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A antropotécnica de Peter Sloterdijk: "seres humanos sensíveis ao seu apelo deveriam trabalhar sobre si mesmos"

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Sloterdijk (pintura a óleo sobre tela por Michael Burris Johnson, 2014)
Sloterdijk (pintura a óleo sobre tela por Michael Burris Johnson, 2014)

"A filosofia antiga não colocava o acento na racionalidade do mundo, mas na necessidade de conduzir uma vida regulada segundo prescrições cósmicas do ser: sua preocupação era acima de tudo ética."

Crítico do modelo de “domesticação intelectual", estruturado sobre as noções de alfabetização, instrução, educação e escola, Peter Sloterdijk entrou em uma verdadeira e própria batalha contra um humanismo que considera incapaz não só de se coordenar na pós-modernidade, mas até de ler retrospectivamente as coordenadas do próprio mundo. Na obra Você precisa mudar sua vida (lançada na Alemanha em 2009 e ainda não editada no Brasil), o filósofo alemão retoma a questão, para ele central, da antropologia e da busca de uma dimensão não literária ou iluminista do contexto de vida, tema desta entrevista*. Confira abaixo.

No livro Você deve mudar sua vida, você avança na hipótese da autoconstrução do humano, na qual as diversas atividades – sentimentos, trabalho, comunicação, mas, sobretudo ritualismo e repetições – retroagem sobre o próprio homem, o modificam e o criam. Através de uma forma aparente de humanismo e de busca da transcendência – a religião – assistimos na realidade a uma nova prática da construção de si, que você chama de antropotécnica.
Peter Sloterdijk
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No início do meu livro, falei principalmente de repetições. O ponto crítico, na história da civilização, é a meu ver representado pelo emergir de exercícios explícitos: o ser humano vive, enquanto tal, na repetição e dá forma e conteúdo à própria vida através de um ritualismo mais ou menos consciente, feito de exercícios repetitivos.

A definição do ser humano, na minha acepção, não é dada pela “criatividade", mas pela “repetitividade na criatividade". A criatividade tomada em si mesma é uma ideologia pobre, já que o homem deve se tornar o que é, encarnando o que pode. Mas, a encarnação passa através da repetição. A palavra francesa répétition exprime ao mesmo tempo a repetição, o repor em cena ações que já produzimos, e o exercício que prepara uma performance, um desempenho. Pensemos numa repetição musical ou artística, fazer e repetir são termos que em francês – diversamente do que ocorre em alemão – convergem. E é exatamente sobre esta convergência que se concentra o trabalho da antropotécnica.

A antropotécnica parece, além disso, ser uma possível solução ao impasse do biopoder. Como resposta a este impasse, Michel Foucault, simplificando, retornou ao sujeito. A referência é principalmente ao segundo e terceiro volume de sua história da sexualidade, o “Uso dos prazeres" e “O cuidado de si". Você, ao invés, escolhe “retornar ao homem".
Peter Sloterdijk: Biopoder é um conceito interessante, mas, no contexto em que é usado no debate atual, diz bem pouco. Em sua concepção mais dura, o biopoder é o “populacionismo" e se apoia na ideia de população, própria do regime absolutista. Este aspecto escapou em grande parte a Michel Foucault e, com maior razão, escapa aos seus intérpretes tardios. Foucault se concentrou principalmente nos fenômenos da disciplina e da biopolítica da idade clássica.

A meu ver, seria preciso dirigir a atenção à volta do Renascimento e do Estado moderno. É neste preciso momento que todos os grupos na posse dos “saberes" se interrogam sobre como se poderiam produzir, anular, suprimir os futuros sujeitos do Estado. A preocupação é, no entanto, a de garantir um número de sujeitos suficiente para o funcionamento da máquina.

O sujeito moderno é, antes de tudo, o sujeito da superprodução “populacionista". Ser sujeito significa, portanto, ser esperado sobre a terra por um Estado que quer consumir-te em sua nova política da força.

Eu creio que este fenômeno confere um conteúdo bem mais robusto ao próprio conceito de biopolítica ou de biopoder do que todos os exemplos adotados por Foucault ou por seus sucessores. Deste ponto de vista, é considerada a diferença entre o Estado que faz morrer e o Estado que impõe nascer, entre a política da morte e a indiferença pela vida ou da vida e da (relativa) indiferença pela morte, entre o Estado clássico que faz morrer e o moderno, que “impõe" viver. Já o Estado clássico “impõe", no entanto, a vida de maneira muito mais ampla com respeito ao Estado moderno que, de sua parte, tem não poucos problemas com a natalidade em constante taxa de decrescimento.

Voltando a Foucault, nos seus últimos livros você propõe uma ética fundada na transformação de si, que, em certa medida o induz a considerar um aspecto diverso da política da vida em geral...
Peter Sloterdijk:
E é neste ponto que eu me reconecto com as suas pesquisas e também com os estudos de Pierre Hadot sobre os exercícios e a prática de si, e também ao pensamento do pedagogo e filósofo Paulo Rabbow, que havia estudado o mesmo fenômeno. São autores que estudei muito de perto para escrever o meu livro sobre antropotécnicas, no qual demonstro como os homens já são o resultado de exercícios que praticam sem sabê-lo. “No início", como dizia Henri Michaux, “era a repetição".

A estas técnicas de transformação do sujeito, postas em jogo pelo próprio sujeito, se pode associar uma preocupação de tipo ético?
Peter Sloterdijk: Há aproximadamente três mil anos, as civilizações mais avançadas viviam numa espécie de estresse moral de ordem completamente nova. Houve um tempo em que era possível observar novas epifanias, de cunho ético. Creio que a filosofia como disciplina da velha Europa, ou como era concebida na Ásia Menor, em Atenas e nas costas da futura Turquia, foi uma nova epifania do logos. E o logos não é somente uma instância epistêmica, mas antes de tudo ética. Pierre Hadot, por exemplo, cujo pensamento influenciou muito Foucault, nos pôs em guarda contra conceber a filosofia em sua acepção cognitivista.

A filosofia antiga não colocava o acento na racionalidade do mundo, mas na necessidade de conduzir uma vida regulada segundo prescrições cósmicas do ser: sua preocupação era acima de tudo ética. Na China, como na Índia, no antigo pensamento persa ou entre os profetas de Israel, bem como na Grécia, a grande preocupação ética, o cuidado, convulsionou a vida dos homens.

Para designar este grupo de epifanias éticas, escolhi reformular um imperativo absoluto, a partir deste título e máxima: você precisa mudar tua vida, Du musst dein Leben ändern. Não é o imperativo categórico de Kant que entra por um ouvido e sai pelo outro, sem deixar sinais na personalidade de quem o escutou.

O imperativo que eu proponho é, ao contrário, um imperativo transformador: os seres humanos sensíveis ao seu apelo deveriam começar a trabalhar sobre si mesmos. Viver é preparar-se, transformar-se, aceder ao estatuto do sábio, responder à tensão vertical que impõe modificar a própria existência.

Também em resposta a esta tensão vertical, o meu trabalho se sintetiza na reformulação do imperativo numa forma consoante aos nossos tempos. Um imperativo que incita a fazer que o princípio que “move as tuas ações e o resultado das tuas ações" sejam ambos compatíveis com as exigências do nosso saber ecológico e cosmopolita. O último horizonte, no qual se inscreve este projeto, é o de um novo movimento reformador em escala global, que apresente uma nova dimensão ecológica e ética a serviço da viabilidade de vida do planeta. É esta a perspectiva que considero necessária.

*Entrevista por Marco Dotti, originalmente publicada no jornal Il Manifesto, em 2009. A tradução é de Benno Dischinger, para o Instituto Humanitas Unisinos.