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Contra ditadura de Angola, José Eduardo Agualusa recorre a sonhos

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José Eduardo Agualusa estará no Fronteiras Porto Alegre 2018
José Eduardo Agualusa estará no Fronteiras Porto Alegre 2018

José Eduardo Agualusa diz ter escolhido sonhar por quem se resignou a apenas sobreviver. Ao contrário da maior parte de sua geração – que critica em seu livro mais recente, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários – o escritor angolano não desistiu de lutar pela abertura política do país, mergulhado em uma ditadura desde 1979.

"Com o tempo, as gerações mais antigas acabaram se conformando com a realidade do país, ou até pior, se corrompendo. Os regimes totalitários fazem isso, destroem a alma das pessoas", explicou em visita ao Brasil, em 2017.

A crítica política e social é um tema recorrente no trabalho do autor, que já publicou 14 romances. Além de seu livro mais recente, O Vendedor de Passados (2004) e Estação das Chuvas (1996) também fazem críticas ferozes à realidade de Angola.

Com o hábito de sempre anotar seus sonhos em um diário, o autor já conseguiu frases, personagens e até enredos de romances. Alguns – como uma história sobre o ramo automobilístico nos EUA – ele deixa para lá. Outros se tornam livros ou partes importantes deles. "Todos os sonhos do livro são meus. Posso dizer que sou um sonhador voluntário".

Agualusa detalha o processo de criação do romance, produzido ao longo de seis anos. Na sátira política, quatro personagens lidam com seus sonhos e tentam reagir às condições de desmoronamento de um país sob o totalitarismo.

O livro se inspira no caso de perseguição política que ficou conhecido como 15+2, ocorrido em Angola, em 2015. Na ocasião, 15 jovens ativistas foram presos acusados de planejar uma rebelião contra o presidente da República. O grupo se reunira para discutir formas pacíficas de protesto e ler um livro sobre como acabar com ditaduras.

>> Assista ao Roda Viva com José Eduardo Agualusa

Entre esses presos políticos estava o rapper luso-angolano Luaty Beirão, que fez greve de fome por 36 dias para protestar contra a sua prisão e a dos colegas. Em alusão ao caso, os personagens ativistas da obra de Agualusa fazem greve de fome para mostrar que "é possível resistir sem fazer tiros".

Perguntado sobre o destino de Angola, com a piora no estado de saúde do presidente José Eduardo dos Santos, o escritor disse ver uma fresta de luz em uma janela que esteve fechada por muito tempo.

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"Temos que esperar para ver se os partidos de oposição vão conseguir se unir para abrir totalmente essa janela".

Santos deve abandonar o cargo de presidente depois das próximas eleições, em agosto, e se tornar presidente emérito. A expectativa é que vença o candidato da situação, João Lourenço.

Sem planos concretos para um novo romance, Agualusa coleciona ideias e quer começar a produzir até outubro. Enquanto isso, seus títulos antigos serão reagrupados no Brasil pelo selo Tusquets, da editora Planeta.

(Via Folha de S.Paulo)

José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, é pioneiro em um tipo de ativismo inovador, que revela a tragédia de seu país: o ativismo pelo sonho.

Em uma realidade dilacerada por uma ditadura de décadas, em que o otimismo é o último recurso para prosseguir, as pessoas precisam voltar a sonhar, defende o escritor, mundialmente conhecido por reunir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais ora celebram a capacidade humana de inventar universo.

José Eduardo Agualusa é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento. Garanta sua presença em Porto Alegre ou Salvador. Acesse o libreto especial do conferencista.