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Entrevista Kwame Anthony Appiah: Honra é a maior arma por trás das revoluções morais

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Filósofo anglo-ganês, Kwame Anthony Appiah é mundialmente conhecido por suas ideias sobre identidade cultural. Professor de Princeton, Appiah é o conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta segunda-feira (12/08). Em entrevista à Folha de S.Paulo, discute temas como revolução, honra e moral.

Folha de S.Paulo: Existe uma bibliografia enorme sobre revoluções políticas, socioeconômicas ou científicas, mas quase não se fala em revoluções morais. Por que é possível chamar estas mudanças sobre as quais o senhor escreve de revoluções?
Kwame Anthony Appiah: Revoluções são grandes mudanças em curtos períodos. Trato de mudanças que costumam acontecer em até 20 anos. Elas não seriam chamadas de revoluções pelas escalas adotadas para a política. Mas o são em termos da vida moral. O hábito milenar de amarrar os pés das mulheres na China, por exemplo, sumiu ao longo de uma geração. O mesmo aconteceu com os duelos. Em 20 anos, passaram de uma prática que o primeiro-ministro poderia adotar para ganhar honra a algo ridículo. No Brasil, a escravidão foi considerada normal por centenas de anos, num curto período ficou "menos normal" e, em seguida, algo abjeto, a ponto de netos não entenderem como seus avôs foram capazes de escravizar.

Folha de S.Paulo: O senhor já vivenciou alguma revolução moral?
Kwame Anthony Appiah: Quando fui morar nos EUA, em 1981, se você dissesse no aeroporto que era homossexual seria imediatamente mandado de volta ao seu país. Hoje, se eu disser no aeroporto de Nova York que sou gay, vão me perguntar quem é o meu marido. Se, na época em que cheguei, tivessem me dito que, depois de 20 ou 30 anos, eu poderia não apenas afirmar que sou gay como casar com outro homem eu acharia um delírio. Esta é uma revolução moral.

Folha de S.Paulo: Como é a convivência da moral com a honra?
Kwame Anthony Appiah: O caso dos duelos nos ajuda a esclarecer. Eles vinham acontecendo ao longo de 300 anos. Durante todo esse tempo eles eram ilegais, condenados pela Igreja e considerados uma loucura. Nos testamentos que os duelistas deixavam antes das batalhas ficava claro que sabiam que fariam algo errado, mas se sentiam obrigados a seguir por honra. Daí você aprende que a honra é muito poderosa e é independente da moral. Pode enfrentar a moral e vencer. Mesmo hoje: relatos recentes de curdos que assassinaram mulheres por honra mostram que eles o fizeram chorando, que sabiam que era errado, mas que era preciso fazê-lo. A morte por honra faz com que 5.000 mulheres por ano sejam mortas por "envergonharem" suas famílias. Isso pode acontecer simplesmente porque ela foi estuprada.

Folha de S.Paulo: O senhor diz que num futuro próximo sentiremos vergonha de termos vivido num tempo em que se matava por honra. Do que mais sentiremos vergonha?
Kwame Anthony Appiah: Teremos vergonha de muita coisa, a começar por nossa comida. O tratamento de animais, criados para servirem de alimentos, é um escândalo. Nos Estados Unidos é perfeitamente legal fazer as coisas mais abjetas com porcos, galinhas e vacas que serão servidas nas mesas.

Com os humanos não é melhor. Temos hoje a maior população carcerária da história mundial, cerca de 20% dos presos do mundo. E as condições das prisões são terríveis. Se elas fossem apresentadas como sendo do Paquistão, os Estados Unidos mandariam o Exército intervir. Da mesma forma, se o que é feito em Guantánamo fosse uma obra do governo de Uganda estaríamos defendendo a condenação do presidente deles no Tribunal Penal Internacional.

Folha de S.Paulo: O senhor considera o governo Obama honrado?
Kwame Anthony Appiah: Não. Deveríamos ter muita vergonha dele, e alguns de nós temos. Obama, em quem vou votar novamente, tem um encontro semanal com agentes secretos, todas as terças, para decidir que pessoas da Al-Qaeda ou de outras organizações semelhantes os Estados Unidos irão assassinar. Passei muitos anos lutando pela liberdade de expressão na China. Mas não me sentia na melhor posição para condenar as prisões se estávamos no negócio de assassinar pessoas.

Folha de S.Paulo: Apesar de tudo, o livro do senhor parece otimista com relação aos avanços morais, não?
Kwame Anthony Appiah: Não conclamo todos ao otimismo. Simplesmente foco nas questões que estão melhorando. Em diversos assuntos não estamos melhor e, em outros, estamos piorando. Mas, acho que, se seu padrão de avaliação é comparar o século 19 com os dias de hoje, você ficará enormemente impressionado com o fato de que as condições simbólicas e materiais são claramente muito superiores hoje. Os chineses e os hindus tiraram centenas de milhões de pessoas da pobreza, é possível fazer uma operação cardíaca em qualquer país do mundo, erradicamos a varíola.

A sociedade dá dois passos para frente e um para trás. Depois de cem passos chegamos a cinquenta passos adiante. Nós andamos para trás todo o tempo, e Guantánamo é um exemplo claro disso, mas por outro lado, ainda que eu seja um crítico do regime chinês, eles estão avançando. Martin Luther King costumava dizer que o arco do universo moral é comprido, mas que ele pende em direção à Justiça.

(Retirado do original da Folha de S.Paulo, por Cassiano Elek Machado)