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Vargas Llosa contra a banalização cultural

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O escritor peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura, abriu a edição 2013 do ciclo Fronteiras do Pensamento São Paulo (17/04), em uma conferência sobre a banalização da cultura. Com o tema A civilização do espetáculo, título de sua mais recente obra a ser publicada em setembro no Brasil, Llosa afirmou que a transformação da cultura em entretenimento e diversão pode causar o retrocesso da civilização à “caverna primitiva". Leia, abaixo, a matéria de Paulo Hebmüller para o Jornal da USP:

Vargas Llosa contra a banalização cultural

Há alguns anos, ao visitar a Bienal de Veneza, o escritor peruano Mario Vargas Llosa saiu com a certeza de que não tinha vontade de levar para casa nenhum dos quadros, objetos ou instalações em exposição. “Fiquei com a sensação incômoda de que estavam tomando o meu tempo, de que nada do que eu via era sério e de que aquilo era uma espécie de espetáculo, mais próximo da Disneylândia ou de um circo do que de uma galeria ou museu respeitável", descreve o escritor.

Esse incômodo, repetido em outras ocasiões – como numa visita posterior à tradicional Royal Academy de Londres –, foi a semente de seu novo livro, o ensaio A civilização do espetáculo, ainda não lançado no Brasil. Vargas Llosa fez uma espécie de resumo do livro na conferência de abertura da edição 2013 do projeto Fronteiras do Pensamento, no dia 17 de abril, no Teatro Geo, em São Paulo. “Em nossos dias, a cultura já não é a mesma que era há alguns anos. O conceito de cultura se estendeu tanto que de certa forma passou a abarcar tudo", considera. “E, se é tudo, de alguma forma a cultura também já não é nada."

O Prêmio Nobel de Literatura de 2010 lembrou o papel fundamental da cultura em sua formação. Contou que aprendeu a ler aos 5 anos de idade e que essa foi a coisa mais importante que aconteceu em sua vida, por ter permitido viver aventuras que jamais poderia ter tido na realidade. Nos tempos de escola e universidade, somou deslumbramento e conhecimento ao tomar contato com o teatro, a música, as artes plásticas.
“Tudo isso para mim significou um enorme enriquecimento. A cultura desde cedo foi uma forma de diversão, de enorme prazer, algo que me permitiu descobrir a mim mesmo e o que queria ser, além da diversidade e da extraordinária riqueza que tem a vida", diz. “A cultura rompe as fronteiras de nossa experiência confinada e pequenina e nos reúne com gentes de outras línguas, tradições, crenças e cores. Descobrimos o que há de comum no humano, mas também a complexidade dos problemas enormes, as fraturas, as decepções, os traumas, os grandes sofrimentos e dores da vida."

Motor do progresso – Para além de ser fonte de prazer e enriquecimento da vida pessoal, o escritor acredita que a cultura foi também “o motor do progresso e a razão pela qual saímos das cavernas e chegamos às estrelas". “Isso foi possível porque, num dado momento, graças à nossa imaginação e nossos desejos, fomos capazes de sair de nós mesmos – algo que o animal não pode fazer – e imaginar um mundo diferente daquele em que vivemos", considera. Até há algumas décadas, a cultura englobava as humanidades, as artes, os sistemas de pensamento, de certa forma a religião e a espiritualidade – “mas fundamentalmente a criatividade", define.

Vargas Llosa acredita que é à cultura que se deve o surgimento de um sujeito que se separou da massa gregária e passou a ter direitos próprios como indivíduo. Outras ideias – como a insurreição contra o despotismo; a noção de que todos os seres humanos são iguais e, portanto, devem ser respeitados em alguns direitos básicos; o rechaço da barbárie e da selvageria; e mesmo as noções de erotismo que enriqueceram as relações humanas para além do instinto físico – também nasceram e se criaram no berço da cultura.

“Os grandes progressos cívicos, políticos e sociais de alguma maneira sempre tiveram uma entranha cultural", diz o escritor. Nesse campo inclui-se o desenvolvimento da noção de democracia, com o convívio dos diferentes e a renúncia a visões intolerantes e sectárias.

Para ilustrar sua visão de que a cultura pode civilizar inclusive a política, Vargas Llosa lembrou o período em que viveu em Paris, de 1959 até meados da década seguinte. “O sonho dos jovens da minha geração que tinham alguma vocação artística ou literária era chegar a Paris. Havia a ideia ingênua de que, uma vez ali, você poderia ser impregnado de energia e de inspiração e daria um passo decisivo para converter-se num artista ou criador", recorda. Na cidade, além de dar-se conta de que “nunca seria francês", o escritor descobriu-se latino-americano. “Eu não conhecia o que se escrevia nos outros países. Na França eu soube que a América Latina tinha uma literatura muito rica e renovadora, e descobri que havia muito o que compartilhar com chilenos, bolivianos, equatorianos, brasileiros", conta. Não por acaso, o mexicano Octavio Paz escreveu na época um ensaio intitulado Paris, capital da literatura latino-americana.

Trabalhando como jornalista na capital francesa, Vargas Llosa acompanhou muitos debates entre lideranças políticas e também coletivas do então presidente Charles de Gaulle. “Fiquei completamente deslumbrado ouvindo esses políticos falando com elegância, cultura e bom gosto. Descobri que a política poderia ser algo muito diferente da forma de barbárie, brutalidade e mediocridade que até então conhecia, e que também poderia ser coisa de homens cultos", afirma. O Prêmio Nobel considera que o aspecto da cultura que deixou uma marca mais profunda e efetuou as maiores transformações na história é o desenvolvimento do espírito crítico, fundamental para evitar a petrificação dos indivíduos e das sociedades.

Banalização – A cultura é o que mantém o dinamismo vital e as ilusões que nos fazem desejar coisas diferentes. “Como seres humanos, temos essa dramática condição de ter uma vida só e de ser capazes de imaginar mil. Isso cria naturalmente um abismo entre a realidade e o desejo que conformam a vida", diz o escritor. Da busca por coisas impossíveis e utopias, resultaram atos terrivelmente insensatos e violências espantosas, mas também o progresso, a desanimalização e a humanização.

É exatamente a preocupação com o que chamou de “banalização e frivolização da cultura de nosso tempo" – que poderia trazer enormes prejuízos às manifestações desse progresso – a motivação do novo livro de Vargas Llosa. “Se a cultura se transformar em puro entretenimento e mera diversão, terá competidores que podem derrotá-la", preocupa-se.

Nesse campo, a revolução audiovisual é pródiga: para o Nobel, ela tem virtudes como, pela primeira vez na história, realmente integrar todo o planeta via comunicação e permitir que sistemas de informação escapem dos controles da censura, contribuindo para a causa da democracia e da liberdade. Ao mesmo tempo, porém, essa informação em volumes torrenciais tem o efeito negativo de nos colocar na “confusão mais absoluta", porque em muitos casos a quantidade sacrificou a qualidade e, sobretudo, a hierarquia e as tábuas de valores que existiam fundamentalmente graças à cultura.

“Como o que chamamos de cultura já não tem essa função, muitas vezes o excesso de informação nos conduz a uma espécie de paralisia e de desconhecimento de uma realidade que não está cartografada de acordo com certos princípios e valores", diagnostica o escritor. Vargas Llosa citou o francês Gilles Lipovetsky, um dos pensadores a sustentar que o desaparecimento de seu conceito tradicional permite que a cultura deixe de ser elitista e monopólio de uma minoria que se arrogava o direito de estabelecer padrões estéticos e tábuas de valores que determinavam o que era belo, menos belo, feio ou horrível, para se transformar numa verdadeira democracia em que cada um decide o que é belo ou feio – se achar necessário fazê-lo.

Embustes – O escritor acredita que essa afirmação tem um pouco de verdade, mas também carrega muito mais elementos negativos do que positivos. “O elemento negativo maior é que o desaparecimento dos padrões culturais e da hierarquia no campo da estética faz com que a maioria das pessoas se deixe manipular muito facilmente por gente inteligente e cobiçosa, que se aproveita da cultura para interesses que muito pouco têm a ver com ela", defende. Em sua visão, o campo em que essa realidade se manifesta mais claramente é o das artes plásticas, onde vicejam “embustes extraordinários e contrabandos". “Isso se encarna num artista, entre aspas, de nosso tempo que se chama Damien Hirst (foto), que me parece o representante mais conspícuo dessa confusão cultural em que vivemos", sentencia.

Hirst é o pintor cujas obras alcançam os preços mais altos da atualidade, embora seja, para Vargas Llosa, “um artista que não sabe pintar". Entre suas obras estão vacas ou cavalos mortos boiando em formol. Um crânio com milhares de diamantes incrustados (ao qual deu o nome de Pelo amor de Deus) teria sido vendido por US$ 100 milhões, o maior valor pago a uma peça de um artista vivo. “Algo anda mal no mundo quando acontecem coisas assim, não?", pergunta o escritor.

Vargas Llosa diz que o caso de Hirst é um exemplo extremo, mas que ilustra uma realidade em que as pessoas vão aos museus e galerias não atrás de experiências que enriqueçam sua vida – mas para se divertir com “artistas que são mais palhaços do que artistas, e que querem ser mais palhaços do que artistas".

Seguindo na trilha do extremo, o escritor teme que esse caminho concretize a distopia de um mundo de autômatos manipulados, como o imaginado por George Orwell em 1984. “Uma cultura que se torna palhaçada, puro espetáculo desprovido de conteúdo, de ambição e de moral, poderia ir retrocedendo, apesar da revolução audiovisual e de nossos foguetes que viajam à Lua, à caverna primitiva", afirma.

O Nobel admitiu que talvez o passar dos anos o tenha tornado um pouco mais cético. “Esse livro, porém, foi escrito com muita angústia, porque, como já disse, as melhores coisas que aconteceram em minha vida devo à cultura. Então, a ideia de que a cultura possa converter-se num passatempo efêmero me produz a angústia que produziria a qualquer um descobrir que subitamente, sem querer e sem se dar conta, lhe tenham quitado a vida", finalizou.

“Sem cultura, o mundo empobrece"
Vargas Llosa abriu a sessão de debates – com mediação de Fernando Schüler, curador do Fronteiras, e participação do escritor pernambucano Antônio Campos – respondendo sobre a pouca credibilidade dos intelectuais na atualidade. O Nobel reconhece que ao longo do tempo muitos intelectuais se associaram à defesa de causas como o nazismo e o stalinismo.

Mas há também casos de grande lucidez, disse, citando os exemplos de Raymond Aron, George Orwell e Albert Camus. “Camus alertou que, se eliminássemos a moral do debate político, o resultado seria sempre a barbárie, a brutalidade, o assassinato justificado ideologicamente", aponta.

O escritor citou o brasileiro Euclides da Cunha como um dos autores que mais o influenciaram. “Ler Os sertões mudou minha vida e me fez entender melhor o que é a América Latina e, sobretudo, o que não é a América Latina", diz, sobre o livro que inspirou o seu A guerra do fim do mundo. “Ninguém escreveu com tanta lucidez sobre o que não somos e sobre o que acontece quando importamos certos tipos de valores e de instituições e queremos que eles se aclimatem em nosso solo." Para Vargas Llosa, o continente é uma terra em que ainda pode acontecer de tudo, para o bem e para o mal. “É impossível aborrecer-se na América Latina, ao contrário dos países mais civilizados, que em geral são imensamente aborrecidos." Uma pergunta vinda da plateia citou as vanguardas artísticas, especialmente no século 20, capazes de abalar padrões e propor rupturas, e questionando se não seria esse o papel das manifestações atuais desqualificadas por Vargas Llosa. “Não quero colocar todo mundo no mesmo saco. Seria absurdo", respondeu, reconhecendo a importância da experimentação e da busca de formas renovadoras de expressão. Mas, para o escritor, determinados atos provocadores de homens como Marcel Duchamp – com o urinol exposto como obra de arte (A fonte) – ou John Cage e sua peça silenciosa (4'33"), em que o músico não toca nenhuma nota ao longo do tempo expresso no título, “abriram a porta à loucura".“Duchamp (foto) e Cage não eram farsantes. Eram homens de enorme cultura, mas esses gestos não têm nada a ver com cultura, e sim com pura palhaçada. Se é possível fazer um concerto olhando teclas que não se tocam ou exibindo um urinol numa exposição, então vamos brincar. Se nos dedicamos à pura brincadeira, a cultura desaparece e nosso mundo se empobrece", diz.

Vargas Llosa também foi questionado sobre sua vivência como candidato a presidente do Peru em 1990, quando foi derrotado por Alberto Fujimori. Para o escritor, foi uma experiência “muito intensa, muito instrutiva e nada grata". Nela, mergulhou na política de forma totalmente diversa da que tinha vivido até então, como intelectual, a partir de bibliotecas, escritórios e da concepção de planos e projetos.
“A campanha me mostrou como a luta pelo poder tira o melhor do ser humano em seu idealismo e sua grande generosidade, mas também o pior. O apetite pelo poder, por recuperá-lo ou manter-se nele pode converter o ser humano numa besta destrutiva, capaz das maiores maldades e das piores crueldades", afirma.

Ao percorrer o país (“eu havia viajado o Peru inteiro e acreditava que o conhecia, mas na campanha me defrontei com um país completamente diferente", descreve), o escritor diz ter se sentido “fazendo parte da história a cada dia". “Foi muito interessante e aprendi muito. Mas o mais importante que aprendi é que não serei nunca um político. Careço totalmente das condições básicas do político exitoso", conclui.