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Entrevista (com o já nem tão macabro) Ian McEwan: livros para conhecer as identidades dentro de nós

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Todos nós começamos nossas carreiras com determinadas ideias e vivências. Ao longo da vida, o amadurecimento nos modifica, é claro.

Como fica essa transformação para quem gravou a identidade em algo tão sólido quanto um livro? Como um autor pode se desvencilhar de estigmas criados no início da trajetória profissional?

Ian McEwan tem muito a nos falar sobre isso. O autor britânico é um grande exemplo sobre a inseparável relação entre a vida e a obra de um escritor.

Enquanto o jovem McEwan descobriu sua independência nos anos 1970, e isso claramente se refletiu em seus livros, o maduro McEwan exigiu espaço para se transformar. Com isso, seria preciso dar adeus à primeira fase do escritor e conhecer suas novas perspectivas sobre o mundo.

A trajetória literária de Ian McEwan é dividida em duas fases gerais: a primeira foi marcada por romances perturbadores, na linha de O jardim de cimento, que valeu ao autor a conhecida alcunha de “Ian Macabro".

Porém, de alguns anos para cá, surgiu um Ian McEwan menos adepto do funéreo e menos inclinado ao pessimismo.

Ele tem se dedicado a recriar o mundo moderno em toda a sua complexidade, chegando a concluir narrativas com finais felizes – o que surpreendeu muitos leitores.

Por que essa transformação? Quem mudou: obra ou autor?

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Ninguém melhor do que o próprio McEwan para nos responder esta grande questão, que inevitavelmente recai sobre a relação entre o autor e sua obra.

É exatamente isso que ele faz no artigo Quando eu era um monstro, publicado no The Guardian. No texto, ele revisita sua história e nos conta como sua vida - e os anos 1970 - foram influenciando seu trabalho.

Ele também fala sobre esta relação em um de seus vídeos mais assistidos do fronteiras.com, É difícil escapar de si mesmo.

Ainda, é o que ele explica nesta entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento.

Assista ao vídeo É difícil escapar de si mesmo logo abaixo e prossiga, lendo esta entrevista até então inédita no nosso site.


Fronteiras do Pensamento: Por que tão macabro na fase inicial? Ser macabro era um propósito ou uma atmosfera que surgia da sua vida?

Ian McEwan:
Todos os assuntos chocantes que usei nos meus livros fazem parte da experiência humana. Eles pertencem às nossas vidas públicas, políticas e privadas, todos os dias lemos nos jornais sobre um ou outro assunto chocante.

A ficção simplesmente representa isso. Claro, quando comecei a escrever, meu material era muito sombrio e as pessoas me acusavam de escrever unicamente para chocar.

Eu sempre neguei, mas acho que havia alguma verdade nisso. Quando você chega e tem 24 anos, você quer dizer “estou aqui”.

Eu queria pintar o mundo com cores selvagens. Não queria que a minha ficção fosse muito gentil. E, sim, havia um elemento de projetar as coisas mais obscuras que vinham dos meus pensamentos como forma de me apresentar.

Olhando para trás, era um bocado vulgar. Somos muitas pessoas, muitas identidades. A diferença entre ser um pai ou alguém no palco falando para a plateia ou o que estamos fazendo agora.

Temos múltiplos papéis, como amantes, parentes ou a pessoa no trem que não quer falar com ninguém; carregamos tudo isso conosco.

Novamente, creio que o romance é excelente para demonstrar essa sucessão de identidades que passam dentro de uma pessoa.


Fronteiras do Pensamento: É muito tênue o limite entre realidade e ficção na literatura contemporânea. O senhor é conhecido por cruzar estas linhas em suas obras. Como surgiu esta utilização de eventos ou figuras históricas nas narrativas e como este recurso vem transformando a literatura?

Ian McEwan: Creio que o romance possa incorporar reportagem, memórias, eventos reais, pode pegar emprestado do jornalismo, pode fazer listas, pode produzir qualquer coisa que associaríamos com o que você chama de mundo real, em seu âmbito. É um formato com muita capacidade.

Para misturar ambos, pessoalmente, prefiro pegar eventos ou pessoas históricas e colocar, ao seu redor, personagens fictícios. Ajuda a conferir à ficção uma solidez, uma sensação de estar baseada no mundo real.

Os leitores não têm dificuldade em distinguir entre o real e o imaginado. Mas, penso, para escritores que estão absortos em algum projeto, esses dois podem se mesclar de maneiras que são ao mesmo tempo ilusórias e também bastante úteis.

E o romance pós-moderno, ou o romance desde a grande revolução modernista do início do século XX, usou, imensamente, não o imaginado, mas o documentado de fato.

Por exemplo, um dos grandes monumentos do modernismo, Ulisses, de James Joyce.

Veja a correspondência de Joyce checando fatos e a informação detalhada sobre a vida em Dublin. E como ele maravilhosamente trouxe isso para a ficção, uma ficção mítica que parece trazer para dentro de si toda a história literária humana. Perceba, esses limites são muito, muito tênues, tênues de forma útil.

Fronteiras do Pensamento: Qual a influência do romance entre os diversos gêneros ficcionais que hoje se apresentam como alternativas ao público? Por que o romance sobrevive firme e forte nas prateleiras e e-readers?

Ian McEwan: A ficção é como uma grande cidade, por assim dizer, com muitos, muitos bairros. Suponho que um de seus elementos seja representar o mundo que compartilhamos.

Outro elemento é explorar a nossa condição, a condição humana. Quem somos, o que somos, como somos.

Um terceiro elemento é o livre exercício da imaginação, do “e se?”, ou onde a representação real do mundo social compartilhado fica para trás e podemos entrar em qualquer mundo que possamos imaginar.

Desenvolvemos, penso, muitas, muitas belas convenções dentro da ficção. Ela nunca parou. A noção de personagem, as formas de representar a própria consciência, os métodos dessas representações se tornaram, todas, ferramentas do autor.

Então, é difícil pensar em uma definição precisa, mas, em termos gerais, é surpreendente o romance ter sobrevivido, pois existem tantos concorrentes atraentes, ou atrações alternativas, como o cinema, o teatro, as séries de televisão.

Creio que a razão de a ficção sobreviver, e o romance em particular, é porque – e isso é outra resposta para a sua pergunta – ele se tornou uma forma de representar como é ser outra pessoa.

E penso que é muito poderoso em nossas interações sociais que tenhamos consciência de constantemente estar lidando com outros, tentando ler suas mentes, tentando entendê-los, interpretar seus gestos...

Fronteiras do Pensamento: sua obra Enclausurado ganhou repercussão mundial justamente por colocar o leitor sob a ótica de um protagonista muito peculiar, um nenê na barriga de sua mãe. De onde surgiu este personagem? E mais, como este trágico herói ainda não nascido conseguiu conquistar comparações com personagens como Hamlet?

Ian McEwan: Cada romance parece vir de um lugar diferente. Enclausurado veio da primeira frase que me veio à cabeça: “Então estou aqui de cabeça para baixo dentro de uma mulher”.

E eu desdobrei a ideia. Às vezes, vem de algo que li no jornal, ou algo que alguém me disse ou, às vezes, de puro pensamento, algo que me veio à mente. Então, não tem uma única, definitiva ou recorrente fonte para iniciar um livro.

Penso que isso é um elemento importante: entrar na mente de outra pessoa.

A elaboração de um personagem em um romance é a projeção de um personagem imaginário, um fantasma, digamos, que o romancista precisa habitar e ver pelos seus olhos.

Quando escrevi Enclausurado, estava consciente de que, de várias formas, seria limitante ter um narrador cego que mal podia se mover e possuía pouca autonomia.

Mas, então, percebi que havia muitas oportunidades, pois creio que seja verdade que todo estado emocional que sentimos é também um estado físico.

E, porque um feto pode ouvir o coração de sua mãe, e suas vísceras, e seu intestino, ele tem uma linha direta, por assim dizer, com as emoções alternantes que ela sente. E você pode perceber a diferença entre a aparência que ela demonstra e a realidade que ela sente.

Percebi que era um ponto de vista bastante privilegiado.


Fã de Ewan McEwan? Acesse o libreto gratuito sobre o escritor. O material reúne biografia, indicações de livros, links com o escritor, bem como algumas de suas ideias: “Literatura tem a ver com prazer. E é uma forma de exploração, de investigação da natureza humana. Entender a nós mesmos é algo que todos desejamos fazer no nosso breve momento de consciência. O romance, em particular, é a forma ideal para essa investigação."

Antes de ir, não deixe de assistir à fala de McEwan sobre nada menos do que o sentido da vida.