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Entrevista Roger Scruton: erros e acertos do ativismo ambiental

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Roger Scruton, na cerimônia de entrega da Ordem do Mérito da República da Hungria (dez/2019)
Roger Scruton, na cerimônia de entrega da Ordem do Mérito da República da Hungria (dez/2019)

Filósofo britânico, Roger Scruton foi homenageado com a Ordem do Mérito da República da Hungria, uma das mais altas honrarias do país.

A cerimônia de entrega aconteceu no início de dezembro e foi especialmente emocionante, já que Scruton enfrenta um grave câncer que descobriu logo após sair do Brasil, em sua viagem para participar do Fronteiras do Pensamento 2019.

Para receber a condecoração, o intelectual subiu ao palco com a ajuda de uma bengala (foto abaixo). Seu discurso foi proferido em uma cadeira de rodas, de onde Scruton celebrou as diferenças culturais, religiosas e étnicas europeias como uma glória do continente, não como uma ameaça.

O filósofo também comentou que a Hungria é um exemplo no sentido de conservar a identidade da nação, inclusive em tempos em que há pressão para abraçar certa uniformidade global que eliminaria as diferenças nacionais.

- Leia a carta enviada por Scruton e sua equipe falando sobre a saúde do pensador


Um pensador extremamente ativo e amplo, Roger Scruton tem produções que vão da academia à imprensa, do romance à ópera. Também é dele o mundialmente conhecido documentário chamado Por Que a Beleza Importa?, que você assiste clicando neste link.

Scruton é um intelectual conservador e se dedica a analisar os elementos que emergiram no Ocidente nos últimos séculos. Ele busca, nesse conjunto de ideias e assertivas, os componentes que teriam positivamente contribuído para a consolidação da civilização ocidental - aquilo que devemos lutar para preservar.

No palco do Fronteiras, ele esclareceu seu posicionamento, explicando que "o conservadorismo não é uma única coisa. Pessoas diferentes em regiões diferentes do mundo têm visões diferentes do que devem conservar."

Porém, salientou que, em meio a esta diversidade, há uma busca que todos nós compartilhamos: "Diferentes pessoas em diferentes tempos acharam coisas diferentes bonitas, mas o lugar da Beleza na vida das pessoas é algo universal ao humano. Isso não mudou."

- Leia o resumo da conferência de Scruton em Porto Alegre

Durante sua vinda ao ciclo de conferências, Scruton concedeu uma entrevista exclusiva à Braskem e falou sobre a valorização da beleza no mundo e sobre nossa responsabilidade com o meio ambiente. Leia logo abaixo, após relembrar a passagem do filósofo pelo projeto.






Braskem entrevista Roger Scruton: erros e acertos do ativismo ambiental

Em suas ponderações sobre os problemas ambientais, o senhor ressalta muito a questão de engajamento social. Como avaliar a responsabilidade das pessoas com o meio ambiente hoje em dia?

Roger Scruton: Todos nós temos uma responsabilidade com relação ao nosso meio ambiente. Um dos problemas é que os ativistas ambientais definiram essa responsabilidade como algo tão grande, tão vasto e tão abrangente, que ninguém sabe como enfrentar essa responsabilidade.

Defendo que devemos redimensionar as coisas e passar a supervisionar as coisas que têm relação com seus lares, coisas que pertencem aos seus lares.

Quando falo nisso me refiro ao recolhimento do lixo, ao cuidado com o ambiente urbano, ao cuidado com as áreas de natureza ao seu redor, ao cuidado com outras espécies. As pessoas podem fazer isso sem aderir a um programa para consertar o mundo inteiro. 

Acredito que o movimento ambientalista errou ao começar a partir desses problemas imensos que não sabemos como resolver. Deveríamos começar pelos pequenos problemas que nos permitem cooperar com nossos vizinhos. Dessa forma, o ativismo ambiental também seria uma espécie de amizade entre as pessoas. 

O senhor defende a necessidade e a valorização da beleza no mundo. Como podemos tornar as cidades mais belas? 

Roger Scruton: A questão da beleza das cidades é uma das grandes questões do nosso tempo. Claro, na Idade Média, as cidades europeias cresciam de forma orgânica em torno das igrejas e entorno do palácio real e assim por diante. As cidades eram construídas com materiais locais. Elas nunca eram muito altas e as pessoas amavam torná-las mais bonitas. Não havia problema algum: a beleza era uma consequência automática do desejo de viver ao redor da igreja.

Isso não existe mais, mas essas cidades ainda estão no mesmo lugar e precisamos protegê-las. Então, temos as cidades modernas que, é claro, são algo completamente diferente. elas envolvem a congregação de imensa as populações provenientes do campo em um único local e tornar isso algo bonito é um grande problema.

Em primeiro lugar, a maneira mais fácil de acomodar essa população é construir prédios altos de vidro e concreto, ignorar a rua, ignorar os espaços verdes, esquecer os prédios públicos. Mas, isso não gera uma cidade.

Então, precisamos desenvolver um estilo que possibilite a criação de centros urbanos genuínos, onde as pessoas possam se reunir e ficar em paz umas com as outras. Então, encontrar formas de acomodá-las sem destruir o panorama da cidade, em vez de simplesmente construir uns blocos por todos os cantos. 

Essa é uma grande questão estética. Todos sabemos que é uma questão relevante. No mundo todo, as pessoas estão se rebelando contra os cubos de vidro. Eles não são prédios. Mas, o que iremos colocar em seus lugares?

ASSISTA TAMBÉM: Roger Scruton analisa como o Brasil pode e deve conservar seus recursos para as futuras gerações através do pensamento conservador contemporâneo. A natureza presente no país, o Estado do Direito, o cristianismo, a democracia e outros tópicos são levantados pelo filósofo britânico.