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Como escapar do medo: uma entrevista com a filósofa Martha Nussbaum

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“Esperança é uma escolha e um hábito prático”, afirma Martha Nussbaum no seu novo livro The Monarchy of Fear [A monarquia do medo, em tradução livre]. A obra é um raio-X das emoções nos Estados Unidos de hoje.

Partindo de teoria política, psicanálise, estudos psicológicos e clássicos, a filósofa argumenta que algumas emoções estão sabotando a democracia: o medo, a repulsa e a inveja.

A solução? O que ela chama de "esperança prática", atitudes capazes de nos colocar em contato direto e constante com aquilo que repelimos ou desconhecemos. Para colaborar no aprofundamento destas ações, o conhecimento de religião, artes, educação, estudo de teorias da justiça e muitos outros saberes.

Martha Nussbaum

Chamada de “Filósofa dos sentimentos” pela The New Yorker, Nussbaum está no seu 23º livro. Atualmente, ela é professora de Direito e Ética na Universidade de Chicago. Antes, ela lecionou em Harvard, Brown e Oxford.

Em novembro de 2016, Nussbaum recebeu o Prêmio Kyoto – o equivalente ao Nobel em áreas que não concorrem ao prêmio europeu – e passou a fazer parte da seleta lista de filósofos, que inclui Karl Popper e Jürgen Habermas.

No dia da eleição norte-americana, a pensadora encontrava-se na cerimônia de premiação no Japão. Enquanto ela enfrentava sua ansiedade política longe de casa, Nussbaum refletiu que seu trabalho sobre as emoções “não tinha se aprofundado o bastante”.

Então, ela decidiu mergulhar na questão, escrevendo a obra A monarquia do medo, sem lançamento previsto no Brasil.

Em entrevista, ela fala sobre o livro e discute divisões e falácias lógicas, explicando como podemos deixar de ser parte do problema. Leia abaixo, mas, antes, assista à entrevista exclusiva de Martha Nussbaum ao Fronteiras do Pensamento.


No seu livro, você defende, seguindo a linha de pensamento de Rousseau, que uma criança nasce na monarquia – está desamparada e só pode sobreviver se “escravizar” as pessoas; mas ela evolui e vira um ser humano maduro quando para de ver seus pais como uma extensão de si mesmo e passa a respeitá-los e a retribuir.

Você extrapola isso para a política, sugerindo que a democracia é uma espécie de maturidade política. Mas a simples escala de estados contemporâneos significa inevitavelmente que algumas pessoas se tornarão abstrações para nós, e que ao respeitar algumas pessoas estaremos ignorando ou passando por cima da liberdade de outros?

Martha Nussbaum: Acho que a democracia nunca precisou que todo mundo se conhecesse. Mesmo na Atenas de antigamente, onde havia apenas cerca de 10.000 cidadãos (adultos), isso seria impossível.

O conhecimento pessoal não é uma coisa boa para uma escolha democrática. Por exemplo, você tem direito de excluir pessoas do júri se elas conhecem o réu.

A democracia exige que pensemos que toda vida é valiosa, e também exige um conhecimento da situação das diferentes classe sociais e grupos na sociedade, mas nada disso demanda uma familiaridade pessoal.

É para isso que serve a imaginação, e por isso que defendo há tanto tempo uma forma de educação que nutre tanto o conhecimento imaginativo quanto o histórico. 

A democracia também exige a habilidade socrática de pensar na estrutura de um argumento e em saber distinguir bons argumentos dos maus, de modo que a conversa política se torna uma verdadeira deliberação.

Isso também é transmitido pelas ciências humanas e por toda a estrutura do que nós, nos Estados Unidos, estamos acostumados a chamar de Educação Liberal.

Precisamos dessas habilidades mais do que nunca agora, mas as ciências humanas estão sendo rebaixadas e cortadas, tanto nas universidades quanto nas escolas.

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monarchy of fear nussbaum

Leis não podem ser promulgadas ou mantidas sem o apoio de coração e mente das pessoas, você afirma em A monarquia do medo. Isso significa que um Estado também exige muito trabalho emocional, que não pode ser apenas um projeto racional? 

Martha Nussbaum: Tentemos evitar essa palavra complicada, “racional”. Se quer dizer apenas “baseado em pensamentos”, a maioria das emoções são racionais nesse sentido.

O luto não é uma dor de barriga, envolve o pensamento de perda de algo precioso. Se “racional” significa “baseado em bons (factualmente corretos, que podem ser inferidos como válidos) pensamentos”, bom, daí talvez as emoções não sejam racionais nesse sentido. Mas, muitas de nossas crenças tampouco o são.

Então, vou recolocar a questão: o governo não deveria lidar com formulações abstratas e distantes se quer ser bem-sucedido e resistir.

O Estado deve se comunicar com as fontes mais profundas de sentido e de valor nas pessoas. Invocar estas emoções é essencial para qualquer projeto mais corajoso. 

No meu livro de 2013, Political Emotions, estudo o New Deal, e como Franklin D. Roosevelt fez as pessoas terem compaixão das vítimas do desastre econômico; há vários outros exemplos.

No livro atual, falo da maneira incrível sobre como Martin Luther King conseguiu levar pessoas a amarem e a realizarem trabalhos comuns. Claro que as emoções, assim como qualquer outra coisa na vida, podem ser usadas para o bem e para o mal, e há muitos maus exemplos no livro. 

Você afirma que a arte amplia a compaixão e a compreensão. Mas a arte também não reifica os nossos preconceitos e estereótipos? Por exemplo, você sugere que, em vez de analisarem a pobreza de Joãozinho e Margarida, os contos de fadas são focados em destruir a bruxa que aparece de repente na história.

Mas, isso não é apenas um padrão das narrativas – que o conflito entre vilões concretos e heróis rendem uma história melhor do que uma análise de questões estruturais complexas e mais abstratas? 

Martha Nussbaum: A arte, como as emoções em geral, podem ser usadas para simplificar e distorcer. Mas a arte também tem habilidades incríveis para nos conectar, atravessando divisões.

A arte nos lembra das partes mais profundas de nós que são suprimidas, muitas vezes, pela nossa vida muito ocupada. E não, não acho que a arte precisa de simples heróis e vilões.

Talvez, não seja surpreendente que o meu romancista britânico favorito é Anthony Trollope, que afirmou que não pensava que nenhum ser humano era totalmente bom ou ruim. Nos seus romances, descobrimos que até mesmo os vilões, como a terrível e hilária Sra. Proudie, são magníficas, e chorei quando ela morreu, após ter lutado contra ela por centenas de páginas.

Esse é o tipo de atitude que nos ajudaria na sociedade hoje em dia. Considero Trollope um parente temperamental do meu artista favorito de todos os tempos, Mozart, cuja inteligência delicada e generosa ilumina todos os recônditos dos desejos humanos.

Não interessa o que o autor de libretos deu para que Mozart trabalhasse, ele sempre criava uma complexidade rica e nos ajuda a descobrir em nós mesmos possibilidades de amor que nem sabíamos ter.

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Talvez, porque os humanos caem na armadilha lógica de encontrar bodes expiatórios em outras pessoas – sejam minorias ou líderes – em vez de em sistemas, porque costumamos pensar em termos de histórias (simplistas) ao invés de em ensaios argumentativos? 

Martha Nussbaum: Com certeza. Quando você se sente impotente, você busca controle. Uma narrativa simples de culpa dá às pessoas uma ilusão de controle.

Resolver problemas criados pela automação e pelo avanço tecnológico é difícil. É muito fácil culpar imigrantes. Então, um bom político vai tentar interromper essa reação desprezível, insistindo para que as pessoas pensem melhor.

Dou exemplos disso no meu livro, incluindo a insistência de George W. Bush, após o 11 de setembro, de que os americanos não deveriam demonizar o Islã ou os muçulmanos, mas deveriam localizar os criminosos específicos envolvidos. 

Uma das soluções mais inovadoras que você propõe para conquistar o medo e aprimorar as democracias é a ideia de um serviço nacional que exige que jovens entrem em contato com pessoas de diferentes classes sociais, grupos étnicos e idades para realizar um trabalho construtivo. Por que você acha que isso é necessário e como podemos prevenir ressentimentos ou más experiências? 

Martha Nussbaum: O problema com o qual estou tentando lidar é que as pessoas não se conhecem entre si. Nossos condomínios e nossas escolas são segregadas por classe e raça.

Os jovens crescem sem saber como os outros vivem. Isso dificulta muito a tomada de uma decisão política ponderada.

O retrato que traço é que pessoas veriam diferentes partes do país e diferentes contextos étnicos e culturais como algo familiar, enquanto realizaram trabalho importante como cuidado dos mais velhos e de crianças.

É importante fazer isso enquanto as pessoas são jovens, porque isso afeta a compreensão política delas. E necessita ser uma imersão total, não poucas horas por semana enquanto você mora no seu lugar de sempre.

Claro que seria ótimo se pessoas fizessem esse tipo de trabalho comunitário também, mas não dá os mesmos benefícios de aprendizagem e compreensão. Acho que más experiências fazem parte da aprendizagem, mas o programa precisa ser bem definido, com muito treinamento e conselheiros para lidar com os problemas.  

therapy desire nussbaum

Ao renunciar coisas fora do nosso controle, você diz que o estoicismo também abandona o amor. Você discorda por completo do estoicismo? Há outras escolas filosóficas que considera problemáticas?  

Martha Nussbaum: Escrevi dois livros sobre os estoicos que mostram em detalhes as minhas concordâncias e discordâncias.

Em The Therapy of Desire [A terapia do desejo] e The Upheavals of Thought [A revolta do pensamento], eu os credito com um reflexão profunda acerca do que são emoções – que envolvem comprometimento com bens externos para além do nosso controle.

Chamo a minha própria teoria de emoções de “neo-estoica”. Também concordo com algumas propostas normativas deles, em especial de nos afastarmos de retribuição de raiva, como discuto em Anger and Forgiveness [Raiva e perdão]. Mas, traço um limite no amor. Então não é uma rejeição total.

Gandhi tinha praticamente os mesmos pontos de vista que os estoicos, como Richard Sorabji mostra no seu livro excelente, Gandhi and the Stoics: Modern Experiments on Ancient Values [Gandhi e os estoicos: experimentos modernos em valores antigos], e tenho grande admiração por Gandhi, embora ache que ele tenha ido longe demais em sua rejeição a um apego humano profundo.

Tratando de outro tópico, os estoicos viam um valor grande e igualitário em todos os seres humanos, como enfatizo ao discutir os antecedentes históricos da Abordagem de Capacidades, então claro que isso é algo positivo, pois na visão deles todos temos deveres morais para com as pessoas fora da nossa própria nação. Meu próximo livro, The Cosmopolitan Tradition [A tradição cosmopolita] aborda isso com muito mais detalhes.

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Você faz uma distinção entre esperança ociosa e prática. Como podemos evitar cair na primeira e criar a outra em nossas vidas? Como podemos trabalhar no nosso foco emocional? 

Martha Nussbaum: Concordo que a razão para cultivar a esperança em tempos incertos é o mesmo de Kant: temos um dever de trabalhar para o aprimoramento das sociedades, mas a ação enérgica para servir ao bem público não é possível sem esperança. É claro, então, que precisamos cultivar uma esperança prática, não uma ociosa. 

As estratégias devem ser pessoais e locais, mas sugiro vários instituições que podem ajudar: religião, artes, educação em artes liberais, protestos e o estudo de teorias da justiça.

Chamo isso de “práticas de esperança”. É claro que há boas e más versões disso. Precisamos nos perguntar o que energizará a nossa própria busca pelo bem social e fazer a escolha com base nisso. 

nussbaum


Esse livro fez você mudar de ideia em relação a algo? 

Martha Nussbaum: Escrevi esse livro porque eu já tinha mudado de ideia. Ao ter abordado cada emoção isoladamente no passado, comecei a ver que há um medo subjacente.

Este medo muitas vezes sufoca todas as emoções e explica por que raiva ou inveja podem se tornar tóxicas, politicamente falando. Notei isso ao pensar acerca das minhas próprias reações às eleições de 2016, assim como observando o que ocorria ao meu redor. 

A ideia implícita de A monarquia do medo é que a boa vida envolve amor e esperança, e um gerenciamento astuto do nosso medo irracional, da nossa retribuição de raiva e repulsa. Essa é uma definição justa da sua ideia de uma boa vida? 

Martha Nussbaum: Não acredito em dar definições do que é uma boa vida; cada pessoa precisa descobrir por conta própria qual é a sua, de acordo com sua religião ou outra doutrina.

O que acho que os filósofos têm o direito de fazer é propor um relato dos direitos políticos básicos que todos os cidadãos compartilham, não importa a sua religião ou doutrina compreensiva. Foi isso que tentei fazer no livro. 

Qual é a frase ou lema que mantém você para cima em momentos difíceis? 

Martha Nussbaum: Não tenho muitos lemas, mas posso conjurar algumas árias de Mozart na cabeça para me lembrar da beleza do amor. Seja lá o que estive escutando ou praticando para as minhas aulas de canto recentemente.

Mas, também coisas além de Mozart: o Agnus Dei, da Missa de Requiem de Verdi, por exemplo. Agora, estou aprendendo Henry Purcell, Hark! The Echoing Air, que é deliciosamente boba (“cupidos contentes batem, batem asas”) não é apenas um desafio para a minha dicção, mas também serve como um belo lembrete da hilaridade e do prazer da vida.

(Via IAInews)

Assista abaixo, então, a este belo lembrete da alegria da vida. Em rara gravação, a soprano canadense, Lois Marshall, canta Hark! The Echoing Air, da semi-ópera The Fairy Queen (A rainha das Fadas), de Henry Purcell. The Fairy Queen foi escrita para uma adaptação cênica livremente baseada em Sonho de uma noite de verão de Shakespeare.