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Entrevista Ferreira Gullar: 85 anos de poesia

Ferreira Gullar (foto: Fábio Motta/Estadão conteúdo)
Ferreira Gullar (foto: Fábio Motta/Estadão conteúdo)

A poesia persegue Ferreira Gullar e não o contrário. “Posso passar anos sem criar um verso, pois necessito do espanto que ela me provoca para então escrever", conta o poeta, que completa 85 anos hoje, dia 10 de setembro.

A criação literária é apenas um dos temas tratados em sua mais recente obra, Autobiografia poética e outros ensaios. O livro, que reúne um ensaio inédito, entrevistas e artigos sobre poesia, é seu primeiro pela editora Autêntica, que lança, ainda este ano, uma nova edição de O formigueiro (1955), em parceria com a Academia Brasileira de Letras (ABL), e prepara para 2016 uma coletânea de textos do poeta sobre artes plásticas.

Os 85 anos do poeta não são empecilho para uma agenda lotada. Conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo no dia 30 de setembro, Gullar é um dos destaques da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, participando do café literário Ferreira Gullar: poesia e prosa, no domingo, 13 de setembro, às 15h.

Em entrevista ao jornal O Globo, Ferreira Gullar fala sobre sua obra e a importância da poesia em sua vida e na vida das pessoas: "O acaso é decisivo não só na vida pessoal, mas também na arte. Quando vou escrever um poema, a folha surge em branco, ainda não sei o que vai surgir ali. Qualquer coisa pode acontecer, a probabilidade é total porque a página está em branco." Leia abaixo:

Como foi refletir sobre a sua história de poeta?
Ferreira Gullar: Jamais imaginei que me tornaria um poeta. Eu era um moleque de rua. Vivia jogando pelada, em São Luís, na rua. Jamais pensei porque na minha casa ninguém era poeta nem tinha livro de poesia. Acredito que as pessoas nascem com determinadas qualidades. O cara nasce com a tendência de ser um bom administrador. Assim como outro nasce jogador de futebol, pois traz internamente algumas qualidades que o tornam isso. Há também quem tenha tendência para ser ladrão, independentemente de ser rico ou pobre – a Operação Lava Jato não me deixa mentir.

Esse DNA parece estar mais presente em você. Se pudesse viver só de poesia, faria isso?
Ferreira Gullar: Não. A poesia é algo incontrolável. Se alguém vive de poesia, ou morre de fome ou começa a escrever bobagens porque não é fácil assim. A poesia, como vejo, nasce do espanto, de alguma coisa que surpreende e que você tem necessidade de comunicar aos outros. É uma experiência de vida especial, não acontece todo dia. Isso é o que move o poeta a escrever. Sem isso, é possível até manusear bem as palavras, mas o poema fica vazio. É meu caso. Outro dia, disseram que eu garanti que não mais escreveria poesia. Nunca fiz isso. Algumas vezes, a poesia se arrancou, se negou a comparecer e fiquei perplexo, mas reconheci que parecia que não mais escreveria. Publiquei meu último livro há vários anos (Em Alguma Parte Alguma, de 2010), o que me deu a impressão de que não vou escrever mais. Claro que não é bom. Não é escolha minha. Mas as coisas não são eternas e, como isso não se controla, não digo que farei de qualquer jeito, ou que não vou fazer. Só constato que faz tempo que não faço.

É admirável seu rigor com a palavra. Como conjuga a emoção de fazer o poema e ele comover ao mesmo tempo?
Ferreira Gullar: Acredito que, se me comovo, outros também vão se comover. Passo no poema a emoção que tive. Às vezes, a situação é mais complicada e o poema saía menos acessível, dependendo do motivo que me levou a escrever. Minha preocupação é chegar a dizer aquilo que foi novo na vida, que experimentei ali, e encontrar a melhor maneira de expressar.

O acaso é decisivo não só na vida pessoal, mas também na arte. Quando vou escrever um poema, a folha surge em branco, ainda não sei o que vai surgir ali. Qualquer coisa pode acontecer, a probabilidade é total porque a página está em branco. Quando coloco a primeira palavra, reduz a probabilidade, agora já não é o acaso. Quando se escreve o primeiro, o segundo verso, aí o poema vai deixando de ser fruto da probabilidade e do acaso e vai se tornando necessário. Ele próprio começa a determinar o que entra ali ou não. Você não sabe o que vai resultar daquilo. É um jogo entre acaso e necessidade.

Cada poeta tem seu modo de se expressar. Com isso, aumenta a segurança de se expressar. E, com a experiência, é possível se tornar mais capaz de expressar o que se deseja.

Seu momento de vida é sempre importante na sua criação. Poema Sujo nasceu durante uma fase muito difícil de sua vida, de quase desespero – seria uma catarse?
Ferreira Gullar: Há quem acredite que os poetas sofrem muito para escrever. Não é verdade – no momento da escrita, surge uma felicidade. Escrever é uma alquimia, pois transformo sofrimento em alegria, em beleza, em emoção que o outro vai sentir. No Poema Sujo, eu realmente vivia um impasse, pois não sabia o que ia acontecer comigo. Eu já tinha saído da ditadura chilena e, na Argentina, preparavam outro golpe. Não tinha para onde ir porque em volta só havia ditaduras e, como meu passaporte estava vencido, não conseguia ir para a Europa. Tentei renovar na embaixada brasileira, mas me foi negado e ainda cancelaram o que eu tinha. Então, escrevi o Poema Sujo como se fosse a última coisa da minha vida, daí essa relação de emoções: eu estava no limite. Isso ninguém inventa. Eu preferia não ter vivido daquela forma, mas a vida é incontrolável. A situação era insuportável, mas o fato de eu ser capaz de expressar aquele impasse me ajudava. O pior é aquele que não consegue se expressar.

Como é sua relação hoje com Poema Sujo?
Ferreira Gullar: Não releio, mas essa Autobiografia Poética foi o caminho que encontrei para voltar àqueles momentos, desde quando publiquei A Luta Corporal, em 1954, quando descobri a poesia moderna, até Poema Sujo e outros poemas. Eu queria reviver aqueles momentos sem o sofrimento daquela época, sem um general na esquina para me fuzilar.

O Poema Sujo ainda é capaz de chocar as pessoas?
Ferreira Gullar: Acho que emociona. Claudia (Ahimsa, sua companheira, que conheceu em 1994) soube que foi criada uma banda de rock chamada Poema Sujo. Isso é legal, pois expressa a vida e beleza dentro do sofrimento. Cada qual tem suas perdas. Então, quando a pessoa se defronta com um poema que a comove é como se ela estivesse vivendo isso. É o melhor da literatura: compartilhar com o autor o sofrimento, mas de forma sensorial. É a tal alquimia: transformar sofrimento em alegria estética.

Como surgiu o título do Poema Sujo? Até parece uma contradição...
Ferreira Gullar: Nasceu de imediato, praticamente junto com o poema. Às vezes, escrevo um poema e não sei o título. No caso do Poema Sujo, eu não só tinha o título como sabia que teria de 70 a 100 páginas. Escolhi esse título porque sabia que ia falar de assuntos sofridos, de pobreza, que foi minha experiência de vida. Ele é sujo ao mesmo tempo que é poesia e tenta superar o sujo da vida, trazendo impregnada essa experiência. Eu não aceitava estar longe do Brasil, havia pessoas dispostas a passar anos na Europa, mas não era o meu caso – eu queria voltar a todo custo. Assim que pude, voltei, mesmo correndo riscos. Aí entra o Poema Sujo, que foi trazido ao Brasil pelo Vinicius de Moraes. A publicação me deu uma notoriedade que, praticamente, impedia qualquer ação dos militares contra mim. Quando cheguei ao aeroporto do Rio, havia uma ordem de prisão para José de Ribamar Ferreira, mas havia uma multidão me esperando e não puderam fazer nada. Ou melhor: me prenderam no dia seguinte, mas logo fui solto.

Como a poesia ocupa hoje a vida das pessoas?
Ferreira Gullar: Dizem que a arte revela a vida. Penso o contrário: a arte inventa a vida. Hamlet só existe na peça de Shakespeare. E existe porque, quando leio, ele renasce, alguma coisa é acrescentada. A Noite Estrelada, de Van Gogh, é uma noite a mais que ele acrescentou às milhares de noites que existem no universo. A poesia não é cotidiana, como assistir à televisão. Rubem Fonseca me disse, certa vez, que lemos um romance e esquecemos, enquanto a poesia sempre volta. Ninguém precisa ficar lendo a poesia todo dia. Mas, quando releio Elliot, Rilke, Drummond, me parece que estou lendo pela primeira vez, com prazer da descoberta.