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Simon Blackburn: como não educar as pessoas

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Simon Blackburn no Fronteiras (foto: Clleber Passus)
Simon Blackburn no Fronteiras (foto: Clleber Passus)

Filósofo britânico, Simon Blackburn* fala sobre educação trazendo à luz um exemplo que ocorreu com sua própria filha. Blackburn critica a educação que suprime o questionamento natural às crianças e a falta de um ensino mais amplo, histórico, que contextualize a ciência na vida cotidiana e que acabe, a partir desta limitação, repetindo “fórmulas matemáticas como se repete um dogma religioso do qual não se tem nenhum entendimento." Leia abaixo:


Crianças são filósofos naturais. Todavia esse talento é, com frequência, inibido nelas por nós adultos, que dizemos para elas se calarem, para não fazerem certas perguntas e para não se preocuparem com certas coisas. Por conseguinte, as crianças acabam aprendendo a seguir o currículo obrigatório sem fazer perguntas, a resolver as equações e seguir em frente. Essa supressão do questionamento e do espírito reflexivo é fatal para a educação. Esse ponto pode ser ilustrado por um exemplo tirado da educação da minha filha.

Esta é uma história verídica. Minha filha frequentou escolas muito boas e caras em Oxford quando eu ali lecionava. Um dia, quando tinha por volta de 15 anos, ela se aproximou de mim e disse: “eu cansei de física, eu odeio física, eu odeio ciência, eu não vou mais estudar ciência", e respondi: “mas o que está acontecendo?", e ela: “eu não entendo nada". O que tinha acontecido na verdade é que eles precisavam resolver um problema relacionado à oscilação do pêndulo; eles deviam resolver uma equação sobre a velocidade do pêndulo na ponta de baixo usando uma equação que envolvia energia potencial, no topo do pêndulo, e energia cinética, na ponta de baixo do pêndulo.

É um cálculo bastante simples. Eu disse: “está bem, e o que você não entendeu?". E ela: “eu não entendi o que é essa coisa que ele chamade energia; o pêndulo no topo não tem energia, ele não está fazendo nada, ele está só ali parado, então por que deveríamos dizer que ele tem energia e que tem energia que se traduz em velocidade?". Ao que respondi: “e você perguntou isso para o professor?", e minha filha disse que sim, que tinha perguntado para o professor, e o que o professor tinha respondido: “resolva a equação e não faça perguntas". O resultado do diálogo vocês já conhecem, minha filha chegou em casa e disse “eu cansei de ciência, não estudo mais isso", e de fato foi o que ela fez, desistiu de ciência pouco tempo depois.

Eis uma ilustração de como não lecionar, de como não educar pessoas. Pode até ser que as colegas de classe da minha filha que resolveram a equação tenham ido para a universidade e tenham se tornado muito boas em todo tipo de coisa; não nego que essa seja uma maneira de capacitar pessoas a exibir certas habilidades. Tais pessoas podem certamente vir a se tornar engenheiros, doutores ou algo assim, mas isso não é uma educação, isso não aumenta nosso entendimento das engrenagens do mundo.

Ocorre que conheço um pouco da história do pêndulo e ela é muito interessante. A primeira pessoa a descobrir a natureza isócrona do pêndulo, o fato de que o pêndulo vai oscilar a mais ou menos o mesmo número de batidas por minuto independentemente da velocidade com que o impulsionamos, foi Galileu Galilei no século 17.

Havia muito interesse no pêndulo nesse período porque ele constituía a grande esperança para marcar o tempo em viagens marítimas, uma tecnologia que responderia às necessidades dos sistemas emergentes de comércio através do oceano Atlântico e mesmo através do Pacífico.

Muitos cientistas e filósofos pensaram sobre o pêndulo, eis alguns deles: Huygens, Leibniz, Descartes, Newton e, no século seguinte, Gauss e Euler. A equação que pediram para minha filha resolver, a equação que usava o conceito de energia, foi formulada em física clássica somente em 1870; isso aconteceu 230 anos depois que Galileu começou a investigar o pêndulo. O conceito de energia usado era inteiramente desconhecido em épocas precedentes, ele foi o resultado da integração de vários sistemas diferentes de pensamento: gravidade, força eletromagnética e, acima de tudo, dinâmica, que foi desenvolvida no século 19. Ele surgiu como um conceito científico muito difícil e abstrato.

Ora, quando uma criança pergunta o que este conceito significa e quando se lhe responde “fique quieto e resolva a equação", nega-se a essa criança o desenvolvimento de um pensamento histórico, nega-se-lhe mesmo a importância da ciência; assim, acaba-se por criar uma mente que age por dogmas, que repete fórmulas matemáticas como se repete um dogma religioso do qual não se tem nenhum entendimento, pois não se conhece o caminho que conduziu à formulação do conceito, quais as controvérsias envolvidas e qual a dimensão do brilhantismo das pessoas que desvelaram essa nova noção de energia.

Se não se ensina isso, não se atribui à ciência um papel na cultura geral, na história geral do pensamento e recusa-se à criança uma história que ela deveria saber para compreender o conceito de energia ou qualquer outro conceito.

(*Extraído da conferência de Simon Blackburn ao Fronteiras do Pensamento 2012. A conferência pode ser lida na íntegra na obra Pensar a filosofia, à venda nas livrarias e no site da editora Arquipélago Cultural)