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Enrique Peñalosa: cultura é o grande passo em direção à felicidade

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“Uma vez superado o que é materialmente necessário para a sobrevivência, o grande passo em direção à felicidade poderia ser definido como cultura." Enrique Peñalosa, urbanista e economista

Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano de Florianópolis, o arquiteto Dalmo Vieira Filho entrevistou o urbanista colombiano e ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, quando no Brasil para participar do Fronteiras do Pensamento Florianópolis 2013. Leia abaixo a entrevista originalmente publicada no Diário Catarinense:

DC: Como você definiria uma cidade do século 21?
Enrique Peñalosa: Ao contrário do que poderia se supor inicialmente, a cidade do futuro não será parecida com a cidade dos Jetsons (seriado animado). Será uma cidade mais humana, onde caminhar seja um grande prazer, por sua maravilhosa infraestrutura para pedestres. Será uma cidade especialmente protetora dos cidadãos mais vulneráveis como as crianças, idosos e aqueles se movem com cadeiras de rodas. Imagino uma cidade em que, por exemplo, metade das ruas seja exclusivamente para pedestres e ciclistas, isto é, que seja cortada em todas as direções por centenas de quilômetros de parques lineares e autoestradas para bicicletas.

DC: Haveria um tipo específico da atual cidade da América Latina?
Peñalosa:
Possivelmente pensava-se que a cultura latino-americana seria mais ibérica, mais pedestre, mas acontece que assim como nas cidades norte-americanas os centros comerciais (shoppings) estão se multiplicando como cogumelos. Parece que o lugar atraente para se viver é ao lado de um shopping, perto de uma autoestrada. Acho que há muito mais semelhanças do que diferenças entre as cidades. Agora, existem algumas diferenças. Por exemplo, na América Latina o clima geralmente é benigno: não há invernos muito fortes, como há em Moscou. Então é mais fácil aproveitar o espaço público para pedestres, caminhar mais, andar de bicicleta.

DC: Que prioridades você daria aos gestores de pequenas, médias e grandes empresas em países como Brasil e Colômbia?
Peñalosa:
No passado, o que gerou riqueza nas sociedades foi a terra; posteriormente, o capital. Hoje, o fator mais importante são as pessoas especialmente qualificadas e criativas. E essas pessoas mais bem equipadas, os melhores especialistas em seu campo profissional e técnico, são precisamente aqueles que podem escolher onde viver. Especialmente para as pequenas e médias cidades, o principal obstáculo para o desenvolvimento econômico é que seus melhores jovens vão embora em busca de oportunidades. Para compensar as oportunidades oferecidas pelas grandes cidades ou os países mais desenvolvidos, deve oferecer uma qualidade de vida excepcional.

DC: Como você definiria o salto qualitativo em Bogotá?
Peñalosa:
Bogotá está longe de ser uma cidade exemplar. No entanto, acho que avançou em sua visão do que deve ser. Há 20 anos, era uma cidade quase totalmente desprovida de autoestima e até mesmo de esperança. Conseguimos que os cidadãos se entusiasmassem com o que é possível fazer com a sua cidade. Por exemplo, hoje exigem que as escolas tenham uma grande qualidade arquitetônica; eles têm consciência sobre a importância das áreas para pedestres, calçadas, ciclo vias, parques. Também aceitam que os ônibus devem ter prioridade.

DC: Em sua análise, como está considerando o papel da cultura nas cidades contemporâneas?
Peñalosa:
A cultura é necessária para o bem-estar e a felicidade: filmes, música, leitura, conhecimentos de astronomia ou de culinária sofisticada. Tudo o que nos motiva em torno do conhecimento e da arte, da criação. Ela nos permite ter um olhar crítico sobre a sociedade, conceber melhores formas de viver e cumprir as normas de convivência. Uma vez superado o que é materialmente necessário para a sobrevivência, o grande passo em direção à felicidade poderia ser definido como cultura