto todo, especialmente em uma eleição como a dos Estados Unidos, você não está sozinho. Melhor: não estaria sozinho por algumas semanas logo após a eleição de Trump, pois foi assim que o próprio Mark Zuckerberg reagiu à situação em um primeiro momento. Os fatos, no entanto, comprovam o contrário, e o próprio Zuckerberg se curvou à realidade: até o então presidente, Barack Obama, conversou com ele, e a companhia mobilizou uma força tarefa interna que atuou para mitigar os efeitos das fake news, que, conforme se verificou depois, foi decisivo na estratégia de interferência da Rússia nas eleições americanas – mais de 350 milhões de interações com conteúdos falsos orquestrados desde a Rússia foram registrados.

Em um ano, a empresa de Mark Zuckerberg mudou muito: da acusação de interferência em conteúdo por razões ideológicas para a acusação de omissão por razões de neutralidade. O Facebook, que se agarrara à tese de sua neutralidade para responder as primeiras acusações, agora se via obrigado a intervir diretamente em conteúdo para conter o veneno das notícias falsas e demais virais perigosos. Com isso, abriria mão da neutralidade – correndo risco de perder suas garantias legais de não ser responsável pelo conteúdo compartilhado. Se não tivesse partido da própria companhia a decisão de mudar seu funcionamento, a mudança teria vindo de fora. “Vocês criaram essa plataforma, e agora ela está sendo mal utilizada. Consertem isso – ou nós consertaremos”. Essas foram as palavras da senadora pela Califórnia Dianne Feinstein durante os depoimentos de executivos e diretores do Facebook nas investigações no senado americano sobre a interferência russa nas eleições de 2016.

Então? Ficou sério o suficiente?

Claro que sim. A história do que ocorreu com o Facebook nos Estados Unidos entre 2016 e 2017 não diz respeito ao que você ou eu gostamos de fazer com nosso aplicativo no celular. É, antes, a história de como essa plataforma se transformou em um dos mais importantes atores do mercado jornalístico – para muito além do mundo das tech ­­– com impacto decisivo na política em escala global. Não por acaso, as consequências para a empresa, diante das acusações de omissão no caso das fake news e da interferência russa, eram potencialmente graves.

As decisões de Mark Zuckerberg, no início de janeiro, de mudar o algoritmo do Facebook e diminuir o peso que as notícias teriam no seu feed não foi um capricho, nem uma mudança abrupta, nem uma decisão impensada. Pelo contrário. Foi um movimento muito pensado, estrategicamente bem amparado pelo histórico da empresa e por um amplo leque de informações. A companhia não perde as garantias da neutralidade da legislação de 1996 (pelo contrário, reforça-as) e enfrenta o problema das fake news, assumindo suas responsabilidades.

De toda essa trama, contudo, confesso que dois grandes questionamentos permanecem. Primeiro, com relação às tão comentadas fake news. Será que, ao se valer de uma mudança no algoritmo para reduzir a presença de notícias no feed o Facebook ajuda a despoluir a rede do veneno das notícias falsas? Para esse questionamento, já temos evidências muito interessantes disponíveis que nos permitem formular uma resposta. E essa resposta é, lamentavelmente, negativa. Em outubro de 2017, o Facebook fez testes com seu algoritmo em alguns países removendo páginas de empresas de jornalismo profissional do feed de notícias das pessoas. Os resultados, comprovadamente, foram o oposto do que se desejava: mais fake news, não menos, como mostraram distintos relatos vindos da Sérvia e da Bolívia analisados no New York Times. Este excelente apanhado na New York Review of Books apresenta as linhas gerais desse impasse.

Mas há um segundo questionamento. Ao noticiar sua desistência da plataforma de Zuckerberg, a Folha afirmou que o fluxo de leitores enviados ao jornal pelo Facebook vinha caindo (24% dos acessos externos), tendência verificada em outros veículos. Qual é, então, exatamente a dependência que as empresas de comunicação têm em relação ao Facebook? O cenário fica particularmente confuso quando consideramos a situação das principais empresas de jornalismo no Brasil. Em 3 anos (2015-2017), houve uma queda de 520 mil exemplares em circulação. A grande esperança desses veículos seria o aumento de assinantes digitais. Contudo, apenas 32 mil novos assinantes foram registrados no mesmo período, um crescimento pífio. Mas há um lugar onde os grandes jornais e revistas vinham crescendo: nas redes sociais. O seu número de seguidores e de leitores de matérias não pagas é gigantesco (6 milhões apenas a Folha de S. Paulo). Tudo isso indica que os milhões de usuários das redes sociais são leitores das “chamadas” das notícias e dos “posts” do Facebook – mas não dos jornais.

Ao fim deste longo artigo, já podemos dizer que não foram apenas dois anos infernais para o Facebook, esses últimos. Foram difíceis e cheios de desafios para a imprensa, para a democracia e para as nossas convicções em uma e outra.

O que vem pela frente? Por enquanto, arrisco dizer que continuaremos a saber lá mesmo, no nosso feed do Facebook

EDUARDO WOLF | Doutor em Filosofia pela USP, curador-assistente do Fronteiras do Pensamento