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Em entrevista, Kwame Anthony Appiah fala sobre valores, tolerância e direitos humanos

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Kwame Anthony Appiah é um produto dos temas que estuda. Nascido na Inglaterra, passou a infância em Gana e hoje vive nos Estados Unidos. Filho de pai ganense e mãe inglesa, sua família inclui ainda indianos, libaneses,
franceses e quenianos, numa comunidade de culturas e idiomas que o inspirou na elaboração do conceito de Cosmopolitismo, que apresentará em sua conferência. Ao Caderno Cultura/ZH, ele concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

Zero Hora: Desde os anos 1960, tem havido muita pesquisa acadêmica sobre a representação da África na cultura. De que maneira esse conhecimento ultrapassou os muros das universidades e influenciou efetivamente o imaginário que o Ocidente tem a respeito da África?
Kwame Anthony Appiah:
Houve grandes mudanças na atitude do público em muitos lugares da Europa e da América do Norte, em parte como resultado do trabalho de artistas e intelectuais-escritores africanos como (Chinua) Achebe, (Nagib) Mahfouz, (Nadine) Gordimer ou (Wole) Soyinka, por exemplo, e em parte porque trabalhos acadêmicos já viajaram para fora da academia de muitas maneiras.

Houve programas de sucesso na BBC da Grã-Bretanha e aqui nos EUA por Henry Louis Gates Jr. que lidam com a cultura africana e afro-americana para uma audiência popular, e a enciclopédia que ele e eu fizemos juntos, Enciclopédia Africana, acabou absorvida pela enciclopédia Encarta da Microsoft. Exposições de arte também tiveram um impacto significativo, como as mostras África: a arte de um continente, da Royal Academy, no Guggenheim, e Africa remix, que foi exibida pela primeira vez no Kunst Palast, em Düsseldorf, na Alemanha, em 2004, e, em seguida, viajou para a Hayward Gallery, em Londres; para o Centro Pompidou, em Paris; para o Museu de Arte Mori, em Tóquio e para o Moderna Museet, em Estocolmo, terminando em Johanesburgo. Assim, também há hoje africanistas trabalhando em instituições importantes em muitos lugares: o Museu Afro Brasil em São Paulo é um exemplo brasileiro dessa tendência.

Claro, ainda há uma tendência, apesar destes esforços, a homogeneizar a África, a não distinguir entre, digamos, democracias em que os direitos humanos são levados relativamente a sério – como Gana e África do Sul – e lugares como a República Centro-Africana, em que o Estado não respeita nem protege os direitos humanos; ou a não diferenciar nações em crescimento, como Gana, que está entre as 10 economias que cresceram mais rapidamente no mundo, do Zimbábue (onde a moeda entrou em colapso e o Ministro das Finanças anunciou, em janeiro deste ano, que o governo tinha pouco mais de US$ 200 em suas contas.). Portanto, há trabalho a ser feito para aumentar a compreensão pública fora da África, e, é claro, para melhorar o governo e desenvolver as economias.

ZH: O senhor lançou um livro sobre a questão da honra na evolução moral do pensamento. Como devemos entender a ética: como um conceito atemporal ou como um conceito continuamente em transformação, sujeito à história e à geografia?
Appiah:
Meu ponto de vista é que a ética, como estudo do que é o bem viver para os seres humanos, tem muitos componentes universais e alguns locais. A amizade sempre foi valiosa para o ser humano, por exemplo, bem como uma fonte confiável de comida e água e o respeito dos outros em sua sociedade. Mas o que é importante nas artes e na cultura depende do que está acontecendo na arte e na cultura; e isso é moldado pelo tempo e pelo espaço. Acredito que cada pessoa e cada comunidade tem o direito de dar forma a ideias de uma "boa vida" coerentes com os valores universais, perseguindo objetivos que estabeleceram para si próprias.

À medida que mantivermos diálogos globais sobre essas questões, aprenderemos uns com os outros, aprofundando nossa compreensão compartilhada do universal e conhecendo e respeitando aquelas variações locais que são legítimas. Mas não acho, por exemplo, que é legítimo haver desigualdade de gênero ou privar gays e lésbicas de uma vida em que sua sexualidade tenha uma expressão legítima. Claro, a maioria das sociedades fez coisas erradas no passado e nenhuma esteve completamente certa, então há muito a ser feito em toda parte. A atitude dos países do Atlântico Norte no século 19 com relação a mulheres e a homossexuais estava errada, mesmo que houvesse amplo consenso sobre o assunto. Assim, o relativismo sobre essas questões me parece simplesmente errado.

ZH: O senhor escreveu um artigo no Huffington Post no qual reafirma a necessidade de tolerância com o diferente, mas adverte, também, que há direitos básicos que não devem ser relativizados. Quais são estes valores, e como praticar a tolerância mesmo com aqueles que discordam deles?
Appiah:
Não há necessidade de punir as pessoas por ter pensamentos errados sobre direitos humanos. Mas é preciso interromper a violação real desses direitos. Podemos estabelecer um diálogo respeitoso com as pessoas que não respeitam os direitos humanos, se elas quiserem dialogar. Mas isso não significa que não possamos tentar detê-las quando ofendem esses valores universais. Claro que, quando tentamos intervir, mesmo por uma boa causa, podemos piorar as coisas ao invés de melhorar: tal intervenção tem que ser inteligente e limitada àquilo que vai realmente fazer avançar os direitos humanos.

Quais são os valores universais? Há duas respostas. Uma delas é mais filosófica, que incide sobre a questão ética central de o que é preciso para que os seres humanos se desenvolvam e vivam bem. Devemos tentar assegurar esses benefícios para todos: alimentação, respeito, liberdade de reunião, privacidade sexual, participação política em termos de igualdade, são vários. Mas há diferentes arranjos sociais que podem assegurar esses benefícios: as famílias não têm que ser organizadas de uma única maneira, por exemplo. E você pode ser bem alimentado com a culinária brasileira ou francesa... embora eu não esteja tão certo disso quanto à cozinha britânica! Outro tipo de resposta é legal: acordos internacionais, tratados da ONU e convenções de direitos humanos definem, em conjunto, um quadro com o qual todas as nações do mundo deveriam a esta altura estar comprometidas. Se alguém considera que há nesses acordos alguns direitos que não deveriam estar ali, deve se dirigir aos fóruns apropriados: a ONU, a Corte Penal Internacional, os legisladores locais e assim por diante.

ZH: Em seu ensaio O que é a África?, Patrick Chabal escreveu que "sem alguma forma de responsabilização política mutuamente aceitável, a comunidade política não pode sobreviver por muito tempo sem recorrer à força ou à violência." Como construir esta estrutura política que poderia sustentar a comunidade política?
Appiah:
Chabal está certo. E acho que você só tem que olhar para o desenvolvimento da democracia em Gana nos últimos anos para ver que este processo pode avançar, pois sem dúvida já está em curso. E só é preciso olhar para Angola ou Guiné Equatorial ou Gabão ou Zimbábue para ver que há um longo caminho a percorrer.

(Entrevista original na Zero Hora)