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Seu sofrimento é moral ou espiritual? Uma viagem à boa vida, com Luc Ferry

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"Arthur Rimbaud in New York" (por David Wojnarowicz, 1978)

Luc Ferry nos convida a uma viagem ao mais perfeito mundo, um mundo plenamente moral. Ao chegarmos lá, neste universo de igualdade, respeito e gentileza, nos depararemos com muitos conflitos terríveis.

Isso ocorrerá não porque a moral não importa, mas porque existe outro lado nesta grande viagem da existência humana: é o que o filósofo francês chama de espiritualidade.

E é justamente aqui que ele vai lhe propor uma imersão em uma das mais poderosas maneiras de perceber o mundo, a filosofia.

Entenda como até mesmo em nossas utopias mais belas o sofrimento humano prossegue – e encontre as ferramentas certas para reconhecer a origem dos seus conflitos e os caminhos que podem lhe levar à vida boa.

Luc Ferry retorna ao Fronteiras do Pensamento em 2019 para encerrar o ciclo de conferências deste ano. Garanta sua presença no evento com um dos filósofos mais instigantes do projeto.

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Leia abaixo a reflexão de Luc Ferry

Gostaria de fazer uma distinção filosófica que é absolutamente crucial e que não é suficientemente feita no debate público. Trata-se da importante diferença que existe entre duas esferas de valor, entre dois tipos de valor: de um lado, os valores morais; de outro lado, aquilo que chamarei de valores espirituais. Não se trata da mesma coisa, e gostaria de lhes dizer em poucas palavras porque faço essa distinção entre essas duas esferas de valor.

O que são valores morais? Seja qual for a sua referência moral, há em todas as grandes visões morais do mundo — que seja em Buda, em Jesus, em Platão, em Aristóteles ou ainda na moral dos Direitos Humanos de hoje em dia — sempre dois elementos, dois traços característicos, de modo que a conduta moral depende, em primeiro lugar, do respeito aos outros, aos amigos, aos parentes, aos colegas de trabalho; e, em segundo lugar, da bondade, da gentileza, da boa vontade para com os outros.

A moral sempre foi fundamentalmente o respeito ao outro mais a bondade, os Direitos Humanos mais a generosidade, o respeito e a boa vontade; eis os dois pilares essenciais da moral.

Imaginem a seguinte pequena fábula, e vocês vão compreender por que digo que os valores morais e os valores espirituais são completamente diferentes.

Imaginem que nós tenhamos uma varinha mágica que permita fazer, de uma só vez no mundo, com que todos os seres humanos se comportem moralmente uns com os outros, que todos sejam respeitosos em relação aos outros e que todo mundo seja animado principalmente pela boa vontade e pela bondade.

Isso mudaria completamente a face do mundo: não haveria mais guerras, não haveria mais massacres, não haveria mais genocídios, não haveria mais estupros, não haveria mais roubos, provavelmente não haveria mais desigualdades sociais muito acentuadas, não teríamos mais necessidade de prisões, nem de policiais, nem de exércitos; a face da terra mudaria completamente.

Essa mudança moral não teria, contudo, efeito sobre a esfera espiritual. Com efeito, mesmo se a mais bela moral do mundo fosse aplicada da maneira mais correta possível, do modo mais perfeito, isso não nos impediria de morrer. Você pode ser gentil, mas vai morrer do mesmo jeito, isso não tem nada a ver com a moral.

Isso não nos impediria tampouco de envelhecer. Você pode ser gentil, muito respeitoso em relação aos outros, mas vai envelhecer do mesmo modo.

A questão da morte e a questão do envelhecimento não são questões morais.

Você pode ser muito gentil, pode respeitar os outros e saber por um policial, ou por um médico, que seu filho ou sua filha tem um câncer, que sofreu um acidente de carro, que vai possivelmente morrer; nada disso é uma questão moral. O luto pelo ser amado, a morte daqueles que amamos, não é uma questão moral.

Toda a história da literatura romanesca, todos os grandes romances desde o século 17 contam as aventuras infelizes de pessoas moralmente formidáveis e infelizes no amor, pessoas que são muito boas, que são seres morais, mas que se apaixonam por alguém que não as ama.

Você pode ser uma pessoa muito boa moralmente e ser infeliz no amor. A lógica do amor não é uma lógica moral.

Pode-se ir ainda mais longe. A questão do tédio, a questão da banalidade da vida cotidiana tampouco é uma questão moral; ter sempre a mesma mulher na mesma cama, ter sempre o mesmo homem na mesma cama pode ser fastidioso, pode ser entediante, nós podemos sonhar com outras coisas, com outra vida amorosa, com outro país. Vocês sabem, o grande poeta Rimbaud dizia: “a verdadeira vida é alhures”1, e nós todos tivemos um dia ou outro o sentimento de que poderíamos talvez ter outra vida.

A questão do tédio e a questão da banalidade da vida cotidiana não são questões morais.

Todas essas grandes questões existenciais — a morte, o amor, o tédio — as reúno sob o nome de espiritualidade. A espiritualidade toca na grande questão da vida boa: o que é uma vida boa? O que é uma vida bem-sucedida? A moral, portanto, não é suficiente.

Para saber o que é uma vida boa, uma vida bem-sucedida, é preciso responder essas questões que denomino de espirituais, ou existenciais; e tais questões são, nas nossas existências, muito mais importantes do que as questões morais.

Vou lhes fazer uma confissão, creio que nunca acordei com um grande problema moral, isso nunca me perturbou. Mas, já me aconteceu de estar loucamente apaixonado e de pensar nisso o dia todo, no meu banho, no trem, no avião, no metrô, e isso me ocupava mil vezes mais do que a questão de saber se a clonagem será autorizada ou se a triagem de embriões o será. A questão da vida boa toca a espiritualidade.

Há duas grandes respostas, dois grandes tipos de resposta à questão da vida boa. Em primeiro lugar, há respostas que passam por Deus e pela fé, pela crença, trata-se da espiritualidade religiosa: Cristo nos promete a vida boa, nos promete uma vida bem-sucedida, mas é preciso crer, é preciso passar por Deus, é preciso ser salvo por Deus, é uma doutrina da salvação por Deus e pela fé.

Em segundo lugar, há as grandes respostas dadas à questão da vida boa que não passam por Deus nem pela fé, as respostas laicas, as respostas não religiosas, e esse grupo de respostas se chama filosofia.

A filosofia não é nada mais do que isso, as grandes filosofias não são nada mais do que tentativas de responder à questão “o que é uma vida boa?”

1 A frase é inspirada na seguinte passagem de Rimbaud: “a verdadeira vida é ausente (la vraie vie est absente)”, publicada na obra intitulada Uma temporada no inferno. A expressão precisa “a verdadeira vida é alhures (la vraie vie est ailleurs)” não se encontra na obra de Rimbaud, ainda que a frase seja desde o período surrealista atribuída ao poeta francês.