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Entrevista Suzana Herculano-Houzel: "Fazer ciência no Brasil é inviável"

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Respeitada pela notável produção científica, com artigos publicados em prestigiosas revistas internacionais, a neurocientista carioca Suzana Herculano-Houzel é a convidada desta segunda-feira do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre.

No Salão de Atos da UFRGS, a bióloga vai discorrer sobre as diferenças entre o cérebro humano e o de outras espécies, considerando o tamanho, o número de neurônios e as capacidades cognitivas. Em entrevista ao PrOA/Zero Hora, a pesquisadora falou de descobertas recentes e da rotina de dificuldades enfrentada no Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ: "Tiro dinheiro do meu próprio bolso". Leia abaixo:

Você escolheu se dedicar ao estudo da porção mais complexa do corpo humano. Por quê?
É fascinante, o assunto não acaba nunca. Fui para os Estados Unidos fazer pós-graduação em genética molecular e me desencantei. Me dei conta de que trabalhava com tubinhos com líquidos invisíveis. Na época, um amigo que trabalhava com neurociência perguntou: “Posso te catequizar?". Ele tinha uma quantidade de perguntas riquíssima. Fui descobrindo que, em neurociência, para onde você olha, existem questões interessantes. É uma área tão rica, tão vasta, é a cabeça da gente.

Do que vai tratar a sua conferência no Fronteiras do Pensamento?
Vou falar sobre o que distingue o cérebro humano do cérebro de outras espécies, o que o nosso cérebro tem de especial, se é que tem alguma coisa. E justamente não tem. O que a gente tem é a vantagem de ser primata e, entre os primatas, ser o dono do maior cérebro. Temos o maior número de neurônios no córtex cerebral de qualquer espécie. Como o córtex cerebral é a base das chamadas capacidades cognitivas superiores – o raciocínio, associar ideias, detectar padrões, fazer previsões para o futuro, planejar ações –, proponho que esse número maior de neurônios nos humanos é a explicação mais simples para o que distingue a capacidade cognitiva humana da de todos os outros animais.

Depois de cursar mestrado nos Estados Unidos, doutorado na França e pós-doutorado na Alemanha, você voltou ao Brasil para dar seguimento à carreira de pesquisadora. Recentemente, repercutiu uma declaração sua classificando como “miseráveis" as condições em que se faz ciência aqui. Você cogitou até mesmo deixar o país. Você segue firme nesse propósito?
Continuo pensando no assunto, vendo possibilidades. Fazer ciência no Brasil é inviável. No meu laboratório, ainda estamos esperando o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) honrar os contratos firmados com a gente. Mesma coisa com a Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Temos projetos aprovados no ano passado e no começo deste ano que ainda não foram pagos. A única maneira de eu continuar trabalhando tem sido tirar dinheiro do meu próprio bolso, e não posso mais fazer isso. É inviável há muito tempo, eu é que estou fingindo que não noto para poder continuar com o laboratório funcionando, para os meus alunos de pós-graduação poderem fazer o trabalho deles. Tudo que a gente precisa, reagentes, a maior parte dos equipamentos, tem que ser importado. Quando é obrigado a comprar aqui, paga de duas a três vezes o preço. Não é minha obrigação cumprir as funções do governo.

Apesar de tantas dificuldades, você se tornou uma das cientistas mais respeitadas do país. Ao que credita esse sucesso?
Criei um nicho dentro da neurociência, abordando questões que são simples e que se achava que já estavam resolvidas. Muito longe disso. Em essência, meu trabalho gira em torno do que cérebros diferentes são feitos, quais são as regras de constituição de cérebros diferentes, quantos neurônios, qual é a relação entre o tamanho do cérebro e o número de neurônios, o que o cérebro humano tem de diferente. Quando você responde questões muito básicas dentro de uma área, é claro que essas respostas devem ter um impacto. Aliado a isso, desenvolvi um método próprio. Fizemos muitas coisas com poucos recursos.

O país forma um número razoável de mestres e doutores? Temos mais títulos do que produção científica significativa?
Nosso país tem adotado uma política de fazer números para ficar bonito no papel. É tudo número. Infelizmente, são executados de uma maneira que prejudica a ciência. Com todos os cortes que a ciência sofreu, as bolsas são mantidas. Por um lado, ótimo. Os jovens cientistas que recebem bolsas são obrigados, para recebê-las, a assinar um papel que chamo de atestado de pobreza, em que se comprometem a não receber salário, que aquela bolsa vai ser a única fonte de renda. Você vai viver com aquelas migalhas. Mesmo quando tudo funciona e a gente recebia o dinheiro aprovado para pesquisa, o valor é tão ínfimo que você não pode executar o trabalho como deveria. A gente aprende a dar um jeito, investigar somente aquelas perguntas pontuais, baratas. A consequência dessa falta de investimento é que a gente forma doutores, sim, mas e daí? Não são pessoas de fato preparadas. A ciência que eles aprenderam a fazer, na grande maioria dos casos, não é relevante.

Você não é uma entusiasta do Ciência sem Fronteiras, uma das vitrinas do governo federal na área da educação.
Fui uma grande entusiasta no começo. O programa anunciava a internacionalização verdadeira da ciência brasileira, enviando nossos jovens cientistas para o estrangeiro para terminar a formação e trazendo jovens cientistas estrangeiros para trabalhar no país. Só que o governo Dilma deturpou completamente a imagem do Ciência sem Fronteiras quando resolveu transformar em um festival de pacotes de turismo para estudantes de graduação. Claro que alguns sabem aproveitar a oportunidade e de fato trabalham, mas tem gente que vai passear. Se tivesse dinheiro sobrando para fazer isso, ótimo, nada contra. Mas o problema é que isso absorve o pouco de recurso que temos para fazer o trabalho aqui. Entendo que, se somos um país pobre, é preciso escolher com cuidado no que se investe dinheiro, mas a partir do momento em que existe a decisão de se investir em ciência, esse investimento tem que ser feito de maneira correta.

Cérebros saudáveis têm o mesmo potencial? Os estímulos e o aprendizado são os fatores determinantes para o maior ou menor desenvolvimento cognitivo?
Em princípio, eles têm, sim, as mesmas potencialidades. É claro que existem diferenças pontuais, assim como somos diferentes do lado de fora (do corpo). Já são conhecidas variações genéticas que tornam algumas pessoas com mais capacidade para memorizar coisas, por exemplo. Sabemos hoje que o papel da experiência prática, e sobretudo o da motivação, é tão importante que a diferença que essa experiência faz, desde que o cérebro seja saudável, é muito maior do que a diferença que a gente possa atribuir à biologia, ao que é inato. O que é muito bacana, muito democrático. Significa que todo mundo é capaz, todo mundo pode se tornar excelente em alguma coisa. É uma questão de descobrir o que é essa alguma coisa que te interessa e ter a oportunidade de se empenhar naquilo.

Qual a descoberta da qual você mais se orgulha?
Tenho satisfação em conseguir fazer muito com muito pouco, mas é um orgulho terrível de se ter. O trabalho legal, que faz diferença, que muda o cenário para a ciência é um trabalho que não precisas ser feito com milhões de dólares. É claro que ter milhões de dólares ajuda, mas o que importa são as boas ideias, você saber reconhecer o que é uma questão importante, o que não foi respondido ainda. O trabalho que mais me satisfaz foi publicado hoje (quarta-feira passada) na Proceedings of the Royal Society B, juntando tudo: número de neurônios, evolução, fisiologia, metabolismo e sono, que me interessa desde o doutorado. Foi possível por causa de todos os números que a gente vem gerando sobre a composição de cérebros diferentes nos últimos 10 anos. Mostra o que determina quantas horas animais diferentes precisam dormir. Mais uma vez, são questões básicas sobre neurociência. A gente vem cultivando dados, mas é uma questão de reconhecer perguntas que ainda estão abertas, reconhecer o que a gente não sabe. Esse atestado de ignorância é que faz a diferença entre a ciência realmente inovadora, de alto impacto, e a ciência de menor impacto, que se preocupa em esmiuçar questões já resolvidas.

Pensando para a frente: qual é o seu maior objetivo na carreira?
Me interesso agora por variações entre indivíduos em relação à capacidade cognitiva. O que explica a diferença de capacidade cognitiva entre espécies diferentes? E, ao mesmo tempo, o custo metabólico: como o custo energético do cérebro varia entre indivíduos e espécies? São questões básicas, mas em aberto.

O estresse intenso maltrata o cérebro? Os cérebros de hoje são “piores" do que os de outros tempos?
A tecnologia não é ruim, assim como o estresse não é ruim. Ruim é o mal uso que a gente faz do que tem, das possibilidades, da quantidade de coisas que tem que conseguir resolver todos os dias. Hoje temos como resolver mais de um problema por dia. A gente deveria fazer isso? Acho que não. Você cobra muito mais de si mesmo, acaba exigindo tanto de si que perde a sensação de controle, e é aí que o estresse deixa de ser bom. O estresse pode ser extremamente saudável, positivo e trazer prazer inclusive, mas tem que ser aquele estresse que você se propõe. É a sarna que você arranja para se coçar. A diferença toda é a sensação de controle. Enquanto você domina a situação e a sua vida, todos esses problemas para resolver são ótimos. O ruim é quando você perder a sensação de controle. Aí o estresse passa a ser crônico. Esse é ruim.

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