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Denis Mukwege: passos fundamentais para barrar a violência contra a mulher

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25 de novembro marca o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Na data, inicia-se a campanha global “16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”.

O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres no mundo, segundo informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Por aqui, o Governo acaba de lançar a campanha #vctemvoz, que tem como objetivo incentivar as denúncias dos crimes. A iniciativa traz, como frase-chave, "A sua voz deve ser maior do que o medo. Use a sua, denuncie e ligue 180".

A campanha #vctemvoz toca no ponto central da violência contra a mulher: o silêncio frente aos crimes.

Quem define o silêncio como o principal aliado desta questão é o Nobel da Paz, Dr. Denis Mukwege, que dedica sua vida à dignidade e à proteção destas vítimas em seu país, a República Democrática do Congo.

Em entrevista exclusiva à Braskem, que compartilhamos aqui, Mukwege explica que o silêncio leva à impunidade dos criminosos e ao aumento da tragédia humana. É aqui, de fato, que precisamos atuar.

>> Clique aqui para conhecer e compartilhar a campanha brasileira, #vctemvoz



Médico ginecologista, Denis Mukwege é considerado o maior especialista do mundo em reparação interna de genitais femininos. Em seu país, a República Democrática do Congo, o médico coordena programas de HIV/Aids e criou o Hospital de Panzi, onde já tratou mais de 30 mil mulheres e meninas vítimas de estupro e violência sexual.

Por uma vida dedicada à saúde, dignidade e proteção das mulheres, em 2008, recebeu o Prêmio Olof Palme e o Prêmio Direitos Humanos das Nações Unidas. Em 2014, o médico recebeu um dos mais importantes prêmios do mundo, o Sakharov.

Em 2018, veio a premiação do Nobel da Paz, ao lado da ativista Nadia Murad, que sobreviveu à escravidão sexual imposta por integrantes do Estado Islâmico no Iraque.    

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Braskem entrevista Denis Mukwege: passos fundamentais para barrar a violência contra a mulher

O que iniciativas, como o Hospital de Panzi, um oásis no meio da realidade do Congo, podem ensinar para outros países?

Denis Mukwege: O problema que temos hoje, no mundo, é que as violências sexuais estão por toda a parte. Viajando para vários países, por todos os continentes, ao falar com as vítimas, notamos que eles possuem a mesma linguagem. O sofrimento é o mesmo. O sofrimento não tem fronteiras.

Por isso, penso que o modelo que adotamos em Panzi, que consiste em considerar que os cuidados centrados na vítima são muito, muito importantes para a cura total. Os cuidados devem ser holísticos e é a vítima a responsável por escolher os cuidados que estima prioritários. Contudo, é preciso sempre mostrar à vítima toda a gama de cuidados para que ela saiba do que pode usufruir.

Em muitos países, há uma falta de integração dos cuidados, desse modo holístico, como um "one stop center" [centro de parada única], onde a vítima possa contar sua história de uma só vez, sem a necessidade de recontá-la múltiplas vezes.

O senhor declara que não adianta existir legislação e indenizações, se não há punição efetiva dos culpados pelos crimes contra as mulheres. Onde a sociedade pode melhorar nesta questão?

Denis Mukwege: Podemos ver que a impunidade é generalizada e isso é uma perda, já que os crimes sexuais se beneficiam primeiramente do silêncio da comunidade.

As vítimas têm vergonha e medo de falar no assunto, porque, quando falam daquilo que aconteceu, acabam sendo vitimizadas pela segunda vez. Esta é a primeira barreira.

A segunda barreira é o sistema judiciário vigente, que não é suficientemente acolhedor para as vítimas de violência sexual. Portanto, o conjunto destes processos faz com que a justiça não seja feita.

Não existe possibilidade de reparação às vítimas, pois a justiça, a reparação e a compensação são parte do processo de cura destas mulheres.


Como o senhor avalia o engajamento e o trabalho de organizações internacionais em campanhas pela integridade feminina e contra a violência à mulher?

Denis Mukwege: Hoje, existem muitas organizações comprometidas com esta questão. Isso é muito positivo, mas ainda temos muito a fazer tanto nos países em paz, quanto nas nações em conflito. Aquilo que vemos nos países em conflito se constata de modo latente nos países em paz. Quando o conflito começa, não há mais lei, não há mais esperança.

A violência que estava latente se torna evidente. Por isso, as organizações que trabalham com este problema em períodos de paz deveriam fazer a prevenção daquilo que pode acontecer em períodos de conflito. É preciso encorajar estas iniciativas para que façam ainda mais.

O estupro ataca diretamente a identidade da mulher. Como é o trabalho da sua equipe no atendimento das mulheres com relação à identidade?

Denis Mukwege: A violência sexual é a mais temível das armas, porque destrói o corpo e o espírito do ser humano. Afeta o aspecto psicológico da vítima. O fato de associar o estupro à humilhação, à perda de dignidade, leva frequentemente a uma dissociação e as vítimas perdem suas identidades.

O trabalho que fazemos consiste em reintegrar estas esferas, permitir que a pessoa reencontre sua identidade para que ela seja capaz de enfrentar as adversidades das atrocidades que ocorreram. É a única maneira de ajudá-las.

Se você não reintegrar corpo e espírito para que a pessoa reencontre sua identidade e um sentido para seguir lutando, todos os tratamentos serão em vão. Portanto, a saúde mental é chave no processo de cura das vítimas.

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Lutar pela igualdade de gêneros passa longe de ser uma ideologia contemporânea: é um passo fundamental para estruturar o mundo que está nascendo. No palco do Fronteiras, o Nobel da Paz Denis Mukwege explica o papel das mulheres no futuro de todos e faz apelo aos homens para que se unam a elas.