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Roger Scruton: O que é cultura e por que devemos ensiná-la?

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O que é cultura? Um tópico que data desde as primeiras conferências do Fronteiras do Pensamento, em nomes como Camille Paglia, Fredric Jameson, Simon Schama, Mario Vargas Llosa e Terry Eagleton, que esteve no projeto em 2010.

Foi ao lado de Terry Eagleton que o próximo convidado do Fronteiras, o filósofo britânico Roger Scruton, discutiu o ensino da cultura no mundo contemporâneo.

Duas vozes, quase que diametralmente opostas, mostrando o que pensam sobre uma das questões mais fundamentais para a sociedade atual. Eagleton já veio ao projeto defender seu posicionamento. Agora, é a vez de Scruton nos apresentar sua visão, a de um profundo admirador das grandes obras que marcam nossa civilização. Um amor que não se dá apenas pela apreciação da obra em si, mas também da sabedoria transmitida por este tecido que chamamos de cultura.

Leia abaixo a fala do intelectual. Ao final do texto, assista à exposição de Eagleton e Scruton com legendas em português.


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Roger Scruton: O que é cultura e por que devemos ensiná-la?

Sou professor de filosofia e ensino, particularmente aqueles aspectos da filosofia que tocam nas artes. Não há sentido em ensiná-los se eu não pensar que há alguma coisa para ser aprendida aqui.

Penso que o que deve ser aprendido é a cultura, mas, o que é cultura?

Há duas visões contrastantes sobre ela. Diria que a cultura, da forma que a ensinamos nas universidades, é ou quer ser, uma forma de sabedoria que deve ser transmitida às pessoas de maneira a dizer algo que contém elementos de conhecimento. Este conhecimento não poderia ser adquirido de outra forma; a cultura é transmitida do seu próprio jeito, não como as ciências são, mas de outra maneira difícil de definir.

Porém, há aqueles que a ensinam em universidades, no departamento de humanas, que enxergam a cultura como algo diferente: enxergam-na como parte da classe dominante ou como a ideologia de uma ordem social em particular. Aqui, o propósito de ensinar a cultura não é para transmiti-la; mas, ao contrário, para enfraquecê-la ou para expor os poderes que estão secretamente por trás dela

Acredito que a segunda abordagem iniciou uma guerra cultural entre as pessoas.

Esta guerra cultural se dá entre dois grupos: aqueles que se consideravam professores de cultura, como quem transmite uma forma de sabedoria que seria útil não só para o estudante como para a continuidade da ordem social à qual o estudante pertence; e aqueles que enxergam como seu dever primário desmascarar, desconstruir ou mostrar as estruturas de dominação - para usar uma expressão de Foucault - que estão por trás da nossa forma de pensar, falar e apreciar a arte e a música: ou seja a nossa civilização.

Acredito que a origem da segunda abordagem, de desmascarar, é a teoria marxista de ideologia, que ficou proeminente bem depois que Marx a escreveu, com a escola de Frankfurt, na Alemanha, e entre as guerras e, obviamente, na França de 1968, sob a influência de pessoas como Foucault.

É muito importante reafirmar outra visão de cultura, como algo que vale a pena não só ser transmitido, mas que contém conhecimento. O tipo de conhecimento que a cultura contém não é como o conhecimento científico, não é um conjunto de fatos e teorias.

Quando as pessoas pensam em cultura em termos de conjunto de teorias é porque estão tomando a abordagem marxista de desmascará-la para achar uma explicação.

Vejo a cultura como uma forma de conhecimento prático, algo que proporciona uma noção do que fazer, do que sentir, de como ser com outras pessoas em comunidade. A cultura irá realçar sua própria competência emocional e social. Acredito que é isso que você aprende com a literatura e, particularmente, através da música.

Esse aspecto da cultura é muitas vezes esquecido.

A maior conquista da nossa civilização - religião e ciência à parte - foi a música, uma tradição contínua de reflexão através do som, do que é ser humano.

Conheço a constante tentativa de levar essa reflexão adiante para criar estruturas abstratas, nas quais mesmo assim temos nossas emoções naturais espelhadas como seres sociais e racionais.

Acredito que essa grande conquista é algo que deve ser transmitido aos jovens e que muda vidas: muda não só a maneira de pensar o mundo, mas de enxergar uns aos outros.

Isso é algo que se conquista encorajando os jovens a amar. Amar a cultura e nela encontrar tudo de melhor que existe em si mesmo. É isso que a educação cultural deveria ser: transmitir esse tipo de autoconhecimento capaz de mostrar porque você é como é, além de mostrar como se encontrar no mundo à sua volta.