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Simon Blackburn: a relação entre filosofia e ciência

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Simon Blackburn (foto:
Simon Blackburn (foto:

"Parte do trabalho da filosofia é tentar estabelecer melhores maneiras de pensar sobre essas coisas. Nesse sentido, é parte do meu trabalho conhecer aquilo que se faz em ciência; acredito nisso firmemente e leio ciência popular no meu tempo livre. Faço-o não só para me manter atualizado, mas como para garantir que a interpretação da ciência não seja guiada por pensamentos simplistas sobre o que estamos tentando provar ou sobre o que seja nossa natureza."

Simon Blackburn, filósofo britânico, discute o papel da filosofia frente às descobertas da ciência sobre a espécie humana. Leia abaixo:

Sempre que pensamos na relação entre filosofia e ciência, temos de distinguir cuidadosamente o que é a ciência real do que são ideologias que as pessoas extraem de resultados científicos, os quais podem ser distorcidos em todas as áreas.

Um ótimo exemplo é a crença assaz difundida atualmente de que a ciência, graças ao conhecimento crescente em neurofisiologia e em particular do cérebro, está finalmente descobrindo propriedades essenciais do tipo de criatura que somos. Uma das mais populares destas crenças é a de que a ciência mostra que não temos liberdade. A tese sustenta que não temos liberdade porque nosso cérebro nos faz agir. Em outras palavras, o cérebro é uma grande rede de tecidos, constituída de neurônios interconectados e de células cujas operações se explicam em termos químicos e elétricos; essa estrutura é a causa de tudo o que fazemos, ela faz inclusive com que eu fale com vocês agora e com que vocês educadamente me escutem. Talvez se trate de fato de uma descoberta.

Com efeito, quando se define liberdade como um fantasma, um espírito, uma alma que existe à parte do cérebro e que é capaz de, com seu dedo fantasmagórico, fazer o cérebro evoluir de um modo ou de outro, quando se define liberdade assim, parece claro que não temos liberdade. Mas essa é uma péssima maneira de definir liberdade, tanto se desejamos defendê-la como se desejamos atacá-la. Deve haver uma maneira muito melhor de definir a liberdade humana do que este modo chamado intervencionista, este modo que implica que somos fantasmas em uma máquina.

Parte do trabalho da filosofia é tentar estabelecer melhores maneiras de pensar sobre essas coisas. Nesse sentido, é parte do meu trabalho conhecer aquilo que se faz em ciência; acredito nisso firmemente e leio ciência popular no meu tempo livre. Faço-o não só para me manter atualizado, mas como para garantir que a interpretação da ciência não seja guiada por pensamentos simplistas sobre o que estamos tentando provar ou sobre o que seja nossa natureza.

Nos moldes do que dizia Kant, devemos entender o que o homem faz de si mesmo e não somente o que a fisiologia faz de nós.