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Redes globais, cidades unidas

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Richard Sennett e Sakia Sassen (foto: Krytyka Polityczna)
Richard Sennett e Sakia Sassen (foto: Krytyka Polityczna)

Questões espaciais. Eis a palavra-chave para entender a obra da socióloga Saskia Sassen, e também de Richard Sennett, grande estudioso das Ciências Sociais, área em que escreveu mais de 15 livros. Sassen publicou dez livros, um dos quais o famoso The global city: London, New York, Tokyo (A cidade global: Londres, Nova York, Tóquio), publicado em 1991 e que ganhou uma segunda edição em 2001.

O que viriam a ser cidades globais, expressão popularizada pela pesquisadora? São os centros de comando da economia mundial. Quanto mais destes centros tiverem uma cidade, mais global será tal cidade. Quanto mais sedes de empresas transnacionais e organismos internacionais tiver, mais tal cidade será global.

Conhecida por seu trabalho sobre o papel da globalização e das cidades na economia mundial, em 2002, Sassen editou o importante volume Global networks, linked cities (Redes globais, cidades unidas), com contribuições dos principais estudiosos no campo das cidades globais e assuntos relacionados. O livro se divide em três partes: a arquitetura urbana das redes globais, as regiões fronteiriças e os nós da rede, em um total de 12 capítulos. A obra também é o resultado de um programa de pesquisa iniciado em 1996 e patrocinado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade das Nações Unidas em Tóquio. O objetivo central do trabalho é:

contribuir para a especificação empírica e teórica da [...] arquitetura organizacional (de globalização) e suas consequências para as cidades [...] com foco nas maneiras como se articulam as cidades do sul globalizado, que ocupam principalmente as categorias intermediárias da hierarquia global com seus circuitos econômicos de fronteira [...]. Analisa a influência das novas tecnologias de informação e comunicação para elevar e reduzir a desigualdade nessa hierarquia [...] (e) analisa a reorganização socioespacial dentro dessas cidades.

Os capítulos sobre Cidade do México, Beirute, Xangai e Buenos Aires exploram as trajetórias específicas através das quais essas cidades estão se tornando parte dos circuitos globais na contemporaneidade.

Se a pergunta de Sassen em The global city era como a globalização agia para reorganizar ou reestruturar as assim chamadas cidades alfa-globais, a discussão agora se dirige ao que ocorreu em outras cidades, mais especificamente em cidades do Terceiro Mundo como Cidade do México, São Paulo e Buenos Aires. Mas o livro também aborda os casos de Dubai, Hong Kong e Amsterdã. Sendo assim, a questão é como as tecnologias da informação e da comunicação alteraram as “cidades de categoria intermediária" e sua relação com a economia global, e também como a organização de seus espaços mudou com a globalização.

A primeira parte, “A arquitetura urbana de redes globais", fornece uma hierarquia do caráter global das cidades, onde os autores mensuram diversas atividades para averiguar se uma cidade é ou não global e onde se localiza. Os dados incluídos nesses cálculos levam em conta se há nas cidades sucursais de empresas multinacionais de serviços financeiros, bancários, publicitários e jurídicos, as infraestruturas de telecomunicação que movem a economia e até mesmo o tráfego aéreo entre as cidades.

A segunda parte do livro, “As regiões fronteiriças", fornece uma explicação e mostra que as assim chamadas “cidades de categoria intermediária", tais como aquelas estudadas nesta coleção de ensaios, desempenham um papel mais tradicional para unir a economia global com vários países se comparadas às cidades “alfa-globais", que estão mais diretamente interligadas. Nas cidades “de categoria intermediária", as diferenças econômicas aumentaram devido às atividades informais que substituíram os trabalhos industriais de migração.

A última parte, “Os nós da rede", com os capítulos sobre Hong Kong, Xangai, Buenos Aires e Amsterdã, apresenta diversos modelos de gestão de redes globais. O capítulo sobre Amsterdã é particularmente rico, pois aborda a história da rede de internet livre da cidade digital. As cidades estudadas têm mais coisas em comum entre si, isto é, com as outras “alfa-globais", do que com outras cidades em seus próprios países, ainda que existam particularidades provocadas por suas histórias específicas de culturas locais e movimentos sociais. Por essas e outras razões, o livro é uma contribuição importante para a literatura sobre as cidades e a globalização. Uma leitura que vale a pena.

*Joel Outtes é Doutor em Geografia Humana pela Universidade de Oxford e professor no Departamento de Urbanismo da UFRGS