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Angus Deaton: Marcha para o progresso

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Angus Deaton (ilustração: Johan Jarnestad/Academia Real das Ciências da Suécia)
Angus Deaton (ilustração: Johan Jarnestad/Academia Real das Ciências da Suécia)

“Pobreza”, “desigualdade”, “justiça”. É inevitável que qualquer discussão esclarecida e honesta sobre economia, política e sociedade em nossos tempos trate desses tópicos. Ao longo do ano de 2017, o Fronteiras do Pensamento recebeu alguns dos principais pensadores que deram contribuições decisivas para essa área. Do economista francês Thomas Piketty, autor do clássico O Capital no século XXI, ao historiador Niall Ferguson, um dos grande especialistas em história econômica da atualidade, passando pela economista Deirdre McCloskey, referência nos estudos sobre a história do capitalismo, o público do Fronteiras pôde acompanhar diferentes abordagens e argumentos para entender a conjuntura econômica e social que vivemos. Esses são alguns dos temas abordados pelo professor de Princeton e prêmio Nobel de Economia, Angus Deaton, nesta entrevista: “Em todo o mundo, nos últimos 250 anos, milhões e milhões de pessoas ascenderam a padrões de vida mais elevados, com avanços na saúde e na educação.” Confira abaixo: 

Angus Deaton, professor da Universidade Princeton, é um dos mais influentes economistas do mundo em questões sociais. Em estudo recente, Deaton e a pesquisadora Anne Case, sua mulher, descobriram o inesperado aumento da taxa de mortalidade de homens brancos de meia-idade nos Estados Unidos, depois de quase 100 anos de queda. As causas estão ligadas à marginalização social de trabalhadores sem diploma universitário que ficaram desempregados por um longo período. É o segmento que ajudou a eleger o populista Donald Trump. Apesar desse fenômeno, o escocês naturalizado americano, ganhador do Nobel de Economia em 2015, discorda da onda de pessimismo representada pela ascensão de Trump e de políticos com discurso nacionalista. Argumenta que já houve períodos catastróficos, como as guerras mundiais, e diz que, em longo prazo, há uma força coletiva que guia o mundo rumo a progressos sociais como a melhora da qualidade de vida e a redução da pobreza. O fenômeno dá nome ao livro A Grande Saída (Editora Intrínseca), de 2013, cuja edição brasileira acaba de ser lançada. De Princeton, Deaton, aos 71 anos, deu a seguinte entrevista, por telefone.

O que é a grande saída que dá nome ao livro?
Angus Deaton: É a libertação de milhões de pessoas que antes viviam na condição de prisioneiras da pobreza, com privação material, baixa expectativa de vida, doenças. Em todo o mundo, nos últimos 250 anos, milhões e milhões de pessoas ascenderam a padrões de vida mais elevados, com avanços na saúde e na educação. Os padrões de vida hoje são significativamente melhores que os de um século atrás. Um número maior de pessoas se livrou do risco de morte prematura e vive o bastante para usufruir a prosperidade. Além disso, o rápido crescimento econômico em muitos países desde a II Guerra Mundial ajudou a tirar centenas de milhões de pessoas da miséria. Recentemente, a China e a Índia são os maiores exemplos disso.

A onda de pessimismo mundial, com a ascensão de movimentos nacionalistas e protecionistas, sobretudo depois da vitória do Brexit e de Donald Trump, não abalou seu otimismo?
Angus Deaton: 
Não, continuo otimista. Você citou dois fatos negativos. Mas Emmanuel Macron venceu as eleições na França, derrotando Marine Le Pen. Na Holanda, o partido de extrema direita não ganhou. Nesse período de 250 anos de que trata o livro, houve décadas em que coisas terríveis aconteceram: duas guerras mundiais, o holocausto, o Grande Salto para a Frente, na China, o vírus da aids e o seu impacto na expectativa de vida na África. Foram grandes reveses. A questão agora é se estamos à beira de um novo revés na história. Eu não sei a resposta. Mas, ainda que isso seja verdade, penso que, no longo prazo, o futuro será brilhante. O motivo pelo qual prosperamos nos últimos 250 anos é que passamos a contar com a determinação de nossa capacidade racional para solucionar problemas sociais, fazer progressos na qualidade de vida e perseguir a felicidade. Existe hoje a preocupação em tornar o mundo um lugar melhor. Há uma força coletiva que empurra o mundo nessa direção.

Apesar desse avanço, muitas pessoas ficaram para trás. São os chamados perdedores da globalização. O senhor acredita que, depois de Trump e do Brexit, os políticos passaram a focar a melhora da vida desses eleitores insatisfeitos?
Angus Deaton: 
Não vejo sinais de que isso esteja ocorrendo, além da retórica. Políticos entenderam as vontades dos eleitores que não se sentem representados. Estão falando mais sobre o assunto, mas não estão fazendo nada para melhorar a situação.

Qual a ameaça à redução da pobreza e da desigualdade no mundo?
Angus Deaton: 
Uma das questões sobre as quais eu não falo de forma suficiente no livro, mas deveria fazê-lo, é a mudança climática. Ela terá efeitos ruins para os mais pobres e provavelmente vai exacerbar a desigualdade. Os países ricos têm maior capacidade de mitigar as consequências negativas do que as nações mais pobres. O protecionismo é outra ameaça. A globalização trouxe enormes benefícios para milhões, bilhões de pessoas ao redor do mundo. Trouxe grandes benefícios também para os países ricos, como produtos que se tornaram muito mais baratos e acessíveis. Quem poderia imaginar, alguns anos atrás, que o avião mais comum em Newark, aeroporto da região de Nova York, seria fabricado no Brasil?

Desigualdade e pobreza costumam ser associadas à renda. O senhor diz que é uma definição incompleta. Por quê?
Angus Deaton: 
Sou um discípulo de Amartya Sen (indiano que ganhou o Nobel de Economia em 1998). Ele passou a maior parte da vida tentando fazer as pessoas entender que o bem-estar não é apenas uma questão de dinheiro. A lista do que faz a vida valer a pena certamente inclui dinheiro, mas também muitas outras coisas. Saúde é uma delas, assim como educação, participação na sociedade, amizades, tudo aquilo que faça alguém sair da cama pela manhã e amar a vida.

>> Assista à conferência de Amartya Sen no Fronteiras do Pensamento

É possível separar a desigualdade de renda da desigualdade de oportunidades?
Angus Deaton: 
Penso que não. Uma das ideias que derivam da igualdade de oportunidades é assegurar que o sistema educacional funcione bem para crianças pobres, que lhes garanta boas chances de acesso. É importante também que a Justiça não atue de modo a favorecer as pessoas ricas. Mas não acredito que a busca pela igualdade de oportunidades seja suficiente. A própria desigualdade de renda pode pôr em risco as oportunidades. Ricos vão gastar muito dinheiro para reforçar as chances de que os seus filhos se saiam bem na vida.

A desigualdade é vista como algo necessariamente ruim. Mas o senhor fala de um lado positivo. Como distinguir a boa desigualdade da má?
Angus Deaton: 
É mais complexo do que isso, porque a mesma desigualdade pode ter lados positivos e negativos. Alguém pode ficar rico graças a alguma inovação maravilhosa, mas essa mesma pessoa pode usar esse dinheiro de maneira política para prejudicar terceiros. Essa pessoa será um exemplo de boa e má desigualdade. Boa parte da desigualdade social nos Estados Unidos, e no mundo, tem a ver com indivíduos que buscam fazer o que chamamos de rent seeking, ou seja, persuadir o governo a lhes conceder favores especiais e privilégios. Pense na indústria farmacêutica fazendo lobby no Congresso americano e em como os seus executivos ficam ricos obtendo leis favoráveis aos seus negócios.

Por que o senhor critica a ajuda internacional oferecida aos pobres e miseráveis dos países africanos?
Angus Deaton: 
O desenvolvimento econômico exige um contrato social entre o governo e a população. Essa é a base para o desenvolvimento. Isso se dá por meio da cobrança de impostos e dos gastos públicos. Por esse contrato, o governo tem a função de fazer algo pela população. Se esse governo é total ou amplamente financiado pela ajuda de outros países, então os políticos não terão incentivos para prestar atenção às reivindicações da população. O desenvolvimento não vai acontecer nessas circunstâncias. É o que vemos em países pobres.

Existem casos em que o governo tem dinheiro mas as políticas de combate à pobreza não são efetivas como se poderia esperar?
Angus Deaton: 
Sim. Governos colonialistas, por exemplo, não têm interesse em ajudar os pobres, apenas em explorá-los. Ditadores também agem assim. A sua pergunta presume que todos os governos querem reduzir a pobreza. Não acho que isso seja verdadeiro. Todos os governos dizem que querem reduzir a pobreza, mas em muitos países não há nenhum interesse em fazê-lo na prática.

angus deaton

Considerando as experiências já realizadas no mundo, quais se mostraram mais eficientes para reduzir a pobreza e a desigualdade?
Angus Deaton: 
O progresso pode produzir desigualdade. Se você é contra a desigualdade, é contra o progresso também? Temos, portanto, de ser muito cuidadosos ao falar em reduzir a desigualdade. Novas fugas de pessoas da pobreza trarão novas desigualdades, porque o progresso não ocorre em todos os lugares ao mesmo tempo. Sobre a pobreza, historicamente, o principal fator para reduzi-la é o crescimento econômico. Nisso a globalização ajudou muito.

Sendo o crescimento econômico o principal motor para reduzir a pobreza, o que pode ser feito em países em recessão, como o Brasil?
Angus Deaton: 
Procuro ser muito cuidadoso e não fazer recomendações específicas para países. Nenhuma nação dispõe de recursos ilimitados. Dito isso, as questões básicas são sempre as mesmas: de onde vem o dinheiro público, quem paga por ele e quem se beneficia? Eis algo que cada país precisa definir, considerando seus valores, seu contexto e as políticas para isso.

O tema da desigualdade ganhou popularidade com o livro O Capital no Século XXI, do francês Thomas Piketty. Ele defende a criação de um imposto global sobre fortunas para reduzir a desigualdade. Qual a sua opinião?
Angus Deaton: 
Não tenho interesse em falar de ideias cuja possibilidade de se tornarem realidade não existe. Mas um dos pontos importantes sobre Piketty é que seu trabalho atraiu enorme atenção sobre um tema fundamental, na medida em que muitas pessoas escondem sua riqueza em contas internacionais e paraísos fiscais. Essa foi uma das motivações para que ele sugerisse o imposto global. Mas, na verdade, seja em países ricos, seja nos pobres, essa riqueza está escondida e fora do alcance das autoridades fiscais.

>> Assista a Piketty no Fronteiras do Pensamento

O senhor e a pesquisadora Anne Case descobriram o aumento de mortes dentro de um grupo específico da população americana. Qual a explicação?
Angus Deaton: Estudamos o grupo formado por homens brancos de meia-idade, não hispânicos, nos Estados Unidos. Constatamos que, depois de quase 100 anos de queda da mortalidade, essa taxa passou a subir em 1998. As mortes ocorrem principalmente de três formas: overdose de drogas e medicamentos, suicídios e doenças de fígado causadas pelo álcool. Chamamos o fenômeno de "mortes por desespero". São quase sempre pessoas sem diploma universitário e sem boa formação educacional, indivíduos que se deram mal na vida nos últimos quarenta anos. Esse fenômeno, ocorrido em um país rico como os Estados Unidos, reflete o abandono, por um longo período, das pessoas que, por um motivo ou outro, ficaram para trás na sociedade.

(Via Veja)