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Um farol no coração das trevas

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África: o continente origem da vida humana. O lugar repleto de cenários da vida selvagem, safaris, abusos coloniais europeus, violência do tráfico de gente e do contrabando de minérios, tambores e cores, arte e literatura originais.

É a África que nutriu o Brasil de seres humanos prisioneiros por quase 400 anos – capturada e transplantada, de escravos negros africanos, hoje brasileiros. A África foi e é vítima de numerosas imagens que a descrevem como selvagem; nesta condição, está historicamente exposta à voracidade exploratória estrangeira há séculos e, também, na atualidade.

Mas a África é também protagonista de culturas riquíssimas, e chegou a hora de conhecê-la, ouvir o que ela mesma tem a dizer. No Fronteiras, ela foi trazida por nomes como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Graça Machel e a Nobel da Paz Leymah Gbowee. Agora, é a vez de outro Nobel da Paz subir ao palco do projeto, o médico congolês Denis Mukwege.

Dr. Denis Mukwege é o próximo conferencista do Fronteiras, nos dias 19/8 (Porto Alegre) e 21/8 (São Paulo). Além do médico, o projeto ainda receberá Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry. Garanta sua presença nos próximos eventos: 

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Conheça mais sobre Denis Mukwege no artigo de Milton Paulo de Oliveira.


Um farol no coração das trevas | Milton Paulo de Oliveira

Há 11 anos, fomos apresentados ao doutor Denis Mukwege e à sua esposa. Manhã de sábado, um largo sorriso e um caloroso abraço nos conduziram à sua varanda. Nosso grupo de médicos estava, por semanas, operando crianças na África; ele, por décadas, mulheres. O país era o antigo Zaire, que, estranhamente, passou a ser chamado de República Democrática do Congo. Estávamos a sudeste de um enorme país no coração da África na cidade de Bukavu. Mukwege toma a dianteira e, sorrindo, pergunta: – Como está o trabalho no hospital? – Sua esposa traz um café e senta-se ao seu lado.

– Muito difícil, pois a cada dia os desafios são maiores para manter o fluxo de cirurgias propostas, mas o pessoal está motivado. Como é a situação no seu hospital?

– Dr. Milton, agradeço a sua pergunta – sinalizou positivamente para mim. Inicia mansa e pausadamente a falar sobre nossas – e não as próprias – dificuldades com as crianças e de nosso trabalho.

– Tudo pode ser feito, basta querermos. Vocês têm o mais importante: vontade – complementa o nosso anfitrião.

A vontade de Mukwege me é explicada por outro médico africano. Trata-se de resistir ao inevitável, como a espreita de um leão todas as noites na solidão da savana.

A conversa continua e Mukwege, antes de tudo, agradece as perguntas.

– O cenário de Panzi exige muito trabalho, quando começo a cansar lembro-me das caminhadas com o meu pai, um pastor pentecostal no interior do Congo. De porta em porta, visitava famílias muito humildes, os males eram inúmeros, mas a indiferença era o maior deles. Ele sabia disso e combatia com a gratidão; não aquela recebida, e sim a oferecida. Criança, ainda, perguntei ao meu pai que tipo de profissão ele tinha. – Sou um tipo de médico de almas – respondeu, sem muito alarde. Hoje sou pastor e médico, e percebo, de certa forma, que continuo as caminhadas de meu pai.

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Em contraste, a primeira visita a Porto Alegre é farta de informação e interesse sobre o Dr. Denis Mukwege, sobre sua trajetória, competência profissional, luta pela dignidade humana e seus vários prêmios honoríficos. O Prêmio Nobel da Paz, recebido em dezembro de 2018 em conjunto com Nadia Murad, os eterniza entre as pessoas de reconhecida relevância humanitária.

O trabalho no Hospital de Panzi é sem precedentes; trata o impensável para a maioria das pessoas. O estupro é usado como arma de guerra no coração da África. A guerra – declarada ou não – ceifou mais de 6 milhões de vidas; degradou e degrada o corpo, o coração e a mente de seus sobreviventes. As vítimas, como em toda guerra, são pessoas comuns arrancadas de seus cotidianos; na maioria, mulheres e crianças. A violência empregada neste cenário não reconhece limites; crianças com meses de vida ou anciãs são violadas e brutalmente mutiladas, e a própria sobrevivência pode se tornar um castigo.

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Desde aquela manhã de sábado em Bukavu passou-se mais de uma década. Os caminhos da vida são imprevisíveis e jamais imaginaria cruzar tanto o seu caminho. O acaso é parceiro inseparável do destino; Mukwege parece não fugir à regra. Inicia-se pelo obstetra em Lemera, cidade ao sudeste no Congo.

O hospital foi atacado durante a primeira guerra do Congo, sendo ele o único sobrevivente do massacre. Consegue erguer a si e a um hospital – chamado Panzi – em Bukavu, ao sul do lago Kivu. A primeira paciente – no reinício – não é gestante, e sim uma jovem baleada nas coxas e nos genitais. A cura necessita de seis cirurgias. Sucedem-se outras mulheres estupradas e mutiladas. A notícia do médico que as acolhe corre selva adentro. O ritmo de cirurgias aumenta; oito a 10 cirurgias por dia. Mesmo assim, não é o bastante: as cicatrizes psicológicas são imensas. Mukwege forma uma equipe e passa a tratar essas consequências também. Segue não sendo o bastante: as mulheres e crianças não têm para onde ir. Desta forma, tenta integrá-las, e uma cidade é construída ao lado do hospital. Não é o bastante ao próprio Mukwege: busca justiça e punição para os crimes hediondos. E ainda não é o bastante: o mal que as mutila está fora do hospital; então, ele sai ao mundo para contar essa história.

 Enfim, esse é o homem que chegará a Porto Alegre; tornou-se mais do que “um Quixote no coração da África”, e sim um farol no “coração das trevas”, tão bem desbravado pelo personagem Marlow no livro de Joseph Conrad.

Milton Paulo de Oliveira é Médico, chefe do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital São Lucas da PUCRS e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica