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Retrato do artista quando cidadão

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Fernanda Torres e Vik Muniz abrem a temporada de conferências do Fronteiras do Pensamento 2018, com debate especial (Foto: Circolare)
Fernanda Torres e Vik Muniz abrem a temporada de conferências do Fronteiras do Pensamento 2018, com debate especial (Foto: Circolare)

O artista é percebido no meio social de diversas maneiras. Sua atuação como agente estético e cultural, obviamente, é precípua e definidora – mas ele também pode notabilizar-se ao assumir voz em arenas como política, economia, sociedade, comportamento e sexualidade. No Brasil de hoje, é cada vez mais frequente a presença de artistas que se colocam no proscênio do debate público pleiteando para si uma identidade em especial, que não está em conflito com seus outros papéis – ao contrário, é mesmo constituinte de todos eles: a de cidadão.

Fernanda Torres e Vik Muniz, convidados responsáveis por abrir em maio o Fronteiras do Pensamento 2018 com um par de conferências seguidas de debate, fazem parte desse tipo de criador, que se articula para além de suas expressões artísticas específicas e tira partido de sua inserção popular e midiática para colocar em pauta temas e ideias que extrapolam o campo da cultura – sem, no entanto, excluí-la da conversa. Esse tipo de artista-cidadão, é claro, não é exatamente um sujeito novo: ele sempre deu um jeito de se fazer notar. O que talvez lhe confira maior notoriedade seja a profusão hoje em dia de plataformas para a difusão de suas opiniões e – circunstância negativa – a urgência cívica em ocupá-las com um pensamento que se oponha ao obscurantismo medievalista, que viraliza assustadoramente na ágora da internet e dos meios de comunicação.

Fernanda Torres e Vik Muniz abrem a temporada de conferências do Fronteiras do Pensamento 2018, em maio, com um debate especial. Garanta sua participação nas conferências deste ano, que propõem a temática O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais, e que acontecem em Porto Alegre e São Paulo, de maio a novembro.


Os dois acreditam no poder transformador e libertador da arte, da educação e do conhecimento – não por seu atrelamento a projetos político-ideológicos específicos, mas pela imanente natureza emancipadora da cultura. Especialmente nos dois romances que já publicou, Fim (2013) e A Glória e seu Cortejo de Horrores (2017), mas também nas crônicas que vem publicando na imprensa com assiduidade desde 2007, Fernanda aborda com olhar crítico e irônico as ilusões perdidas e as falcatruas perpétuas da política institucional brasileira; já Vik, cuja trajetória é marcada por obras que questionam sutil ou explicitamente a exploração do homem, o consumismo, a superficialidade contemporânea e o desperdício, propugna outro tipo de política – conforme afirmou em entrevista recente à Zero Hora: “Trabalhar a relação das pessoas com a realidade é o papel político do artista, independente de partido, de posicionamento político. Quando você ensina as pessoas a verem a realidade melhor, você está fazendo um papel político”.

Colunista do jornal Folha de S.Paulo e da Veja Rio e colaboradora da revista Piauí, a atriz e escritora envolve e diverte os leitores com sua prosa fluente, que estabelece com o leitor uma intimidade de mesa de bar – tanto na crônica quanto no registro da ficção. A visão arguta de Fernanda Torres sobre o espelhamento mútuo entre arte, sociedade e história recente no Brasil, tema de seus dois romances – curiosamente, ambos narrados por personagens masculinos –, reflete-se também nos artigos que publica em periódicos. A autora liga os pontos: um texto sobre Leila Diniz chega ao julgamento do mensalão passando no caminho pelas fornicações de Carlos Imperial, enquanto uma pensata acerca de House of Cards inevitavelmente termina em Brasília. Ao expor-se em seus escritos, a aclamada vencedora da Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes de 1986 pelo filme Eu Sei que Vou Te Amar abandona o conforto da consagração para espernear como cidadã brasileira inconformada. “A depressão de agora se reflete nas artes, não à toa a insatisfação se virou contra os artistas. Um país deprimido só pode detestar sua própria cultura. A cultura é o reflexo do próprio país”, definiu Fernanda à revista Tpm.

Para Vik Muniz, a verdadeira potência da arte está em expor seus truques e subverter seus conceitos: pintando uma Mona Lisa com geleia, criando um mapa-múndi gigantesco com computadores obsoletos ou construindo uma réplica de 14 metros de comprimento de um barquinho de papel batizado de Lampedusa, que navegou pelos canais de Veneza alertando para as tragédias dos imigrantes ilegais que naufragam nas costas da Europa, ele problematiza aparentes oposições – como alta e baixa cultura, perene e efêmero, realidade e ilusão, natureza e cultura, significante e signo. Um dos artistas brasileiros de maior visibilidade internacional, Vik e seu trabalho foram retratados no filme Lixo Extraordinário (2010), que acompanha o processo de um impressionante projeto de cunho social que desenvolveu com catadores de materiais recicláveis no antigo aterro de Jardim Gramacho, no Rio – o documentário foi premiado nos festivais de Sundance e de Berlim e indicado ao Oscar da categoria. “A arte tem um aspecto ético, eu vi em Lixo Extraordinário como ela mudava o jeito como as pessoas se viam. A arte humaniza”, disse Vik em entrevista que fiz com ele para ZH, publicada em 2016.

Em um mundo em desacordo – no qual os mínimos denominadores comuns parecem quimeras, as práticas dialógicas sucumbem à algaravia dos monólogos e os princípios democráticos são aviltados –, um encontro como o de Fernanda Torres e Vik Muniz é um revigorante alento. Quem sabe não será a aliança entre arte e cidadania que vai nos salvar dos zumbis?

(Originalmente publicado na Revista Fronteiras ZH)