Voltar para Entrevistas

Janna Levin: “A ciência é apenas uma parte absolutamente intrínseca à nossa cultura”

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Janna Levin é física teórica e astrônoma norte-americana. Mas, se você espera livros incompreensíveis e falas monótonas sobre questões aparentemente desligadas da sua vida, repense: é hora de conhecer o trabalho de Levin.

Com os olhos voltados para o vasto espaço acima de nós, Janna Levin até pode se debruçar sobre complexas pesquisas sobre buracos negros e ondas gravitacionais no espaço-tempo, mas é na obstinação do homem em desvendar os mistérios do universo que reside sua motivação. É por isso que Levin se tornou uma "astrofísica descolada", como define a Wired na entrevista que você vai conferir logo abaixo.

Janna Levin é uma das conferencistas confirmadas no Fronteiras do Pensamento 2019. Além de Levin, o Fronteiras do Pensamento ainda receberá Denis Mukwege, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry.

- Ingressos esgotados para o Fronteiras Porto Alegre
- Adquira seu pacote de ingressos para São Paulo



A astrofísica e escritora Janna Levin tem dois escritórios principais: um no Barnard College, da Universidade de Columbia, onde leciona, e um espaço no Pioneer Works, um “centro de arte e inovação” no Brooklyn, onde Levin trabalha ao lado de artistas e músicos no papel de diretora de ciência, uma função cada vez mais abrangente.

“A ciência é apenas uma parte absolutamente intrínseca à nossa cultura”, disse Levin, que é anfitriã do Scientific Controversies [Polêmicas Científicas], uma série de debates com clima de festa que atrai multidões de espectadores que assistem às conversas – todos em pé. “Não achamos que isso seja algo diferente”.

Levin vive de acordo com suas crenças. Ela conduziu pesquisas para investigar se o universo é finito ou infinito e escreveu um livro sobre sua vida e esse trabalho (escrito na forma de cartas para sua mãe) no início de sua carreira dentro da Física. Ela também estudou os limites do conhecimento, ideias que acabaram figurando em seu premiado romance sobre os matemáticos Alan Turing e Kurt Gödel.

Seu livro mais recente, Black Hole Blues and Other Songs from Outer Space, é uma crônica da história dramática do experimento LIGO (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser, na sigla em inglês), desde sua concepção sonhadora nos anos 1960 até seu recente sucesso ao detectar ondas gravitacionais – ondulações no espaço-tempo provenientes da longínqua fusão de dois buracos negros.

O New York Times Book Review classificou Levin como uma escritora que “harmoniza a ciência e a vida com memorável virtuosismo”, descrição que poderia ser facilmente aplicada a ela enquanto pessoa.

A Quanta Magazine se encontrou com Levin em seu bar clandestino em uma tarde de terça-feira recente, bem a tempo do happy hour que ela organizou antes de partir para um compromisso na Embaixada Francesa, onde falaria em público. Abaixo, uma versão condensada e editada dessa conversa e de uma subsequente troca de e-mails. 

Como você conseguiu se tornar astrofísica e escritora ao mesmo tempo?

Janna Levin: O que me surpreende mais é que outras pessoas se tornem apenas uma das duas coisas. Todas as crianças são cientistas, todas as crianças são artistas. Todas elas leem. Como é que abdicamos de coisas tão grandes? Para mim, essa é a verdadeira questão. Eu apenas não desisti de nenhuma das duas coisas.

Existe um conflito interior, ou você consegue simplesmente mudar de uma função para a outra?

Janna Levin: Eu não alterno entre as duas funções com muita facilidade. Não consigo escrever pela manhã e, então, fazer cálculos à tarde: definitivamente não é assim que as coisas funcionam.

Se passei o dia inteiro calculando, não consigo nem socializar mais tarde; tenho grandes dificuldades para funcionar em inglês. E se você observar minhas anotações quando estou trabalhando com física, verá que há muito poucas palavras. No geral, só uso muitas palavras quando não sei o que está acontecendo.

Então, é tipo assim: você funciona no modo linguagem e fuça, fuça, fuça até adentrar um espaço totalmente matemático. Daí em diante, são só cálculos – páginas e páginas de cálculos, nenhuma ideia em palavras.

Por fim, você encontra uma resposta que não sabe interpretar de forma adequada e precisa fazer o movimento contrário até ser capaz de expressá-la em inglês outra vez.

Você acha que a linguagem é uma forma de expressão mais precisa que a matemática?

Janna Levin: Sim e não. Não consigo descobrir a carga dentro de um buraco negro com palavras. Mas existem diferentes níveis de compreensão. Eu achava que era mestre em relatividade geral até precisar ensiná-la.

Ao ter que explicar o assunto em voz alta, alcancei um novo nível de compreensão. Um nível aproximado, intuitivo...? Talvez visceral. Talvez mais profundo, em certo sentido. Menos preciso, mas mais profundo?

Vamos falar sobre seu novo livro, Black Hole Blues. Em linhas gerais, ele conta a história de pessoas que constroem uma máquina.

Janna Levin: Eu sei! Meu amigo disse que isso é totalmente pós-moderno!

Quando você começou a escrever sobre o LIGO e a busca por ondas gravitacionais, ainda não estava claro se esse relato teria um final feliz.

Para mim, o aspecto central desse livro se tornou o suspense de não saber isso ao certo. Mesmo em agosto, um dos fundadores do LIGO, Rai Weiss, me dizia coisas como “Talvez seja um fracasso”.

Eu sentia que estava escrevendo sobre um tema universal. De modo que, sim, ao mesmo tempo eu também estava fazendo isso: assumindo o grande risco de escrever um livro sobre um experimento fracassado. Eu amo essa combinação – a tensão que surge quando nos encontramos entre algo grandioso e uma possível tragédia.

Você se interessou pelo LIGO a partir de sua pesquisa sobre buracos negros. Você poderia falar sobre o conceito que está desenvolvendo – a bateria de buraco negro?

Tudo começou de forma bem ingênua. As estrelas de nêutrons têm campos magnéticos gigantescos, que pode chegar a ter uma força milhares de trilhões de vezes superior ao campo magnético da Terra.

Se isso é jogado dentro de um buraco negro, a narrativa padrão diz que o buraco negro seria incapaz de manter o campo magnético, porque isso violaria os teoremas de buraco negro “sem cabelos” – o campo magnético seria um “cabelo”, e o buraco negro precisaria expeli-lo para fora. Foi o que me ensinaram a vida inteira, e de repente me ocorreu que havia algo errado nessa história.

Então, fizemos cálculos em parceria com o pós-doutor Sean McWilliams para analisar uma situação em que a estrela de nêutrons se encontra em órbita, ou seja, em que há um magneto oscilando em torno do buraco negro.

É possível criar eletricidade a partir de um magneto oscilante – se eu tirar aquela luminária da tomada e passar um ímã ao redor de uma das lâmpadas, alguma lâmpada vai acender. Então, pensamos o seguinte: se passarmos um ímã ao redor dela, qual das lâmpadas vai acender? Não sei por que ninguém pensou nisso antes.

Então, quando o LIGO detecta um buraco negro engolindo uma estrela de nêutrons, você acredita que poderá ver um flash de luz decorrente dessa bateria que está perdendo a carga?

Janna Levin: Provavelmente raios X, raios gama, talvez rádio. Nos últimos tempos, temos discutido que tipo de onda veríamos. É um passo difícil, mas acho que provavelmente veríamos as três.

Seu romance de 2006, A Madman Dreams of Turing Machines lida com os conceitos do infinito, da verdade e dos limites do conhecimento – temas que você também explorou em suas pesquisas em cosmologia, ao debater se o universo é finito ou infinito. Você conta essa estória através de um relato ficcional das vidas e das mortes terríveis de Alan Turing e Kurt Gödel. Você poderia dizer o que o trabalho deles revelou sobre a natureza da verdade?

Janna Levin: O teorema de Gödel afirma que há fatos que são verdadeiros, mas que jamais poderão ser provados como tal. Há fatos em meio aos números que jamais saberemos ao certo se são verdadeiros ou falsos.

Quando Gödel mostrou isso – para não falarmos de quando Turing apareceu e mostrou que jamais saberemos nada sobre a maioria dos fatos em meio aos números –, foi muito chocante. Isso significa que não há uma “teoria de tudo” na matemática. O baque foi imenso.

Gostei da ideia de aplicar o teorema de Gödel a uma narrativa ficcional em que conto uma história verdadeira, muito embora eu não o faça meramente citando informações factuais.

Há uma sensação de verdade nas estórias ficcionais que talvez constituam, de certo modo, uma experiência mais visceral da história. Talvez, seja uma sensação mais lúcida, capaz de fornecer um panorama muito mais amplo do que uma simples listagem de fatos biográficos.

Além disso, sinto que a ciência faz parte da cultura, o que motiva minha conexão com a Pioneer Works. Por que não posso escrever um romance sobre ciência? É possível escrever sobre violência doméstica. É possível escrever um romance sobre a indústria naval de Boston. Por que não posso escrever um romance sobre matemáticos? É apenas uma parte natural da cultura.

Tendo em vista que, em sua carreira como física, você pensou muito profundamente no teorema de Gödel, você acha que a ausência de uma teoria de tudo na matemática sugere que, talvez, tampouco seja viável uma teoria de tudo na física?

Janna Levin: Penso muito nisso. Se a física é tão arraigada na matemática, por que deveríamos pensar que surgirá uma teoria física de tudo? O modo como costumamos pensar sobre o Big Bang é: o universo nasceu, e nasceu com dados iniciais. Existem leis da física, e de algum modo os dados iniciais são apenas... diferentes.

Somos muito desonestos quando falamos da origem desses dados. E se as leis da física que descrevem a origem do universo forem uma dessas leis que precisam validar a si mesmas – um dos clássicos emaranhados autorreferentes delineados por Gödelian? [Um emaranhado gödeliano é uma proposição matemática autorreferente e impossível de ser provada, como, por exemplo, “É impossível provar esta proposição”.] E se as leis da física precisam validar a si mesmas de tal modo que elas próprias se tornam de alguma forma incomputáveis?

Também sou super interessada na ideia de que os dados iniciais do universo possam conter números irracionais ou incomputáveis. Nesse caso, o universo jamais terminaria de computar as consequências de suas condições iniciais. Talvez não sejamos capazes de prever o que acontecerá no futuro porque cada dígito dos dados iniciais equivale a jogar uma moeda.

Mas isso não é o suficiente se eu não tiver nada além de palavras, e nunca encontrei um modo de escrever sobre matemática. Por isso, é só conversa fiada. Acho que uma coisa inteligente a se fazer seria olhar para um emaranhado gödeliano existente dentro da matemática e tentar mapeá-lo em leis fictícias da física. Assim, teríamos um universo capaz de abrigar um emaranhado gödeliano. Seria um experimento construtivo.

Você pretende tentar fazer isso?

Janna Levin: Sim, é algo que sempre volta à tona. Nos últimos tempos, voltei a conversar com uma pessoa sobre um Big Bang autorreferente. Na verdade, venho tomando notas a respeito disso. Essas notas ajudam a esclarecer o que sabemos, o que compreendemos, e o que não compreendemos de fato.

(Reportagem original reimpressa com a autorização da Quanta Magazine. Via Wired)