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"Ao ser uma conclusão para a vida, a morte é uma caricatura da existência", diz Valter Hugo Mãe sobre tema de novo romance

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A rotina de feiras, debates e residências literárias fez escritores se tornarem rematados viajantes. Até dezembro, o português Valter Hugo Mãe só passará duas semanas em Vila do Conde, a pequena cidade onde mora, a três horas de Lisboa. O escritor, que veio ao Rio para participar de um debate promovido pelo Ciclo Ato Criador, parte em breve para Boston, nos EUA. Ele aceitou um convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e passará dois meses longe de casa a fim de terminar seu próximo romance. O livro, que ainda não tem título, deve ser publicado no ano que vem.

— Recebo muitos convites para residências e estadias. Nunca aceitei por medo de sentir saudade e solidão em demasia — explica ele, que calcula passar duas semanas por mês fora de Portugal. — Está cada vez mais difícil conseguir tempo contínuo de concentração. Tento criar uma estrutura de reserva, mas tem sempre alguém escalando a Torre de Marfim. Quero, a todo custo, proteger minha escrita.

Conhecido pela prosa carregada de poesia, Mãe pretende explorar a dualidade entre delicadeza e brutalidade na próxima obra:

— É um livro sobre um pintor de leques, homem cujo trabalho é extremamente delicado, quase feminino. Ele sente uma pulsão estranha para afastar os outros: vive aterrorizado pela ideia de não se conter e matar alguém. É um indivíduo que as pessoas acarinham como um ser doce. No entanto, vive cozinhando uma frustração insuportável — resume.

Mãe acredita que seus romances se situam em ilhas isoladas. No entanto, diz que tenta criar algum tipo de coesão entre eles, nem que seja a partir do título. Por isso, quer que o próximo tenha um nome conciso como o de “A desumanização" (Cosac Naify), lançado no ano passado.

Assista a Valter Hugo Mãe: A minha liberdade e a liberdade do outro

Se a solidão é um aspecto fundamental dos romances do escritor, o isolamento nos EUA pode render boas linhas. A história de Crisóstomo em “O filho de mil homens" (Cosac Naify), de 2011, é um bom exemplo disso. A frustração do pescador por não deixar herdeiros se transforma em um grande libelo sobre o exílio interno.

E, mais uma vez, Mãe vai explorar a morte, fio que atravessa sua literatura. A reflexão sobre o mais universal dos temas costuma gerar bons momentos, como no celebrado “A máquina de fazer espanhóis" (Cosac Naify), de 2010. No livro, um interno de asilo convive com a iminência do fim. Já em “A desumanização", a história é narrada por uma menina islandesa de 11 anos, que acabou de perder a irmã e se enreda em um torvelinho de melancolia. O autor diz que foge das temáticas moderadas. Quando estrutura seus romances, prefere o excesso à contenção.

— Quando escrevo sobre temas comuns, sinto que estou a escrever banalidades. Em “A desumanização", eu digo que a morte é um exagero. E eu lido com exageros. Ao ser uma conclusão para a vida, a morte é uma caricatura da existência. Acho que só sei falar sobre isso — diz o escritor que venceu o Prêmio José Saramago em 2007, por “O remorso de Baltazar Serapião" (Editora 34).

Assista a Valter Hugo Mãe: Reflexões sobre a vida e a morte

UNIVERSO INFANTIL

Em “A desumanização", Mãe volta a se valer de um expediente usado em seu primeiro romance, “O nosso reino" (Editora 34), publicado em 2004: conta a história sob a perspectiva da infância. Ele diz que se sente à vontade no universo infantil.

A relação vai além: Mãe publicou seis livros infantis, a maioria deles inéditos no Brasil. O último, no entanto, teve primeiro uma versão brasileira: “O paraíso são os outros" foi publicado pela Cosac Naify antes de sair em Portugal.

— Comigo há uma natureza que faz com que a infância seja um tópico muito recorrente. Tenho que entender isso melhor — explica. — É como se fosse uma fórmula tão forte que preciso resistir. Tenho a impressão que poderia escrever todos os meus livros na perspectiva de uma criança. Se você reparar, o primeiro e o mais recente são contados por crianças. Acho que isso acontece com “A desumanização" porque precisei voltar ao começo.

Ao ler um texto sobre sua relação com o Brasil durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2011, Mãe emocionou a plateia e despontou como o grande destaque daquela edição. Desde então, sempre que cruza as fronteiras brasileiras, ele faz questão de exaltar os laços criados com o país.

Durante a conversa de terça-feira na Biblioteca Parque Estadual, mediada pela escritora Bia Correia do Lago, ele voltou ao tema e leu uma passagem sobre sua primeira visita ao Brasil. Depois, saiu-se com uma frase de efeito (“Os brasileiros são portugueses criados à solta").

Mãe explica que o assunto ganhou tamanha importância que pretende escrever um romance passado no Rio, cidade que cataliza sua paixão. No entanto, precisa deixar o assunto descansar.

— Se eu fosse escrever agora, seria um livro sobre uma paixão correspondida. É como se eu quisesse presentear uma garota que eu quero. E a boa literatura não é feita disso — garante.

Assista a Valter Hugo Mãe: Escrever é um ato de aspiração à revelação

Apesar de fazer declarações de amor ao Rio e de estar de malas prontas para a temporada em Boston, Mãe não troca Vila do Conde, que tem cerca de 28 mil habitantes, por lugar algum. Ele diz que não gosta da ideia de viver em grandes cidades. O escritor conta que, ao longo do tempo, chegou a recusar propostas de editores para viver em Lisboa.

— Habitar em Lisboa é estar frequentemente sujeito à intromissão. Viver lá pode ser interessante em certa altura da vida, mas o meu feitio é muito caipira. Gosto de ver, recolher e, de alguma forma, juntar em casa. Preciso dessa sensação de recolhimento. Por isso meus livros ponderam muito a solidão, o abandono e, inclusive, a necessidade de fugir.

(via O Globo)