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Zygmunt Bauman e Andrew Solomon: a solidão é a grande ameaça

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Ainda que escrita bem antes do surgimento da pandemia de covid-19, a teoria de Zygmunt Bauman pode ser uma ferramenta importante para refletirmos sobre o atual momento que vivemos. Criador de conceitos como sociedade líquida e amor líquido, suas ideias centrais estão entrelaçadas com o nosso presente de incertezas e fugacidade. 

“Escolhi chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza.” – Zygmunt Bauman

O passeio diário com o cachorro depois do trabalho, o lanche da tarde na padaria da esquina, o almoço de todo dia com os colegas do trabalho. As pequenas certezas da rotina que nos davam a estabilidade e a segurança de que tanto precisamos já não são as mesmas. De uma hora para outra, tudo mudou e nós passamos a aprender a lidar com novos horários, novos locais de trabalho, outras exigências e necessidades. Criamos outras rotinas no isolamento, é claro, mas rotinas provisórias, prestes a mudar novamente a qualquer momento, assim que a pandemia passar.



A pandemia veio para nos sacudir e dizer: nada será como antes. Não há segurança, carreira brilhante ou plano de saúde que possa nos assegurar de que tudo ficará bem e que as coisas voltarão a ser como eram. As verdades, que outrora nos guiavam, agora se tornaram líquidas - como os conceitos de Bauman - e escorrem pelas nossas mãos.

Os aprendizados são inúmeros e certamente um dos mais valiosos está nas relações que estabelecemos com o outro. O isolamento e impossibilidade do encontro face a face aumentaram a solidão e a sensação de abandono, que são "os grandes medos nestes tempos de individualização", de acordo com o sociólogo polonês. 


“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo." - Zygmunt Bauman

É neste ponto que as ideias de Zygmunt Bauman se conectam com um pensador contemporâneo que tem dedicado sua trajetória a estudar a depressão. O escritor norte-americano Andrew Solomon é autor de um verdadeiro atlas da doença, O Demônio do Meio-Dia, escrito a partir da visão de quem sentiu na pele os seus efeitos.

Solomon, que tem acompanhado o aumento e a subnotificação dos casos de depressão durante a pandemia, destaca que a solidão é o principal problema que surgiu em decorrência da covid-19. As incertezas, o medo da contaminação, a falta de convívio social e o rompimento da rotina são alguns dos fatores apontados pelo autor como aceleradores do surgimento da doença.

"A depressão, mesmo em circunstâncias normais, é uma doença da solidão. Então se você conseguir sair um pouco dessa solidão, tem mais chances de ficar bem. Alguns dizem é muito trabalho ligar para as pessoas. Pensam: "Talvez não queiram falar comigo". Meu conselho é: liguem, fiquem em contato." - Andrew Solomon


Para quem enfrenta a depressão neste momento, além da ajuda profissional imprescindível, o contato com os amigos e com a família via meios digitais é essencial. De acordo com Solomon, uma “dieta ideal para a saúde mental” compreende estabelecer rotinas, ter um número adequado de horas de sono, nem muito, nem pouco; não comer demais, não beber demais.

“Quando você está muito solitário e isolado, a ideia de procurar outras pessoas parece uma coisa enorme e pouco atrativa. Mas é uma medida de saúde muito importante falar com seus amigos, sua família, ou pessoas com as quais você tem conexão. Pode ser pelo Zoom ou outra plataforma online, telefone ou WhatsApp. Use qualquer tecnologia que estiver disponível e fique em contato com outras pessoas." - Andrew Solomon

De perspectivas diferentes, Zygmunt Bauman e Andrew Solomon trazem definições que nos ajudam a pensar o atual momento que vivemos. Bauman aborda a solidão como um medo decorrente da fragilidade e fugacidade das relações, e Solomon situa a solidão como consequência da doença chamada depressão, a doença que isola. Seja como medo de sua provável expansão neste período de isolamento, seja como condição da depressão, sempre é possível uma cura, um reinício, um retorno aos afetos.


>> Assista aos vídeos de Zygmunt Bauman ao Fronteiras do Pensamento