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Fernando Savater: “Não confio nas grandes mudanças da humanidade”

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Fernando Savater
Fernando Savater

Em meio a uma pandemia, a felicidade aparentemente ficou no passado, e o presente é de cautela e de espera pelo fim do isolamento. Porém, Fernando Savater pensa de forma mais sólida e vai além da pandemia: “A felicidade nunca é algo compatível com o presente. Ou é o passado ou é algo que esperamos que venha a nós no futuro. É por isso que prefiro falar de alegria e não de felicidade, que me parece uma palavra excessivamente exagerada.” 

Em entrevista por telefone ao Grupo Milênio, o escritor e professor de filosofia, que está em confinamento na Espanha, compartilha algumas de suas reflexões sobre a pandemia e acredita que após este momento de tensão, a visão de mundo voltará ao normal, como antes. Savater rejeita a teoria de castigo divino para a descoberta do que realmente importa, e não acredita em grandes mudanças na humanidade.

Como o senhor está? Como tem levado o confinamento?

Fernando Savater: Bem, com resignação. Acho que como todo mundo. Estou em San Sebastián e tenho sorte de ter uma casa bastante espaçosa, que tem uma pequena varanda da qual, ao longe, vejo a praia e o mar. Bem, já é alguma coisa. Algo assim sempre ajuda. Estou sozinho, entre vários livros, filmes e discos. Tenho lido muito. Especialmente romances policiais, que são o meu tipo preferido. Também romances fantásticos, contos... De tudo. Eu sempre disse que, se pagassem para ler, muitos de nós se sairiam muito bem financeiramente, hehe. É engraçado, mas agora sinto falta de sair um pouco. Você já sabe que, há algum tempo, eu estou meio confinado. Eu passo muito tempo aqui em casa. Mas, olhe, basta que nos proíbam de sair para que você tenha vontade de fazê-lo, hahahaha.

Como a filosofia pode nos ajudar a lidar com essa situação que estamos sofrendo em nível global?

Fernando Savater: Olhe, agora, as pessoas precisam é de luvas, máscaras (faciais) e, acima de tudo, os testes, que deveriam ser feitos em toda a população para ver quem está infectado sem saber para que não saia contagiando outras pessoas. E a filosofia é uma questão para poucos. Eu não acho que seja uma prioridade agora, realmente. Eu não acho que a gente tenha que se dedicar à filosofia agora. Por enquanto, o que se deve fazer é fornecer às pessoas meios para manter a saúde e a vida. Por isso o que me preocupa é a mesma coisa que à maioria dos cidadãos: a doença, que não encaro como algo metafísico. Embora seja verdade que há momentos em que penso nas pessoas abandonadas e naquelas que sofrem de outras doenças e, é claro, na crise econômica que haverá depois. Porque haverá muitas empresas, restaurantes e lojas que fecharão para sempre e deixarão muitos sem emprego.

Mas, agora, deve haver muita gente pensando no passado, no surgimento da doença e em como enfrentar o futuro, não é?

Fernando Savater: Bom, acredito que deve haver pessoas que, durante seu confinamento, estejam pensando em demasia. Mas eu não sei. Alguns cantam, outros pensam, outros fazem trabalhos manuais, outros assistem a maratonas de séries. De qualquer forma, se você tem hábitos ou hobbies intelectuais, talvez esteja pensando em filosofia, sim. Mas, claro, não é obrigatório. Você pode se dedicar à literatura, à arte... O importante é a cultura. A filosofia é importante porque é uma pequena parte da cultura. As pessoas que têm uma determinada cultura ou que se interessaram por ela ao longo da vida têm muito mais chances de aproveitar esse tempo sem ter que sentir falta de tantas outras coisas. A literatura, a poesia, a arte, o cinema, a música são instrumentos para ocupar o tempo dentro de uma casa.



Que livros de filosofia o senhor recomenda nesse momento?

Fernando Savater: Eu não ousaria recomendar algum filósofo ou algum de seus livros, assim, de modo geral, porque não sei o que interessa a cada um ou o que cada um já leu. Depende do tema ou da questão da vida que cada um deseje abordar. Mas não é uma obrigação se dedicar à filosofia. De modo nenhum. Nem agora nem nunca. O importante, repito, é a cultura.

O que vamos aprender com a experiência desses dias?

Fernando Savater: Bom, eu acho que absolutamente nada. Quando isso acabar, ficaremos muito felizes e simplesmente vamos querer recuperar nossa vida anterior. Mas acho que há algo que devemos aprender ou levar muito em consideração: que reclamávamos muito em nossa vida anterior e não sabíamos que, na verdade, desfrutávamos de certa estabilidade em todas as áreas. Enfim, talvez fosse bom que deixássemos de reclamar ou discutir tanto com aqueles ao nosso redor e que são uma parte importante e querida de nossas vidas.

Opa, está ficando sentimental, Sr. Savater?

Fernando Savater: Olhe... Mas o que você está dizendo? De jeito nenhum! O que eu não gostaria de fazer é o que tem sido frequente ultimamente: esses que tentam filosofar e a única coisa que espalham são conclusões moralizadoras. Frases como “vivemos errado”, “temos que mudar nossa maneira de existir”, “a culpa está no abuso do egoísmo ou na falta de respeito à ecologia”. Bem, veja, não! As pragas existem desde o início da humanidade e haverá muito mais, com certeza. Esta, especificamente, tem uma virulência brutal, mas também temos muitos outros meios para lidar com ela. O que não entendo é essa ideia de conjeturar como se estivéssemos na Idade Média e pensar que é um castigo divino. Não é possível que agora os castigos divinos sejam chamados de castigos da natureza. Eu acho insuportável que os moralistas estejam repetindo coisas como que agora descobrimos o quanto os outros são importantes. É como se tivéssemos precisado esperar pelos vinte e um séculos de nossa era e por uma praga para perceber que os outros são importantes. Antes, diante das pragas, acreditava-se no castigo divino. Dizia-se que era um castigo porque a sociedade era libidinosa, se entregava aos prazeres da carne e se dedicava apenas a fornicar e à ganância. Quando havia uma praga, pensava-se que, quando ela passasse, as pessoas nunca mais fornicariam ou seriam gananciosas. Mas a verdade é que os indivíduos permaneceram os mesmos. E agora vai acontecer a mesma coisa. Todos nós seremos um bando de individualistas novamente!

Então, de um modo ou de outro, nunca chegamos à felicidade. Estamos ferrados!

Fernando Savater: Outro dia, eu estava lendo algo muito interessante: não se sabe se alguém foi feliz ou não até o último momento. Ou seja, você pode acreditar que é feliz ou que alguém é feliz, mas nunca pode ter certeza da felicidade, nem da sua nem da de outra pessoa, enquanto se estiver no mundo da vulnerabilidade, que é onde todos nós vivemos. Aristóteles dizia que, por exemplo, Príamo, o rei de Tróia, parecia totalmente feliz e era um homem de idade avançada. Mas ainda viveria a guerra, perderia sua família e seu reino. Então, como diz o provérbio espanhol: ‘hasta el final, nadie es dichoso’ (‘até o fim, ninguém é feliz’). Talvez você seja feliz após a morte, porque aí você se torna invulnerável. Os mortos já são invulneráveis porque têm tudo no passado. A felicidade nunca é algo compatível com o presente. Ou é o passado ou é algo que esperamos que venha a nós no futuro. É por isso que prefiro falar de alegria e não de felicidade, que me parece uma palavra excessivamente exagerada.

Além dos cafonas e moralizadores, há também aqueles que pensam no medo e na morte.

Fernando Savater: Ninguém passa a vida pensando na morte, nem se deveria pensar na morte, porque assim não seria possível viver. Mas se você for a um hospital, não agora, outro dia, e vir o panorama, vai se dar conta de que a morte está sempre lá. Agora o vemos mais claramente, como um medo de algo concreto que nos causa angústia. Estamos com medo de uma forma de morte que se aproxima de nós e que pode alcançar nossos entes queridos. Mas, assim que passar, a esqueceremos e a guardaremos em uma gaveta. Porque não estou muito confiante nisso das grandes mudanças da humanidade. A humanidade mudou quando houve a peste na Europa, que serviu para Boccaccio escrever Decamerão, e o que ficou foi apenas isso. Depois, viveu-se mais ou menos da mesma forma.

Há certas medidas aparentemente improvisadas para tentar impedir a pandemia e que, provavelmente, permanecerão entre nós para sempre, e, então, a maneira como nos relacionamos com os outros e com as autoridades será diferente. Teremos mais segurança, mas menos liberdade?

Fernando Savater: Eu espero que essas medidas improvisadas que tiveram que ser implementadas pelo coronavírus não fiquem para sempre. Que a nossa liberdade de deslocamento e de relacionamento não tenha mudanças drásticas. Espero que continue da mesma forma, que possamos recuperá-la. Há muitas coisas que nos foram impostas de maneira arbitrária e, somente por isso, devido à sua arbitrariedade, eu gostaria que elas não fossem mantidas. Era só o que nos faltava! Não, não... Espero que, quando o confinamento terminar, as pessoas não saiam muito aturdidas e que não esqueçam tudo o que alcançamos como sociedade em termos de direitos e liberdades.

A comunicação à distância e o ‘distanciamento social’ em locais públicos já são normas gerais e aparentemente bem aceitas. O que acontecerá com a interação social que tínhamos?

Fernando Savater: Ah, meu filho, você está crescendo. Mas é assim, não se preocupe. É disso que se trata a vida. Vejamos: talvez para alguém mais velho, alguém como eu, é, como eu!, isso esteja sendo um pouco mais estranho. Mas eu sei que os jovens estão muito acostumados a interagir à distância. Na internet, no WhastApp... E, por coisas assim, essa situação não lhes parece tão irreal. Para eles, esse meio de comunicação é a própria realidade. Claro, existem coisas que são difíceis de fazer virtualmente, como fazer amor, por exemplo. Mas hoje a comunicação é fundamentalmente através da internet. Pessoalmente, você pode conhecer cem ou duzentas pessoas na vida. E, pela internet, podemos conhecer milhares. Não sei se isso é realmente uma vantagem ou uma desvantagem. Mas, olhe, testando, acho que é bom.