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Sobre a identidade étnico-racial, por Anthony Appiah

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“Um indivíduo livre é um indivíduo humano - e nós somos, como Aristóteles há muito insistiu, criaturas da pólis, seres sociais. Somos sociais em muitos aspectos e por muitas razões: porque desejamos companhia, porque dependemos uns dos outros para sobrevivermos, porque muito do que nos importa é coletivamente criado." - Kwame Anthony Appiah

No Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro), trazemos um excerto da obra Color conscious: the political morality of race, de Kwame Anthony Appiah e Amy Gutmann, filósofos da política e da moral. No livro, os autores cruzam história e psicologia para investigar, superando diversos tabus, os impactos positivos e negativos das identidades étnico-raciais, buscando uma resposta para os desafios que ora se colocam contra ora surgem da própria questão. Mantivemos os termos originais utilizados pelos autores. Leia abaixo:

Uma vez que o estereótipo da raça é aplicado às pessoas, ideias sobre o que ele se refere, ideias que podem ser muito menos consensuais do que a aplicação do estereótipo, começam a ter efeitos sociais. Mas, estereótipos não possuem apenas efeitos sociais, eles possuem efeitos psicológicos também; e eles moldam as percepções das pessoas sobre si mesmas e sobre seus projetos. Os estereótipos moldam o que gosto de chamar de identificação: o processo por meio do qual o indivíduo intencionalmente forma seus projetos – incluindo planos para sua própria vida e suas noções de bom – por meio de referências encontradas nos estereótipos e nas identidades disponíveis.

Não procede que a identificação é um processo voluntário. Não lembro de ter escolhido me identificar com os homens por ser homem; mas ser homem moldou muitos de meus planos e ações. Na realidade, onde minha identidade atribuída é mais concordada pelos outros é onde menos sei se aquela identidade é minha ou não; porém, posso escolher o quanto da minha identificação com isso será central para mim – escolher, portanto, o quanto da minha vida será organizado em torno daquela identificação.

Uma vez que paramos de falar sobre culturas e começamos a falar de identidades, novas questões surgem. Identidades raciais e étnicas são, por exemplo, essencialmente contrastantes e se relacionam com os poderes sociais e políticos, como as questões de gênero e sexualidade. Identidades coletivas, para resumir, nos dão o que podemos chamar de roteiros: narrativas que as pessoas podem usar para moldar suas vidas e contar suas histórias.

Isso não é algo relativo apenas aos norte-americanos: cruzando culturas, importa às pessoas que elas tenham certa unidade em suas narrativas; elas querem poder contar a história de suas vidas com sentido. A história – minha história – deve ter coerência com os padrões disponíveis em minha cultura. Ao contar minha história, é importante como eu me enquadro na história mais ampla de diversas coletividades. Não são apenas identidades de gênero que moldam a vida: identidades étnicas e nacionais também encaixam cada indivíduo em uma narrativa maior.

Isso não significa que todos devem ser como todos – mas pode nos levar a uma concepção mais recreativa de identidade racial. E isso nos permitiria ir contra uma característica persistente na ideia de identidade étnico-racial: o risco de nos tornarmos obsessivamente focados, que tal identidade encerre, em absoluto, as vidas daqueles que se identificam com isso. O risco é que as pessoas esquecem que suas identidades individuais são complexas e variadas – que elas possuem estímulos que fogem à sua raça ou etnia, interesses e gostos que cruzam as fronteiras étnico-raciais, que elas têm profissões e ocupações, que participam de clubes e grupos. Aniquilar as identidades que elas compartilham com os outros fora de sua raça ou etnia as afasta da possibilidade de identificação com outros.

Identidades coletivas possuem a tendência de se tornarem “imperialistas", de dominar não apenas as identidades dos outros, mas as outras identidades, cujas formas são exatamente o que nos tornam tão diversos e individuais.