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Entrevista Luc Ferry: filosofia para todos

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"A cada ano que completamos, ganhamos uma nova forma de ansiedade. O que é novo, é claro, não é o medo em si, mas o fato de que o medo não é mais considerado um sentimento vergonhoso, como um obstáculo que deve ser superado para se tornar um adulto." - Luc Ferry

O filósofo francês Luc Ferry estará no Teatro Castro Alves no dia 16 de setembro, como conferencista da edição especial do Fronteiras do Pensamento, em Salvador. A conferência, que partirá do tema Como viver juntos, é a penúltima da edição 2015 do projeto, que termina no dia 1º de outubro, com o psicanalista italiano Contardo Calligaris. Os ingressos para este ano estão esgotados.

Considerado um escritor de linguagem acessível ao público "comum" e avesso aos hermetismos habituais dos textos de sua área, Ferry já recebeu muitas críticas por isso, mas reage com veemência a esses comentários: "A verdade é que esses críticos estão relacionados com o mito do avant-garde: para eles, o artista ou pensador à frente de seu tempo deve ser incompreensível para o público. Mas, todos os intelectuais da minha geração escrevem de forma clara", diz o filósofo em entrevista concedida por e-mail ao Correio da Bahia. Confira abaixo:

Alguns críticos dizem que, diferente de outros livros de filosofia, os seus livros são mais fáceis de ler. Você concorda? É seu objetivo de tornar a filosofia acessível aos leitores "comuns", não apenas para especialistas?
Luc Ferry:
Essas críticas hoje, são uma minoria e dizer isso é de uma estupidez profunda. É um afirmação pretensiosa. Um filósofo não pode e não deve então, arriscar-se a "perder sua alma" para se envolver na sociedade, estar presente na vida pública? Esta é uma escolha filosófica: na democracia e república, o filósofo não pode e não deve perder o interesse no mundo ou nas pessoas que não têm 'educação formal'.

Tenho graduação em filosofia, doutorado em Sociedades e outra graduação em ciências políticas. Leciono em uma das mais prestigiadas universidades da França, Sorbonne. Eu poderia me limitar, como alguns dos meus colegas, a obras puramente acadêmicas, mas é preciso ir mais longe. A verdade é que esses críticos estão relacionados com o mito do avant-garde: para eles, o artista ou pensador à frente de seu tempo deve ser incompreensível para o público. Mas, todos os intelectuais da minha geração escrevem de forma clara. Posso citar como exemplos Alain Finkielkraut, Elisabeth Badinter, Pascal Bruckner, Marcel Gauchet, Gilles Lipovetsky ou Edgar Morin, intelectuais que, hoje, na França, são convidados a dar palestras abertas ao público em geral para tranparecer suas ideias na grande mídia.

Como você avaliaria seu desempenho como ministro? Que legado você deixou para a França?

Luc Ferry: É simples, eu consegui aumentar a consciência da maioria absoluta sobre a crise de leitura básica, da escrita sobretudo, a crise do analfabetismo galopante em todos os países ocidentais. Houve um tremendo declínio da cultura escrita e meu papel no ministério era admitir e identificar essa crise para combatê-la.

Como é a tolerância religiosa na França depois do ataque ao Charlie Hebdo?
Luc Ferry:
Não há intolerância religiosa na França. Todas as religiões são livres para exercer sua crença pacificamente e sem obstáculos. Mas o massacre do jornal ensina as crianças a matar judeus apenas porque eles são judeus, tudo em nome de um conceito louco do Islã. Como tolerar isso?

A França é, sem dúvida os países mais tolerantes do mundo no que diz respeito às religiõe. Veja como cristãos e judeus são tratados em teocracias islâmicas. Porém, infelizmente, temos na Europa e na França mais do que em qualquer outro lugar, um aumento de jihadismo que é aterrorizante, como mostrou o bombardeio no Charlie. Um dos efeitos disso é a fuga de muitos judeus da França para Israel, o que é uma vergonha para o nosso país.

Você escreve muito sobre os medos e fobias da sociedade contemporânea. É provável que os humanos de hoje têm mais medo que os de séculos vindouros?
Luc Ferry:
Nossa sociedade moderna está cada vez mais penetrada por uma nova paixão democrática, o medo. Na verdade, temos medo de tudo: velocidade, sexo, álcool, tabaco, costela, frango, deslocalizações, organismos geneticamente modificados, a clonagem, o efeito do efeito estufa, a globalização, o trabalho, o liberalismo, o aquecimento global.

A cada ano que completamos, ganhamos uma nova forma de ansiedade. O que é novo, é claro, não é o medo em si, mas o fato de que não é mais considerado um sentimento vergonhoso, como um obstáculo que deve ser superado para se tornar um adulto. E é graças ao medo que muitos de nossos cidadãos vão se tornar mais cautelosos e ainda mais sábios. É um absurdo, porque o medo é sempre um mau conselheiro.

Alguns críticos dizem que seus livros são muito semelhantes aos de autoajuda. O que acha disso?
Luc Ferry:
Meus livros são opostos aos de autoajuda e não devemos confundir psicologia e filosofia. A confusão vem porque, à primeira vista, o objetivo pode parecer idêntico: levar certa serenidade para curar alguma angústia. Mas, a filosofia se dedica à angústia metafísica, já a psicanálise se dedica à angústia psicológica. As duas têm naturezas completamente diferentes e os meios para resolvê-las não são os mesmos.

De acordo com Freud, a ocorrência de ansiedade é explicada, principalmente, pelo "rebentamento" da personalidade. Pode-se dizer que a psicanálise lida com a ansiedade patológica, que surge de conflitos internos. A filosofia centra-se na angústia – transformando-a em absolutamente "normal" e amarrando tudo o que fazemos, saudável ou não, à condição humana como tal. Mesmo que pudéssemos dar um fim à ansiedade patológica, ainda assim, o sentimento da angústia, que está relacionado com a possibilidade permanente da morte daqueles que amamos, permaneceria intacto. Neste sentido, a psicanálise e a filosofia não se sobrepõem.