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[Melhor livro de 2018] Superproteção das novas gerações: o que estamos fazendo com os jovens?

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A superproteção da mente americana (foto: Andrew B. Myers / The Atlantic)
A superproteção da mente americana (foto: Andrew B. Myers / The Atlantic)

O debate sobre liberdade nas instituições de ensino aumenta mundo afora. Não, não estamos falando sobre questões partidárias, tampouco políticas no sentido geral.

Desta vez, a reflexão é sobre algo muito mais complexo e profundo: é sobre Educação, aquela que tinha como missão a formação de indivíduos autônomos e capazes de pensamento crítico.

Em 2007, o psicanalista belga Jean Pierre Lebrun esteve no Fronteiras do Pensamento para alertar pais e professores sobre a importância de ensinarem os jovens a falhar. Este é o tema da entrevista mais lida e compartilhada do projeto.

Em 2015, a The Atlantic publicou um artigo que ia no mesmo sentido. The Coddling of the American Mind [A Superproteção da Mente Americana] se tornou um dos cinco textos mais lidos na história da revista. Escrito por um psicólogo e um advogado, o texto amplia o debate sobre a fragilidade dos jovens e compila incontáveis situações reais que, até poucos anos, pareceriam surreais.

A premissa básica de The Coddling of the American Mind é que distorcemos completamente a ideia de educação. Os princípios e valores que nortearam os grandes filósofos (de Buda a Marco Aurélio) foram simplesmente invertidos. São estas Grandes Inverdades, nos termos dos autores, que estamos ensinando aos jovens atuais. 

Ou seja, estamos ensinando sofrimento e ignorância às novas gerações. O preço disso é uma geração frágil e vulnerável, incapaz de dissociar razão e emoção. Incapaz de pensamento.

O artigo original, da The Atlantic, deu origem ao livro The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure, eleito como melhor livro de 2018 pela Bloomberg.

Greg Lukianoff e Jonathan Haidt são os autores tanto do artigo quanto da obra. Greg Lukianoff é advogado e presidente da Foundation for Individual Rights in Education (FIRE). A ONG foi fundada em 1999 e luta pela liberdade civil nas instituições de ensino superior norte-americanas. 

Jonathan Haidt é psicólogo e professor universitário, autor de livros que dissolvem as fronteiras entre psicologia e filosofia. Especialista em Psicologia da Moral e Emoções Morais, entrou nas listas de principais pensadores globais da Foreign Policy e da Prospect.

As três Grandes Inverdades

Estas são as Grandes Inverdades que estaríamos ensinando aos jovens, segundo os autores expõem no livro:

1 – A inverdade da fragilidade

“Aquilo que não te mata te enfraquece” (evite a dor, a luta, os desafios e os conflitos).

2 – A inverdade do raciocínio emocional

“Sempre confie em seus sentimentos” (evite a capacidade de discernimento).

3 – A inverdade do nós x eles

“A vida é uma batalha entre bons e maus” (evite a compreensão da complexidade humana).

O resultado destes graves equívocos é a incapacidade de buscar conhecimento. Esta educação invertida, alertam os Lukianoff e Haidt, pode ser mais claramente percebida na Academia, mas inicia já na primeira infância. O que temos então? Jovens sofrendo de ansiedade, fragilidade, depressão, ódio, raiva, incapacidade de se relacionar e de compreender a vida.

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No livro, os autores levarão o leitor por quatro fases:

1 – Mostrando o cenário. Exemplos de situações reais ocorridas nas universidades dos EUA, que dificilmente acreditaríamos até poucos anos. Enquanto examinam os exemplos, eles apresentam alguns conceitos-chave da psicologia cognitiva comportamental.

2 – As Grandes Inverdades em ação. Eles analisam as intimidações e a violência ocasional por parte dos estudantes, que se tornam obstáculos para que as instituições de ensino cumpram suas missões fundamentais. Os autores exploram a sociologia da caça às bruxas e do pânico moral.

3 – Solucionando o mistério. Por que esta transformação aconteceu tão rapidamente (entre 2013 e 2017)? A obra aponta seis possíveis respostas, ligadas à polarização política, aos transtornos dos jovens, às famílias atuais, à missão das instituições de protegerem os jovens e a outros temas.  

4 – Dando conselhos. Os autores sugerem diversas práticas para que pais e professores sejam capazes de educar crianças e jovens mais confiantes, fortes e independentes. Também, explicam como instituições de ensino podem se adaptar ao sentimento de ultraje potencializado pelas novas tecnologias.

Como dissemos, o livro The Coddling of the American Mind foi escrito com base no artigo homônimo, que figura na lista dos 5 textos mais lidos na história da The Atlantic. Por isso, traduzimos um extenso excerto do texto original, para que você compreenda os principais pilares desta mudança radical na educação contemporânea. Confira logo abaixo. Deixe seu comentário em nossas mídias sociais. Compartilhe e reflita com seus amigos.

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A Superproteção da Mente Americana | por Greg Lukianoff e Jonathan Haidt

Em nome do bem estar-emocional, estudantes universitários têm exigido cada vez mais proteção contra palavras e ideias que não lhes agradam. Neste artigo, explicamos por que isso representa um desastre para a educação – e para a saúde mental.

Algo estranho vem acontecendo nas faculdades e universidades dos Estados Unidos. Está surgindo um movimento desprovido de lideranças, tocado em grande parte pelos próprios estudantes, que tem como meta expurgar dos campi palavras, ideias e temas que possam causar desconforto ou ofender alguém.

Situações reais

Em dezembro [de 2014], Jeannie Suk escreveu para a New Yorker um artigo on-line sobre estudantes de Direito que pediram a colegas dela, professores em Harvard, que não ensinassem as leis contra violação. Em um caso, houve até mesmo pedidos para que não usassem a palavra “violação” (em frases como “isso é uma violação da lei”), pois havia um receio de que isso pudesse perturbar os estudantes.

Em fevereiro [de 2015], Laura Kipnis, professora da Northwestern University, escreveu um ensaio para o periódico The Chronicle of Higher Education, em que descreve uma nova política de paranoia sexual nos campi. Alguns alunos se sentiram ofendidos pelo artigo e por um Tweet dela; assim, protocolaram uma reclamação formal contra ela evocando o Título IX da lei estadunidense, e ela acabou sendo alvo de uma longa investigação.

Em junho [de 2015] um professor protegido sob pseudônimo escreveu para a Vox descrevendo como hoje ele se vê obrigado a lecionar pisando em ovos. O título era Sou um Professor Liberal, e Meus Estudantes Liberais me Assustam.

Diversos comediantes populares, incluindo Chris Rock, pararam de se apresentar em campi universitários (veja o artigo de Caitlin Flanagan na edição de setembro/2015). Jerry Seinfeld e Bill Maher condenaram publicamente a hipersensibilidade dos estudantes universitários, alegando que muitos deles não conseguem levar nada na brincadeira.



Microagressões

Não demorou para que dois conceitos saíssem da obscuridade e passassem a integrar a linguagem cotidiana dos campi. Microagressões são pequenas ações ou escolhas de palavras que, à primeira vista, não parecem mal-intencionadas, mas que ainda assim são encaradas como formas de violência.

Por exemplo, de acordo com os guias de alguns campi, perguntar a um americano latino ou asiático “Onde você nasceu?” é uma microagressão, porque isso implica que ele ou ela não é um verdadeiro americano. Trigger warnings são alertas que, conforme alguns esperam, os professores deveriam fazer antes de abordarem em sala de aula temas que possam provocar respostas emocionais intensas.

Por exemplo, alguns estudantes exigiram trigger warnings alertando que O mundo se despedaça, de Chinua Achebe descreve cenas de violência racial, ou que O Grande Gastsby, de F. Scott Fitzgerald, retrata eventos de misoginia e abuso corporal.

Assim, os estudantes que já foram vítimas de racismo ou violência doméstica podem evitar obras que, segundo acreditam, possam desencadear ou disparar (em inglês, “trigger” – daí o termo, que literalmente significa “alerta de disparo”) lembranças de um trauma antigo.

Algumas ações recentes nos campi beiram o surreal. Em abril [de 2015], na Brandeis University, a associação de estudantes asiático-americanos criou uma instalação na escada de um saguão da universidade para conscientizar as pessoas sobre as microagressões sofridas por asiáticos.

A instalação dava exemplos de microagressões como “Você não deveria ser bom em matemática?” e “Eu sou daltônico! Não enxergo raças”. Mas, houve uma reação negativa por parte de outros estudantes asiático-americanos, que sentiram que a instalação em si era uma microagressão.

A associação removeu a instalação e seu presidente escreveu um e-mail para toda equipe se desculpando com as pessoas que, porventura, tivessem se sentido “magoadas ou atacadas pelo conteúdo das microagressões”.

Pouco a pouco, esse novo clima está se institucionalizando e afetando o que pode ou não ser dito em sala de aula – mesmo que tais alegações sirvam apenas como ponto de partida para debates.

Durante o ano letivo de 2014/2015, por exemplo, os reitores e chefes de departamentos dos dez campi da University of California passaram por um curso de capacitação em que assistiram a uma apresentação com exemplos de microagressões perpetradas por gestores.

A lista de frases ofensivas incluía “Os Estados Unidos são uma terra de oportunidades” e “Acredito que as vagas de emprego deveriam ir para as pessoas mais qualificadas”.

Proteção Vindicativa

A imprensa costuma descrever esses acontecimentos como uma ressurgência do politicamente correto. A colocação está certa em parte, mas existem diferenças importantes entre o que está acontecendo agora e o que aconteceu nos anos 1980 e 1990. O movimento anterior buscava restringir os discursos (especificamente, discursos de ódio contra grupos marginalizados), mas também desafiava o cânone literário, filosófico e histórico, buscando ampliá-lo através da inclusão de perspectivas mais diversificadas.

O movimento atual trata, em grande parte, do bem-estar emocional. Aposta-se mais na ideia de que a psique dos alunos universitários é extremamente frágil e, portanto, busca-se proteger os estudantes contra danos psicológicos. Aparentemente, o objetivo final agora é transformar os campi em “espaços seguros”, onde os jovens adultos ficam blindados contra palavras e ideias que possam julgar desconfortáveis.

Este movimento, mais do que aquele, busca punir qualquer pessoa que represente um obstáculo, mesmo que isso ocorra de forma acidental – um impulso que poderíamos chamar de “proteção vindicativa”.

Com isso, está sendo criada uma cultura em que todos devem pensar duas vezes antes de falar; caso contrário, corre-se o risco de ser acusado de agressão, falta de sensibilidade ou coisa pior.

Já há algum tempo, estamos estudando este acontecimento com crescente preocupação. Essa tendência apresenta riscos significativos para as carreiras acadêmicas e a qualidade das universidades nos Estados Unidos. Poderíamos escrever um ensaio inteiro para tratar disso.

Neste ensaio, contudo, focaremos em outra questão: que efeitos esse novo tipo de proteção tem sobre os estudantes? Ele é bom para as pessoas que pretende ajudar? O que exatamente os estudantes aprendem ao passarem quatro anos ou mais em uma comunidade que vigia deslizes acidentais e cola etiquetas de alerta em obras de literatura clássica? Uma comunidade que afirma de diversos modos que palavras podem ser formas de violência e, portanto, exige um controle estrito por parte das autoridades universitárias para que atuem como polícia e tribunal ao mesmo tempo?

Há um ditado muito comum no meio da educação: não ensine aos estudantes o que devem pensar, ensine-os como pensar.

A ideia nos leva a Sócrates, ou mesmo a tempos anteriores. O que hoje chamamos de método socrático é uma maneira de ensinar que fomenta o pensamento crítico; em parte, isso acontece porque o método encoraja os estudantes a questionarem suas próprias crenças e os conhecimentos que recebem daqueles ao seu redor. Por vezes, no caminho que levará à compreensão, esses questionamentos provocam desconforto ou mesmo raiva.

Mas, a proteção vindicativa ensina os estudantes a pensar de um modo muito diferente. Ela os prepara de forma precária para a vida profissional, que muitas vezes exige que nos envolvamos intelectualmente com pessoas com ideias incompatíveis com a nossas ou que simplesmente nos parecem equivocadas.

Ela também pode gerar danos mais imediatos: afinal, uma cultura universitária centrada no policiamento do discurso e na punição de seus autores tende a provocar padrões de pensamento incrivelmente semelhantes àqueles que os terapeutas cognitivo-comportamentais apontam como causas para a depressão e a ansiedade. É possível que essa nova forma de proteção esteja ensinando os estudantes a pensar de forma patológica.

Como viemos parar aqui?

É difícil saber por que exatamente a proteção vindicativa emergiu com tanta força nos últimos anos. O fenômeno pode estar ligado a mudanças recentes na interpretação dos estatutos federais antidiscriminação. Mas, é provável que a resposta envolva também algumas mudanças geracionais. A própria infância passou por muitas mudanças na geração passada.

Segurança

Muitas pessoas da geração X e muitos baby boomers andavam de bicicleta por suas cidades natais sem a supervisão de adultos já aos oito ou nove anos de idade. Na época, esperava-se que as crianças ocupassem seu tempo sozinhas depois da escola. Elas sofriam alguns arranhões e aprendiam com essas experiências. Mas, essa infância “solta” se tornou menos comum a partir dos anos 1980.

O surto de crimes entre os anos 1960 e 1990 fez dos baby boomers pais mais protetores do que os seus haviam sido. Os casos de crianças sequestradas se tornaram mais frequentes nos noticiários e, em 1984, as fotos dessas crianças passaram a estampar as caixas de leite. A reação de muitos pais foi encurtar as rédeas e tomar mais precauções para garantir a segurança de seus filhos.

Essa busca por segurança também ocorreu dentro das escolas. Brinquedos perigosos foram removidos dos parquinhos e a manteiga de amendoim foi banida dos almoços dos alunos.

Após o massacre de Columbine em 1999, muitas escolas enfrentaram o bullying com políticas de “tolerância zero”. Em diversos sentidos, os adultos passavam uma mensagem inequívoca para as crianças nascidas após 1980 (os millenials): a vida é perigosa, mas os adultos farão tudo o que puderem para protegê-las dos riscos que os estranhos e vocês mesmas representam umas às outras.

Polarização política

Essas crianças cresceram em uma cultura que estava (e ainda está) se tornando mais polarizada politicamente. Republicanos e democratas nunca gostaram muitos uns dos outros, mas pesquisas feitas a partir dos anos 1970 mostram que, em média, sua aversão mútua costumava ser surpreendentemente amena.

No entanto, esses sentimentos negativos foram se tornando cada vez mais fortes, sobretudo a partir do início dos anos 2000. Cientistas políticos chamam esse processo de “polarização afetiva partidária”. Isso representa um problema muito grave para qualquer democracia. Quando um lado começa a demonizar o outro de forma mais intensa, os acordos se tornam mais difíceis.

Um estudo recente mostra que, hoje, os preconceitos implícitos ou inconscientes em relação a simpatizantes do outro partido é ao menos tão forte quanto o preconceito racial.

Sendo assim, não é difícil imaginar por que os alunos de hoje desejam mais proteção dentro dos campi ou por que sua hostilidade com oponentes ideológicos é mais forte do que era em gerações passadas. É de se esperar que essa hostilidade, bem como o senso de correção que as emoções políticas fomentam, deem força a qualquer cruzada de cunho moral.

Um dos princípios da psicologia moral diz que “a moralidade une e cega”. Ao emitirmos julgamentos morais, também expressamos nossa lealdade a um time, o que pode prejudicar nossa capacidade de pensar de forma crítica. Reconhecer os méritos do ponto de vista do outro lado é arriscado, pois nossos companheiros de equipe podem ver isso como uma traição.

Redes sociais

As redes sociais facilitam muito o engajamento em cruzadas morais, as manifestações de raiva e solidariedade e o repúdio aos traidores.

O Facebook foi fundado em 2004 e, desde 2006, permite usuários com idades a partir de 13 anos. Isso significa que a primeira onda de estudantes que utilizaram o Facebook durante toda a adolescência chegou à faculdade em 2011 e se graduou apenas este ano [2015].

A forma como esses primeiros “nativos das redes sociais” compartilham julgamentos morais e se apoiam uns aos outros durante campanhas e conflitos pode ser muito diferente do observado em gerações anteriores.

Ao nosso ver, há muitos aspectos positivos nisso: hoje, a interação dos jovens com seus pares, matérias jornalísticas e causas sociais é maior do que na época em que a televisão era a tecnologia dominante.

Mas, as redes sociais também alteraram de forma decisiva o equilíbrio de poder nas relações entre alunos e professores; estes temem cada vez mais os danos às suas reputações e carreiras que os estudantes podem causar ao promoverem campanhas de linchamento virtual contra eles.

Transtornos mentais nos jovens

Não estamos insinuando uma causalidade simples, mas, nas últimas décadas, o índice de enfermidades mentais entre jovens adultos cresceu tanto nos campi como fora deles.

Não há dúvidas de que parte desse crescimento ocorreu por melhorias de diagnóstico e por um maior desejo de procurar ajuda; no entanto, a maioria dos especialistas parece concordar que parte desse crescimento é real.

Quase todos os coordenadores de saúde mental universitários ouvidos em uma pesquisa, realizada em 2013 pela American College Counseling Association, informaram que o número de estudantes com problemas psicológicos graves estava aumentando em seus locais de trabalho.

O nível de sofrimento emocional relatado pelos próprios estudantes também está alto, e a tendência é de crescimento. Em uma pesquisa, realizada pela American College Health Association em 2014, 54% dos estudantes universitários disseram ter “sentido uma imensa ansiedade” nos 12 meses anteriores, contra 49 por cento registrados pela mesma pesquisa cinco anos antes.

Os alunos parecem relatar um número maior de crises emocionais; muitos deles parecem frágeis, e não há dúvidas de que isso mudou a interação entre eles e os professores e administradores das universidades. A questão é se algumas dessas mudanças não estariam causando mais danos que benefícios.

A cura pelo pensamento

Durante milênios, os filósofos defenderam que não vemos a vida como ela é. O que vemos é uma versão dela distorcida por nossos medos e esperanças, dentre outros fatores.

Buda disse: “Nossa vida é uma criação de nossas mentes”.

Marco Aurélio disse: “A vida é aquilo que nossos pensamentos fizerem dela”.

Em muitas tradições, a busca por sabedoria parte desse princípio. Os primeiros budistas e os estoicos, por exemplo, desenvolveram práticas para reduzir esses fatores externos e pensar de forma mais clara e se libertar dos tormentos emocionais característicos de nossa vida intelectual.

A terapia cognitivo-comportamental é uma transmutação moderna dessa sabedoria antiga. É o tratamento não-farmacêutico mais estudado para transtornos mentais, além de ser amplamente utilizado para tratar depressão, distúrbios de ansiedade, distúrbios alimentares e vícios. Ele pode ajudar até mesmo alguns esquizofrênicos.

Nenhuma outra forma de psicoterapia se revelou útil para uma gama tão ampla de problemas. Em geral, os estudos descobriram que essa terapia é tão eficaz quanto drogas antidepressivas (como o Prozac) no tratamento da ansiedade e da depressão. A terapia é relativamente rápida e fácil de aprender; após alguns meses de instrução, muitos pacientes já se tornam capazes de executá-la por conta própria.

Diferentemente das drogas, a terapia cognitivo-comportamental continua a funcionar após o fim do tratamento, dado que os pacientes aprendem técnicas de pensamento que podem seguir utilizando.

O objetivo é minimizar as distorções impostas pelo pensamento e permitir ao paciente ver o mundo de forma mais precisa.

Os pacientes começam aprendendo o nome de mais ou menos uma dúzia de distorções cognitivas mais comuns (como hipergeneralização, desqualificação do positivo e argumentação emocional).

Ao perceber que está sendo vítima de uma delas, o paciente deverá nomeá-la, descrever os fatos da situação, examinar interpretações alternativas e, por fim, escolher a interpretação dos eventos em maior consonância com os fatos. Suas emoções acompanharão essa nova interpretação. Com o tempo, o processo se torna automático.

Quando as pessoas aprimoram sua saúde mental dessa forma – ou seja, quando se livram dos pensamentos repetitivos e irracionais que ocupavam grande parte de sua consciência –, tornam-se menos deprimidas, ansiosas e raivosas.

O paralelo com a educação formal é claro: a terapia cognitivo-comportamental ensina boas ferramentas de pensamento crítico, o mesmo tipo de ferramentas que há tanto tempo os educadores se esforçam para transmitir.

Segundo quase todas as definições, o pensamento crítico exige que baseemos nossas crenças em evidências, e não em emoções ou anseios. Também exige que aprendamos a buscar e a avaliar evidências que possam contradizer nossas hipóteses iniciais.

Mas, será que a vida universitária dos dias de hoje estimula o pensamento crítico? Ou será que convence os estudantes a pensarem de forma ainda mais distorcida?

(Leia a conclusão do artigo no site da The Atlantic)

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