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Simon Schama: arte e calamidade

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Historiador, professor e crítico de arte britânico, Simon Schama reflete sobre a mensagem da arte - um fazer ver a calamidade da vida, a fragilidade das estruturas que compõem nossa ideia de civilização - com base no artista alemão Anselm Kiefer:

Anselm Kiefer é um desses artistas que sentiam, que o que a arte pode fazer de forma ímpar é convocar todas as suas memórias para testemunhar, como se os artistas fossem testemunhas no tribunal de Nuremberg ou nas comissões de inquérito sobre Abu Ghraib. Todos esses fantasmas e memórias, antepassados e ancestrais são convocados a dar seu testemunho sobre como a arte nos faz refletir sobre o ato de ver a crueldade, de ver a dor nas vidas dos outros.

Uma maravilhosa instalação chamada Domingo de Ramos, um dos trabalhos mais recentes de Kiefer, reúne algumas de suas obsessões. A palmeira parece ter sido serrada e está morta no chão. A palmeira era muito importante como um dos primeiros símbolos cristãos, pois se pensava que os cristãos egípcios, os cristãos cópticos, bem como palmeiras e o próprio Cristo, eram imortais; as árvores nunca morreriam, viveriam para sempre enquanto suas folhas e ramos caíssem e novamente reproduzissem; a palmeira era um ícone extraído da arte pagã e sequestrado pelos sacerdotes para ser a primeira imagem da cruz.

Kiefer derruba as palmeiras para o Domingo de Ramos, com toda certeza numa reminiscência dos ramos da palmeira que foram colocados aos pés de Cristo em sua entrada em Jerusalém, antes da Paixão.

E por trás temos algo como as primeiras páginas de um livro antigo, páginas de um compêndio científico do século XVIII, mostrando diferentes imagens de vegetação, algumas coisas vivas, outras mortas, colocadas sobre uma extraordinária, quase abstrata, composição de massa, terra e água.

Perguntei a Kiefer sobre isso e ele respondeu que, bem, essa era mais ou menos a ideia; quase uma visão da terra sofrendo pelas agressões ecológicas que vêm do espaço. Isso é o que pode a arte quando tenta dizer alguma coisa de forma poética e profunda a respeito do desastre e sobre a condição humana. E, mais uma vez, quando achamos que pode haver algo – porque Kiefer se interessa por arquitetura – profundo sobre como nos sentimos a respeito das torres – símbolos da vigilância, da eternidade da monumentalidade – tudo isso na verdade vem abaixo com a explosão, com o ataque ao World Trade Center.

E quando Kiefer estava instalando o Domingo de Ramos ele também instalou essas extraordinárias torres no átrio da Royal Academy, em Londres. São torres que por um dia estiveram lá com chumbo entre elas, perpetuamente vistas como estruturas fixas, sem risco de colapsar.

E eu penso na possibilidade do colapso, na possibilidade de nossa própria condição, na possibilidade da arte desintegrar a natureza frágil daquilo que chamamos de civilização, algo que grandes artistas nos fizeram ver e, acho, deixaram como seu legado para nós.