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Camille Paglia: o que falta para a felicidade das mulheres (e dos homens)

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Camille Paglia ficou conhecida nos anos 1990, com sua obra Personas Sexuais. O livro, de 700 páginas, foi baseado em uma consistente perspectiva histórica, apoiada em noções de arquétipos, lendas e mitos.

Na obra, Paglia traça um caminho interdisciplinar através da cultura ocidental, recontando o que ela viu como uma batalha sem fim entre a natureza (violenta, irracional, indomável e feminina) e a cultura (estética, lógica, sempre tentando e falhando em domesticar a natureza e, sim, masculina).

Uma autodeclarada libertária defensora da liberdade sexual e de expressão, em meio às guerras culturais do início dos anos 1990, Camille Paglia afirma que a segunda onda feminista se tornou uma força homogeneizada e repressiva.

Ela questiona se a civilização ocidental e os homens que a construíram não mereciam algum crédito e se as feministas não estavam ignorando tudo de importante a respeito não somente da arte, mas também do sexo e até da felicidade das mulheres.

Apesar de Paglia escrever, de tempos em tempos, sobre política e cultura, ela se retirou, em grande parte, do centro do debate feminista. Mas, não antes de publicar Free women, free men. Lançado em 2017, o livro reúne material produzido ao longo de sua carreira abordando sexo, gênero e feminismo – seus temas favoritos.

Nesta mesma época, ela veio ao Fronteiras do Pensamento e concedeu entrevista à patrocinadora do nosso site e canais digitais, a Braskem.

Seu mais recente livro é o recém-lançado Provocations - Collected Essays on Art, Feminism, Politics, Sex and Education (Penguin, 2018), que inicia com uma frase bastante definidora de sua obra: "Este livro não é para todos."

Na obra, ela compila ensaios, entrevistas e outros trabalhos que marcaram sua trajetória como uma das mais influentes pensadoras dos Estados Unidos.

Confira as reflexões de Paglia sobre o pós-feminino e sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea nesta entrevista à Braskem. Leia e assista abaixo.

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Algumas mulheres têm escolhido deixar a carreira para ficar perto da família. Essa tendência é um avanço ou um retrocesso?

Camille Paglia: A segunda onda do feminismo, quando reapareceu nos anos 1960, se focou bastante em abrir oportunidades de carreira para as mulheres nas áreas profissionais e políticas – e foi incrivelmente bem-sucedida nisso. Mas, neste processo, esse movimento de segunda onda também tendeu a denegrir o papel da esposa e da mãe e desvalorizar a forte inclinação que a mulher tem de gerar filhos, já que carrega as crianças em seus ventres. Penso que estamos testemunhando um processo correto de recuperação das coisas que a maioria das mulheres valoriza na vida.

Creio que não podemos mais idolatrar a mulher profissional, este modelo ideal de ambição da classe média alta, impiedosa, indo para o trabalho com sua maleta. Ela não é o produto derradeiro da história humana. Ao contrário, ela é, de muitas formas, uma versão limitada da felicidade humana. Portanto, acredito que as feministas devem escutar mais as mulheres reais e não tentar ditar o que é importante para elas e o que não é.

Em muitos países, as mulheres tiveram conquistas importantes, como a presença no mercado de trabalho, mas continuam infelizes. Por quê?

Camille Paglia: O sistema de carreira capitalista moderno é uma máquina, que não é uma criação masculina carregada de sexismo para restringir as mulheres, certo? As mulheres se sentem infelizes devido à esterilidade inerente deste mecanismo, que trouxe enorme prosperidade e, de fato, riquezas materiais a muitas mulheres, progressão de carreira, poder no mundo, um perfil mais realista, onde suas vozes podem ser ouvidas e assim por diante.

Mas, esperar que a felicidade automaticamente flua da operação feminina desta máquina não é realista. Os homens também sofrem devido à sua escravidão a esta máquina.

O que precisamos é uma reavaliação do verdadeiro significado da vida. Talvez, não sejamos completamente definidos por nossos empregos. Talvez, nosso "eu" essencial seja definido pela vida após o trabalho, aquela que ocorre fora do emprego.

Essa foi, de fato, a visão dos anos 1960. A minha geração se rebelou contra o sistema de carreiras. Largou tudo, formou comunas, viveu da terra etc. Portanto, precisamos recuperar o que me parecem ser valores espirituais - não estou falando de valores religiosos, nem de um código religioso - mas de um certo senso acerca do nosso lugar no universo, em uma estrutura mais ampla... E de ver nossos empregos como uma forma de sustentar as coisas mais importantes da nossa vida, fora do trabalho.

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A obra reúne textos de especialistas brasileiros, que explicam o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados. Os excertos escolhidos representam as ideias que colocaram estes nomes como referências do nosso tempo. Clique aqui para ler um excerto da fala de Paglia, presente no livro.

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Assista abaixo à entrevista com Camille Paglia e não deixe de conferir os outros vídeos com a ensaísta.