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Entrevista Valter Hugo Mãe: "Tudo é máscara, e estou cansado de máscaras"

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Valter Hugo Mãe (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)
Valter Hugo Mãe (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)

Cada uma das pessoas que compareceram ao Teatro Castro Alves para assistir à conferência de Valter Hugo Mãe, pelo projeto Fronteiras do Pensamento, foi vista por ele como um "potencial amigo".

Esta foi a receita que encontrou para enfrentar plateias cada vez mais ávidas após ter ganho em 2007, pelo romance o remorso de baltazar serapião, o Prêmio José Saramago - que, segundo o próprio, seria um "tsunami literário". "Eu, de início, tinha muito medo da plateia, me sentia muito julgado, muito exposto". Foi bom mesmo ter se acostumado.

Longe da mítica que se forma em torno de grandes escritores, ele não deixa criar poeira: inquieto, faz de poesia a prosa, edita livros, desenha e tem uma banda, a Governo, descrita por ele como expoente de um "pós-fado". Em sua primeira vez em Salvador, veio cheio de expectativas, ampliadas pelas referências que tem da Bahia, como Caetano Veloso, que fez o prefácio da nova edição de A máquina de fazer espanhóis. Ainda em São Paulo, onde esteve no início do mês, esperava um lugar de "pura maravilha". Talvez seja a uns 100 km da capital baiana que ele escreva seu próximo livro. E, talvez por confiar nessas ligações que se dão entre gente, Mãe também revelou à revista Muito, antes do anúncio oficial, e mesmo por telefone, o título do novo romance: Homens imprudentemente poéticos. Um pequeno segredo de alguém imprudentemente humano.

No texto que o senhor fez em sua vinda ao Brasil para a Flip, em 2011, o Brasil aparece como um toque de Midas. Em 2015, também afirmou que o melhor que Portugal fez foi o Brasil. Esse encanto se mantém? Sobretudo num momento em que vivemos uma crise de autoimagem?
O que eu encontro aqui é uma espécie de mescla de saberes e povos que é muito única, porque o povo brasileiro, embora às vezes passando mal ou passando por uma crise, é muito resistente. E tem uma espécie de receita para a felicidade, para o bem-estar, que é muito único. É claro que o encanto com a cultura brasileira, o encanto com o Brasil não me impede de ver a crise, as coisas que estão acontecendo. E neste dia estou muito junto da Avenida Paulista, dá para ver como as pessoas estão aflitas, e há um impasse. Eu acho que as pessoas nem acreditam muito que pode piorar, no que pode acontecer, uma espécie de desilusão com a política. E isto é muito triste, porque nos últimos 15 anos o Brasil tem vivido muito eufórico, uma espécie de anos felizes. Eu esperava que essa felicidade continuasse.

Deu para formar alguma opinião sobre o momento político e histórico pelo qual estamos passando?
É muito difícil para alguém que está de fora entender o que aconteceu. Porque a imprensa internacional fala de um golpe. Lá fora, o que está acontecendo é visto como um golpe, tanto que os líderes europeus, americanos, nem querem, por exemplo, reconhecer a posição de Temer, consideram que ele é um usurpador, que não está no lugar certo. A impressão que eu tenho, quando falo com amigos brasileiros, com as pessoas que vivem aqui, às vezes é muito distinta. As pessoas podem até considerar que o impeachment foi algo ilegítimo, mas ao mesmo tempo o sufoco da crise é de tal maneira que as pessoas não estão preocupadas com legitimidade, estão preocupadas com uma pessoa que proponha uma solução, que a Dilma não convencia mais, não fazia mais parte da solução. É muito estranho, eu não consigo ter uma opinião; talvez nos próximos dias, essa semana que passo aqui no país, eu posso ser convencido de uma coisa ou de outra.

Ao longo deste tempo, tendo visto esses "anos felizes" e o momento atual, descobriu algo novo sobre a natureza do país e das pessoas?
Sim, eu creio que paulatinamente, devagar, eu vou entendendo a diferença entre os vários estados, entre os diversos brasileiros. Vou entendendo o que distingue um mineiro de um carioca; de alguém que nasceu em Porto Alegre do que pode ser um paulista profundo. E isto me interessa muito, e me interessa cada vez mais no Brasil, e que não é muito possível ver, que tem muito a ver com a memória indígena. Acho que é um patrimônio inestimável, riquíssimo, essa existência ainda dos índios, que foram os primeiros anfitriões deste grande território, tudo que os índios representam e a memória que possuem. Tenho cada vez mais interesse nessa questão.

O senhor mencionou em entrevista que um dia escolheria uma cidade pequena e escreveria um livro aqui. Isto ainda está em seus planos?
Está. Ando adiando porque eu quero escrever esse livro quando chegar a sua própria natureza, não quero que seja um modo de correspondência, uma paixão agora mais intensa. Eu quero que o livro seja quase que o produto de uma vida inteira, a maturação de uma relação da minha vida inteira com o Brasil. Mas eu quero muito, não vou deixar de escrever esse livro. Talvez esteja mais próximo, eu tenho feito minhas contas... Eu posso até abrir, não tenho comentado muito sobre, mas eu já tenho até um caderno de apontamentos, onde eu tenho feito minhas anotações acerca dos personagens... Eu só não entendi ainda onde vou esconder-me. Vou escolher um lugar bem pequeno, porque acho que não sei falar de cidades grandes.

O senhor já citou a Ilha da Conceição [em Niterói, no Rio de Janeiro], onde o senhor passou férias...?
Em 2000, acho, 1999 ou 2000.

Teria ainda possibilidade de ser neste lugar ou o senhor pensou em outro?
É, talvez seja outro. A Ilha da Conceição é o meu primeiro lugar brasileiro, meu lugar simbólico. Mas eu tenho uma amiga que tem lugar, uma pequena casa em uma aldeia a 100 quilômetros de Salvador da Bahia, e a descrição que ela me faz das pessoas e da comunidade - é uma comunidade com cerca de 100, 200 pessoas -, fico muito inclinado. As descrições tão impossíveis, tão incríveis, que eu acho que não escreverei o livro sem ir à casa dela, ficar um tempo e talvez voltar e transformar aquele lugar no lugar do meu livro.

O senhor lembra o nome desse lugar?
Não, só sei que é uma aldeia, só de terra, fica junto de uma praia, sei que tem muito jacaré e escorpião, tem um lugar muito pequeno onde essa minha amiga fica e só uma casa tem internet. O povo todo fica indo à casa para conseguir wi-fi. Eu tenho medo de jacaré, tenho medo de escorpião [risos], mas acho que é isto que eu imagino, que necessito. Essa espécie de comunidade que pode parecer residual, mas é ela mesma um símbolo do que pode ser o Brasil.

E suas expectativas sobre a Bahia? O senhor afirmou que um dos últimos lugares mitológicos que o senhor nunca foi.
Sim. Toda a gente, quando falo que gosto das várias cidades brasileiras, que gosto dos vários lugares brasileiros, fala que quando eu chegar a Salvador vou ficar muito mais impressionado, porque Salvador é muito mais bonito, muito mais festivo, o povo é muito mais alegre. Uma coisa que me falaram há muitos anos, creio que foi Adriana Calcanhoto que me disse isto pela primeira vez, que há um ditado que o baiano nem sequer nasce, baiano estreia. E desde a primeira vez que me disseram isto, a Bahia cresceu muito no meu imaginário como um lugar de pura maravilha, um lugar quase que imaginário. Nem é tanto pela herança portuguesa, mas por essa exuberância brasileira que a gente escuta tanto falar sobre a Bahia, o lugar de Caetano, de Maria Bethânia, essa música. E essa mestiçagem, gosto muito do Brasil misturado, e quero muito ver isto. Essa espiritualidade, a Bahia inspira muito uma espiritualidade misturada, livre, em que as pessoas acreditam nas coisas que sabem acreditar, sem muita regra. Quero entender isto porque acredito em coisas estranhas e acho estar certo acreditar em coisas estranhas [risos].

Isso lembra muito A desumanização: a Islândia parece ser ela mesma um personagem. A escolha desse lugar tão longe e mais isolado tem a ver com uma vontade de falar de uma forma mais universal?
Sim, a Islândia é uma espécie de folha branca, é uma tentativa de limpar. A Islândia sempre me inspirou, antes mesmo de viajar pela primeira vez à ilha; sempre me inspirou como uma limpeza, um vazio, onde o indivíduo pudesse chegar como o único ruído, a única questão. E até mesmo te transporta para um modo espiritual, é um lugar da solidão. E é uma pergunta até que eu senti que precisava colocar [no romance]: se até mesmo diante solidão, naquele vazio, eu continuava sendo um ser humano, porque eu estava sozinho. Então em A desumanização me interessava muito a implicação acerca da capacidade de lidar com o vazio, que na realidade é a capacidade de lidar com nós mesmos. Quando falo que quero muito escrever um livro no Brasil em um lugar pequeno, eu já não estou à procura da mesma coisa, porque o Brasil, mesmo em um lugar muito pequeno, tem muito uma empatia, uma espécie de comunidade demasiada. Tudo no Brasil é muito. Neste lugar que minha amiga mora não terão muitas pessoas, mas terão muitos jacarés [risos]. Não vai ter nunca essa impressão, acho que no Brasil nunca põe essa impressão de solidão.

Algo de diversidade também?
Exatamente, exatamente. Uma explosão da diversidade.

Por falar em A desumanização, você acaba de terminar um novo romance [no dia 3 de agosto, ele postou em sua página no Facebook que acabava de entregar o livro acabado ao primeiro leitor].
Oba! [Risos]

Do que fala o novo romance? Qual o seu sentimento agora em relação a isso?
É um livro que se passa no Japão, em um pequeno lugar de Kyoto, uma pequena aldeia, de 1800, que nessa altura era a capital. Fala de uma divisão que pinta leques, que tem sobre ela a ameaça de vir a parar. Então o tempo inteiro é como uma preparação para a fome, uma preparação para essa contingência de virar mendigo. É um momento em que ainda não sei falar com consistência, ainda não aprendi acerca do livro. Com relação ao A desumanização, é um livro mais prático. Existem algumas questões fundamentais, mas um livro que procura uma pragmática da sobrevivência. Enquanto A desumanização não é nada pragmática; é intuitiva, é subjetiva. O personagem principal, que se chama Itaro, procura de maneira incansável. Como Ícaro, mas com t. Significa o primogênito, o primeiro filho.

E isso tem algum peso na narrativa?
Acaba por ter, sim. Não digo isso [no romance], mas quem souber que Itaro significa o primeiro filho vai entender por que essa comunidade tem esse senso de "providenciar". É porque é no fundo uma tradição japonesa de que os homens têm a obrigação de cuidar da família.

A essa altura, após algumas rupturas em sua carreira, como a questão das minúsculas e o recebimento do prêmio José Saramago, como se sente em relação à sua existência como escritor?
Invariavelmente, acabo por estar no mesmo lugar. A gente passa por essas festividades, momentos muito exteriores, públicos, mas quando regressamos à nossa quietude, há uma angústia de infância, a necessidade de encontrar uma expressão, um texto. A vida de um escritor parece que só se faz publicamente; intimamente ela não tem progresso, não tem desenvolvimento. Não dá para ser outra coisa. Talvez a gente possa buscar outras coisas, mas a gente não consegue deixar de buscar. Então é bem ingrato, mas, ao mesmo tempo, não conseguimos deixar de correr atrás de uma satisfação. Na verdade, o que quero dizer é: eu sei que isto aconteceu, conheci o Saramago, sei que ele me deu sua aprovação, sei que o Caetano escreveu um prefácio [da nova edição de a máquina de fazer espanhóis], eu sei dessas coisas concretas, mas, no momento de escrever um livro, no momento em que eu volto à minha casa, volto à mesma solidão.

Um pedreiro, por exemplo, depende de alguém que precise de uma casa, em seu ofício. Já um escritor ou outro artista tem algo como um motor interno. O que te motiva?
Acho que é uma coisa contínua, porque é mais do que uma forma de estar, uma forma de trabalho. É uma coisa muito endêmica. Sendo contínua, ela pode ser intranquila. Pode acontecer durante meses, durante anos, não conseguir escrever. Há alturas em que duvido, porque você fica tão vago, perdido, distante. Fica buscando uma espécie de segredo. Mas sem ser daquela forma não se basta, não se acaba. É uma coisa que marca para sempre.

O senhor se diz bastante tímido, mas não é o que mostra em algumas aparições públicas...
[Risos]

Parece ser bastante extrovertido. Isso foi um aprendizado, uma faceta que adquiriu por conta das obrigações sociais que surgiram de seu sucesso como escritor?
Acho que sim. Fui aprendendo que as pessoas que comparecem aos eventos estão de boa-fé. A princípio, estão predispostas a ouvir. Eu, de início, tinha muito medo da plateia, me sentia muito julgado, exposto. Hoje acredito que a coisa mais preciosa que as pessoas podem ter é a honestidade. Ter a clareza de estar diante de uma pessoa transparente, acho é a única ciência que realmente pode ajudar. Tudo o mais é máscara, e estou cansado de máscaras.

E a sua poesia? Depois de vários romances, que lugar está reservado a ela?
Estou tentando disciplinar a minha poesia, porque estou achando que ela ficou muito fofoqueira. Minha poesia estava virando um diário, um tipo de coisa aberta. Então entrei em conflito. Não é que não esteja interessado em escrever, talvez tenha a ver com o gênero. Mas pretendo lançar um livro com as minhas poesias, talvez seja no Brasil também, eu vou fazer agora, depois do novo romance.

O senhor tem uma banda, a Governo, à qual se atribui muito uma definição de "pós-fado". O que seria isso?
Seria uma espécie de pop melancólico, um pouco contaminado pelo fado. Quando eu digo pós-fado, eu digo que é um pop que não existiria se não tivesse existido primeiro o fado. E eu adoro fado. Gosto demais de cantar fado, e algumas pessoas que me ouviram cantar fado sempre acham que eu deveria ter seguido uma carreira de fadista. Eu acho um pouco absurdo, porque eu gosto de fado, mas eu não poderia ser um fadista todos os dias; eu preciso de outras coisas, outros sons. Então a banda fica em um meio-termo de outras coisas, uma misturada estranha.