Voltar para Artigos

Sam Harris: a questão moral de Joshua Greene

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Na obra
Na obra "A paisagem moral", Harris reflete sobre o embate polêmico entre religião e ciência.

Por Sam Harris* | O filósofo e neurocientista Joshua Greene realizou alguns dos estudos mais influentes sobre moralidade usando neuroimagens. Embora Greene queira entender os processos cerebrais que governam nossa moral, ele acredita que deveríamos ser céticos sobre o realismo moral, por uma questão metafísica. Para Greene, a questão não é: "Como você pode ter certeza de que suas crenças morais são verdadeiras?", e sim: "Como é possível que as crenças morais de qualquer pessoa sejam verdadeiras?". Em outras palavras, o que no mundo poderia tornar uma afirmação de cunho moral verdadeira ou falsa? Aparentemente, Greene acredita que a resposta a essa pergunta seja "nada".

>> Joshua Greene é o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo desta quarta-feira (30). Garanta sua participação nesta temporada de conferências (São Paulo e Porto Alegre). Envie sua pergunta para Greene até a manhã do dia 30.

Porém, parece-me que essa é uma pergunta fácil de responder. A visão moral A é mais verdadeira que a visão moral B se ela conduzir a uma compreensão mais precisa das conexões entre pensamentos/intenções/comportamentos humanos e o bem-estar. Será que forçar mulheres e meninas a usar burcas dá uma contribuição líquida positiva ao bem-estar humano? Será que produz moças e rapazes mais felizes? Ou homens mais compassivos e mulheres mais satisfeitas? Será que melhora o relacionamento entre homens e mulheres, entre meninos e suas mães, ou entre meninas e seus pais? Eu apostaria minha vida como a resposta para cada uma dessas perguntas é "não". Acho que muitos cientistas também. E, no entanto, como já vimos, a maioria dos cientistas foi treinada a pensar que tais juízos são meras expressões de viés cultural — e que, portanto, são pouco científicos em princípio. Pouquíssimos de nós parecemos dispostos a admitir que tais verdades morais simples se encaixem cada vez mais no escopo da nossa visão de mundo científica. Greene articula muito bem tal ceticismo:

Os juízos morais são em sua maioria guiados não pelo raciocínio moral, e sim por uma intuição moral de natureza emocional. Nossa capacidade de fazer juízos morais é uma adaptação evolutiva complexa a uma vida social intensa. Na verdade, somos tão bons em juízos morais que, do nosso ponto de vista, eles são bastante fáceis de fazer e formam parte do "senso comum". E, como acontece com outras capacidades do nosso senso comum, tomamos essa habilidade para fazer juízos morais quase como um instinto, um sentido que nos permite discernir, de maneira imediata e confiável, fatos morais independentes de processamento consciente. Como resultado, temos uma inclinação errônea a crer no realismo moral. As tendências psicológicas que estimulam essa falsa crença têm um propósito biológico importante, e isso explica por que achamos o realismo moral tão atraente, mesmo sendo falso. O realismo moral, mais uma vez, é um erro que nós nascemos para cometer.

Greene alega que o realismo moral assume que "a visão moral das pessoas é uniforme a ponto de nos permitir falar em 'certo' e 'errado', ‘justo' e 'injusto' como se esses conceitos fossem verdades estabelecidas". Mas será que precisamos assumir tal uniformidade para que haja respostas certas e erradas a questões de cunho moral? Será que o realismo físico ou biológico tem como pré-requisito "uniformidade suficiente na visão [física ou biológica] das pessoas"?

Tomando a humanidade como um todo, tenho certeza de que há mais consenso de que a crueldade é errada (uma percepção moral comum) que de que a passagem do tempo varia de acordo com a velocidade (relatividade especial) ou de que humanos e lagostas têm um ancestral comum (evolução). Deveríamos duvidar de que existe uma "verdade estabelecida" a respeito dessas alegações físicas e biológicas? Será que a ignorância geral sobre a teoria da relatividade ou a ampla resistência dos americanos em aceitar o consenso científico em torno da evolução põem nossa visão de mundo científica em questão, ainda que levemente?”

Greene nota que muitas vezes é difícil fazer as pessoas concordarem sobre verdades morais, ou mesmo fazer um indivíduo concordar consigo mesmo em contextos diferentes. Essas tensões levam à seguinte conclusão:

As teorias sobre a moral falham porque nossas intuições não refletem um conjunto coerente de verdades morais e não foram desenhadas pela seleção natural para se comportar como se fossem... Se você quer entender seu sentido moral, volte-se para a biologia, a psicologia e a sociologia — não para a ética normativa.

Essa objeção ao realismo moral pode parecer razoável, até alguém perceber que ela pode ser aplicada a qualquer domínio do conhecimento humano com o mesmo efeito nivelados. Por exemplo, também é verdadeiro dizer que nossas intuições lógicas, matemáticas e físicas não foram desenhadas pela seleção natural para buscar a Verdade. Será que isso significa que devemos parar de ser realistas sobre a realidade física? Não precisamos ir muito longe na ciência para encontrar ideias e opiniões que desafiam uma síntese simples. Existem muitos esquemas conceituais (e níveis de descrição) na ciência que resistem à integração e dividem nosso discurso em áreas de especialização, chegando a colocar ganhadores do prêmio Nobel de uma mesma disciplina uns contra os outros. Isso significa que nunca poderemos esperar entender o que realmente acontece no mundo? Não. Significa que a conversa precisa continuar.

Obter uma uniformidade total na esfera moral — tanto no plano interpessoal quanto no interpessoal — pode ser impossível. E daí? Todas as áreas do conhecimento humano padecem da mesma indefinição. O consenso total como objetivo científico só existe no limite, num hipotético fim da investigação. Por que não tolerar o mesmo grau de abertura quando pensamos no bem-estar humano?

De novo, isso não significa que todas as opiniões sobre a moral sejam igualmente justificadas. Ao contrário — a partir do momento em que aceitamos que existem respostas certas e erradas para questões de cunho moral, precisamos admitir também que muitas pessoas simplesmente estão erradas a respeito da moralidade.

*Excerto da obra A paisagem moral: Como a ciência pode determinar os valores humanos