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Entrevista Mario Vargas Llosa: a civilização do espetáculo

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Entre os Mario Vargas Llosa que vivem em Mario Vargas Llosa há os mundialmente conhecidos, como o intelectual e escritor que, três dezembros atrás, deu um vigoroso aperto de mão no rei da Suécia e recebeu dele a medalha de Nobel de Literatura. E há os quase obscuros, como o Vargas Llosa que, de tempos em tempos, é ator teatral. Nos últimos anos, andou encarnando, por exemplo, o rei persa Shariar, de As mil e uma noites, em palcos de México e Espanha. Não é de estranhar, pois, que o mais completo de todos os Mario Vargas Llosa seja o conferencista, como poderá testemunhar na semana que vem a plateia do teatro Geo, no Instituto Tomie Ohatke.

O escritor, ensaísta, "ator" e palestrante peruano de 77 anos virá a São Paulo para a conferência de abertura da edição 2013 do ciclo Fronteiras do Pensamento. "Farei uma defesa rigorosa da importância da cultura e a crítica da busca desenfreada pelo entretenimento light", adianta Vargas Llosa, com seu vozeirão de rei persa, em entrevista à Folha. A base da palestra do Nobel será um breve livro de ensaios que ele publicou no ano passado em espanhol e que a editora Alfaguara lançará no Brasil em setembro: A civilização do espetáculo.

PALHAÇADAS
Tanto neste livro como em artigos anteriores, compilados no volume A linguagem da paixão (esgotado no Brasil), Vargas Llosa atira flechas contra os mesmos alvos: programas de TV como Big Brother, a "paixão pela fofoca", a desvalorização da grande cultura ocidental e "as palhaçadas das artes contemporâneas". Foi por elas, as artes plásticas, que don Mario puxou o fio da meada. "Há uns 12 anos eu fui visitar a Bienal de Veneza. Nesse templo mundial da cultura, me dei conta de que não gostaria de ter uma só daquelas obras em casa", diz o escritor, que tem em seu apartamento em Madrid trabalhos de importantes modernistas, como os alemães Max Ernst e George Grosz. "Tive a percepção de que nenhuma peça daquela imensa exposição italiana sobraria para contar a história e fiquei muito aflito com isso." Outras aflições vieram a se somar a essa. "Eu me dei conta então de como os grandes escritores que me formaram tinham ido parar nas catacumbas e que quase tudo o que antes era considerado cultura virava entretenimento banal", afirma.

SÉRIES DE TV
Em meio a essa defesa apaixonada dos clássicos universais, Vargas Llosa deixa escapar que ele é um consumidor voraz de séries de TV. "Seriados como Homeland e House of cards continuam uma tradição muito divertida, que é a do folhetim, como os de Alexandre Dumas", diz o autor, também admirador da série The wire. "Estes programas não têm pretensões culturais, são uma forma de diversão justificável. Não se parecem em nada com as coisas que faz, por exemplo, Damien Hirst", diz, atacando o artista contemporâneo britânico. E qual seria, na visão dele, a mais recente ou "última" grande aventura intelectual do ocidente? A literatura de William Faulkner (1897-1962). "Quanto mais passa o tempo, vejo que a obra de Faulkner é a única de nossa época que é comparável à de Tolstói, Cervantes ou Victor Hugo."

Vargas Llosa apenas ri quando é questionado sobre como sua obra será lida no futuro. Mas afirma que "um dos poucos livros que podem se salvar" é Conversa na Catedral, obra que ganhou este mês nova edição brasileira, pela mesma Alfaguara. Publicada em 1969, a obra foi, diz ele, recebida inicialmente com a maior de todas as friezas. "Mas foi crescendo e educando leitores. É curioso que, hoje, quando citam meu nome, este é o primeiro livro mencionado." Segundo o autor, os temas de Conversa (em que, por meio de um retrato da realidade peruana dos anos 1950, traça um panorama político da corrupta e repressiva América Latina) seguem "infelizmente atuais". "Há problemas morais, políticos, sexuais ainda vigentes em muitos países da nossa região." O próximo livro do escritor, ainda não concluído, deverá fazer um interessante contraponto a Conversa. Com o título provisório de O herói discreto, o romance tratará da "classe média emergente" que está "mudando a fisionomia da sociedade peruana". "Vivemos na América Latina o progresso real e a ameaça de desafios sérios, como a corrupção", opina o escritor, que foi candidato derrotado à presidência do Peru em 1990.

Vargas Llosa não recomenda experiências partidárias como estas a seus colegas escritores, mas fica assustado com "a falta completa de interesse dos ficcionistas com o universo da política". Para ele, os processos de banalização da cultura e de exaltação do "entretenimento banal" caminham "de mãos dadas" com o desinteresse político. "É extremamente grave que os escritores estejam dando as costas para as problemáticas sociais e políticas. São questões de impacto na vida cotidiana de todos", defende. "É muito importante que os artistas e intelectuais participem de alguma maneira, que não pela indiferença e pelo cinismo com o qual lidam com o universo público. É uma maneira de contribuir com um clima de colapso das instituições."

TEATRO
Ao passo que termina o romance O herói discreto, Vargas Llosa também está concluindo uma adaptação do clássico Decamerão para o teatro, espetáculo no qual vai participar como ator. "É uma experiência das mais divertidas a de, tendo passado a vida toda escrevendo ficção, me ver num palco, vivendo um personagem. É aterrador, mas fascinante." Três anos mais jovem do que Philip Roth, o grande escritor americano que anunciou recentemente sua aposentadoria, Vargas Llosa toma estas experiências teatrais como prova de sua "vitalidade" e de que não vai parar tão cedo.

O escritor, que completou neste ano suas bodas de ouro literárias, com os festejos de 50 anos de publicação de seu romance A cidade e os cachorros, afirma que nem considera a hipótese de parar de criar. "Não vou sair nunca da literatura. A morte vai me encontrar escrevendo."