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É preciso ser rebelde para ser um cientista criativo

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Ciência, vida, sociedade e política não são temas desconexos para um dos maiores nomes da ciência moderna. De adolescente rebelde passando a militante político investigado, a inconformidade perante a realidade sempre acompanhou Carlo Rovelli e fez do físico italiano um dos criadores da Teoria da Gravidade Quântica em Loop, também conhecida como gravidade em loop.

Nos anos 1970 envolveu-se nos movimentos estudantis de esquerda antiautoritária na Itália e em rádios livres de teor político. Na vida adulta, transferiu a rebeldia para sua grande paixão: a ciência. Aos 63 anos, o físico italiano reconhece o valor inestimável do conhecimento sobre o qual a ciência foi construída, mas afirma que é da rebeldia contra um livro, uma teoria ou um professor que brota a curiosidade instigante necessária à ciência:

“É preciso ser rebelde para ser um cientista criativo. Estudamos, estudamos, estudamos os livros até o ponto em que ao ler um livro se diz: “Não, isto não está certo.” É esse o momento em que alguém se torna um cientista, em que se desafia o conhecimento recebido.”

Sete breve lições de física

 Em entrevista, o cientista fala sobre sua visão para o futuro e defende a visão de aliar ciência e vida para a construção do conhecimento. Confira:

 Em que momento você percebeu que a realidade não é o que parece?

Carlo Rovelli: Quando somos adolescentes, passamos por algumas crises em que o nosso mundo de criança se destrói: descobrimos que o mundo é diferente. Esse momento foi muito forte, talvez eu nunca tenha saído dele [risos].

Fazer ciência foi parte disso. Quando entrei para a universidade, estudar física não era algo de que tivesse 100% de certeza. Não estudava com muita paixão. Mas quando cheguei ao terceiro ano, com a relatividade e a mecânica quântica, tive um enorme encantamento que se ligou à minha crise da adolescência: percebi que a ciência moderna nos mostra, de fato, que o mundo é mais complicado do que pensamos. Fascinou-me, porque também significa que há muito a descobrir.

Uns anos depois, descobri o problema científico ao qual dedicaria a minha vida, a gravidade quântica. E percebi que, para a entendermos, temos de mudar de novo a forma como vemos a realidade.

“Os períodos de férias são aqueles em que se estuda melhor, pois não se é distraído pela escola”, escreve em Sete Breves Lições de Física. Foi ao ver o mar numa praia que compreendeu com clareza o que queria dizer Einstein com a sua teoria da relatividade geral.

Carlo Rovelli: Isso aconteceu durante os meus anos de universidade. Não ia às aulas… muito pouco. Estudava por conta própria, falava com os professores, que me diziam que livros estudar. Eu trazia esses livros — e outros — e estudava em casa.

Estudei a relatividade geral, não em Bolonha, na universidade, mas quando estava na praia de um pequeno vilarejo, em Condofuri, no Sul de Itália, na Calábria. Estudava muito na praia, tentava compreender as equações.

Faço um esforço para ver o que as equações dizem e não apenas usar aquele fluxo de símbolos e números para computar: quero a imagem que as equações nos dão da realidade.

Quando comecei a compreender a curvatura do espaço e a curvatura do tempo [previstas por Einstein], foi quase como uma viagem psicodélica. O momento em que vi essas curvaturas foi como uma epifania: compreendi algo sobre a forma como a relatividade funciona.

É como quando percebemos que a Terra gira. Estudamos isso nos livros, mas um dia vemos o pôr do sol: como o Sol não se move, sentimos que estamos nesta grande rocha que gira.

Trinta anos depois, ligaram-me de Condofuri: queriam me conceder a cidadania honorária da cidade, porque ninguém falava deles e agora pessoas de todo o mundo falavam. Fui lá, houve uma festa e recebi as chaves simbólicas do município.

O que viu naquele pedaço de mar?

Carlo Rovelli: O mar em si mesmo é uma espécie de metáfora: se virmos a superfície da água, o mar está se curvando. E, se o souber fazer, é possível ver a curvatura da Terra no mar. Olhando para o céu e para o mar, descortinei a curvatura do espaço a quatro dimensões. Visualizei a descoberta de Einstein.

Escreveu em A Realidade não É o Que Parece: “Com frequência penso que a perda de toda a obra de Demócrito foi a maior tragédia intelectual a seguir à derrocada da civilização antiga.” Ele e outros pensadores da Grécia antiga acreditavam que o mundo deveria ser compreendido pela observação e razão, não pela fantasia, pelos mitos antigos ou religião. O mundo teria sido outro, se aquele pensamento não fosse suprimido?

Carlo Rovelli: Sabemos algumas coisas sobre o trabalho de Demócrito, sabemos que os antigos o consideravam um dos grandes pensadores. Indiretamente, temos acesso a algumas ideias dele — e é incrível o tipo de ideias que teve —, mas sabemos que se perdeu muito de sua obra.

Há um texto antigo que inclui uma lista dos seus livros: são uns 30 livros sobre muitos assuntos [sobre os planetas; sobre as cores; sobre as diferentes trajetórias dos átomos; descrição do céu], todos perdidos. Pensemos na influência que tiveram Platão e Aristóteles na cultura moderna: se não tivéssemos perdido a obra de Demócrito, a sua influência seria igualmente enorme.

O pouco que sabemos da física de Demócrito está no livro De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas), de Lucrécio [poeta e filósofo romano do século I a.C.]. Ele nos diz em verso a física de Demócrito: fala de átomos, de espaço vazio, de espaço infinito, de partículas que se mexem no espaço.

O livro [de Lucrécio] foi descoberto no século XV num mosteiro alemão. As ideias de Demócrito tiveram muita influência na ciência moderna, são ideias ótimas em cima das quais outros construíram.

O desaparecimento das ideias de Demócrito e outros pensadores gregos não foi acidental.  Quando o Império Romano se cristianizou e o pensamento religioso se tornou dominante, esse trabalho foi tido como incompatível com o pensamento religioso.

Aristóteles e Platão podiam ser adaptados, reinterpretados, mas Demócrito não: era muito materialista, muito racionalista. Foi ativamente suprimido e isso não foi bom para a ciência. 

A razão de haver um grande intervalo entre a ciência antiga e a moderna (não significa que não haja nada – houve coisas no mundo árabe, mas nada comparável com o que aconteceu antes e depois) foi precisamente a dominação de um pensamento religioso.

No Renascimento isto mudou, devido aos portugueses que abriram o mundo e as mentes dos europeus. Houve um ressurgimento das ideias antigas. Um dos meus sonhos é que em alguma expedição arqueológica se descubram livros inteiros de Demócrito. Seria fantástico.

 


Hoje, a ciência enfrenta outros desafios, tais como desmontar ideias falsas como a “Terra plana” e os perigos das vacinas. Perante fatos científicos, há quem responda: “É a tua opinião.”

Carlo Rovelli: A falta de confiança na ciência está crescendo muito nas últimas décadas. Por causa de interesses políticos, porque as pessoas não lhe reconhecem competência como antes… O que é bom e mau: é bom as pessoas sentirem-se capacitadas para pensar pelas suas próprias cabeças, mas daqui resulta também que muitas pessoas patetas pensam coisas patetas e acreditam em outras pessoas patetas.

É ótimo que haja mais informação espalhada, mas temos dificuldade em reconhecer em quem confiar. Há muitos disparates e muita exploração política destes disparates e isso é perigoso, porque não respeitamos a mudança climática, não consultamos médicos, mas sim médicos falsos, que não curam.

Terra plana










No fim de Sete Breves Lições de Física, você afirma que “a nossa espécie não durará muito tempo”. As alterações climáticas “dificilmente nos pouparão”. O ser humano é responsável por isto, ao mesmo tempo que registra a imagem de um buraco negro e a ciência alcança outros feitos impressionantes.

Carlo Rovelli: As duas coisas podem ser verdadeiras. Aprendemos muito em relação ao passado, o progresso é verdadeiro: vivemos melhor do que há mil anos, vivemos melhor do que há 100 anos.

Houve uma altura, no século XIX, em que as pessoas diziam que o progresso é uma lei da natureza, que as coisas melhoram e melhoram. Ora, não há uma lei da natureza para o progresso. O progresso aconteceu, mas não quer dizer que continue. De todo: pode parar agora.

A Idade Média mostrou-o.

Carlo Rovelli: Sim. Grandes civilizações desenvolveram-se e falharam no passado. A nossa civilização pode muito bem entrar em colapso. Os riscos são reais.

Quando escrevi esse livro estava mais pessimista. Alguns anos passaram e hoje mais pessoas veem que nós estamos nos autodestruindo. Estou sendo pessimista? Sim. Penso que as coisas vão necessariamente correr mal? Não.

Num certo sentido escrevi isso para dizer que podemos evitar os desastres, somos inteligentes. Alguns desastres já estão feitos, mas podemos evitar que tudo piore. Cada um de nós não pode salvar o planeta, mas na democracia temos uma voz — podemos votar nos líderes que estão atentos às ameaças.

Há o aquecimento global, a extinção de espécies que está em curso, há muitas coisas que num futuro próximo vão nos afetar violentamente. Espero que os humanos aprendam a trabalhar juntos. Se a lógica for eu primeiro, a minha nação, o meu partido, o meu grupo, a minha classe social primeiro, vamos direto à catástrofe.


Nos anos 1970 envolveu-se nos movimentos estudantis de esquerda antiautoritária em Itália e em rádios livres de teor político. Chegou a ser investigado por editar o livro político Fatti Nostri, publicado na clandestinidade. Transferiu esta rebeldia para a ciência?

Carlo Rovelli: Quando era um homem jovem, era muito rebelde. No fim dos anos 60 e início dos anos 70, uma grande parte da juventude era muito otimista. Achamos que era hora de mudar o mundo de uma forma forte. Isso falhou, de certa forma.

A ciência me atraiu, porque vi a revolução acontecer nela. Podia participar de uma revolução científica, já que não podia participar na revolução política.

Um dos meus melhores amigos dessa época era um pouco mais velho do que eu. Ele voltou de Portugal onde tinha acontecido uma revolução que devolveu aos portugueses a democracia. Participou ativamente nela. Foi um belíssimo exemplo de uma mudança, porque foi para melhor e não foi violenta. Vendo-a da Itália, foi um momento belíssimo.

Penso que muitos cientistas são naturalmente rebeldes. É preciso ser rebelde para ser um cientista criativo. Estudamos, estudamos, estudamos os livros até o ponto em que ao ler um livro se diz: “Não, isto não está certo.” É esse o momento em que alguém se torna um cientista, em que se desafia o conhecimento recebido.

Precisa desse conhecimento, porque a ciência é construída em cima do conhecimento do passado, mas em um certo ponto afirma: “Isto está errado.” Isso é rebeldia, contra o professor, contra um livro.

Os sonhos da minha juventude, de um mundo menos violento, com menos desigualdades, confrontos e guerra são os mesmos sonhos a que a humanidade precisa de regressar. As ideias políticas que estão vencendo vão no sentido oposto: proteger a minha nação das outras, proteger o meu grupo dos outros. Isso é perigoso para todos.

Nas suas páginas alia o que a ciência descobriu e procura descobrir a uma qualidade literária e uma atitude que sublinham um encantamento pela vida. Somos uma parte irrelevante num cosmo enorme, quase inconcebivelmente grande. Mas a vida fascina-o — com a ajuda da ciência.

Carlo Rovelli: É o máximo que sabemos do mundo e é também o máximo que sabemos de nós mesmos. Cometemos um erro quando achamos que somos importantes para o universo, mas também quando achamos que somos irrelevantes para o universo e que, por isso, não há valor [na existência].

O universo não é para nós, não quer saber de nós; se errarmos, seremos varridos da realidade amanhã. Os nossos pretenciosismos são completamente infundados, mas isto não deve implicar que nada interessa, que tudo é o mesmo, que há zero valor. Porque o valor não vem de fora, vem de dentro, de nós. 

Valorizamos a nossa vida, a nossa forma de amar os outros, o nosso sentido de estética, de beleza. Podemos manter isto e o conhecimento científico, não estão em contradição. Aliás, apoiam-se mutuamente: a ciência nos diz porque é que nos importamos com as coisas.

Dizem que a melhor gramática do mundo é a mudança, não a permanência. Pensamos no mundo como sendo feito de coisas, mas, se tivermos em conta a mecânica e a gravidade quânticas, deveríamos pensá-lo como um fluxo permanente de eventos em relação uns com os outros.

Hoje, aprendemos mais. E aprendemos novas formas de pensar sobre o mundo. Aprender mais não significa apenas aprender uma nova equação ou um novo fato. Significa novas formas de juntar as coisas. 

Se não pensarmos o mundo em termos de coisas (um objeto, outro objeto, outro objeto), mas em termos de relações e processos, de coisas que acontecem, aprendemos a pensar melhor sobre o mundo. É isso que, a um nível profundo, a ciência é.