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Fernando Schüler: Alma na vida contemporânea

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“Deus morreu muitas vezes, mas curiosamente renasce a cada nova geração. Pois há uma resposta que não é dada, e que possivelmente nunca o será: a resposta sobre o sentido da vida." - Fernando Schüler

Em entrevista à Revista Bons Fluidos, o curador do Fronteiras do Pensamento, Fernando Schüler, fala sobre espiritualidade, autoconhecimento e filosofia para compreender como podemos ter uma vida boa. “Felizmente, o conhecimento acompanhado do debate de ideias está aí para nos ajudar a desviar da armadilha de transformar essa busca em obsessão."

Bons Fluidos: Para você, o que é espiritualidade?
Fernando Schüler:
Sou luterano. Herança cultural e familiar fundada em um profundo respeito com o indivíduo e a razoabilidade, com a qual me identifico. O luteranismo nasceu no início do século 16, quando Lutero se opôs à autoridade da Igreja e do Estado, em nome da liberdade de consciência e religião. Trata-se de uma religião sem hierarquias, feita por comunidades, que aproxima pessoas de uma relação íntima com Deus. Em outras palavras, uma forma branda de espiritualidade, como é a marca da religiosidade na cultura contemporânea.

Bons Fluidos: Nos dias de hoje, a espiritualidade tem se inclinado em qual direção?
Fernando Schüler:
Migramos de uma cultura fundada na religião para uma época pautada pela “espiritualidade". Há uma história que dá sentido a essa transição. Nosso mundo é marcado pelo que o escritor venezuelano Moisés Naim chama de “revolução do mais": o aumento da escolaridade, da oferta de informação, o avanço da ciência. Tudo isso produziu um lento e silencioso processo de laicização da cultura. E aqui me refiro aos países ocidentais. Isso não irá eliminar a religião, mas alterar seu significado. As pessoas tendem, progressivamente, a praticar formas mais amenas de religiosidade. Mais abertas, tolerantes e ecumênicas. Não é por acaso que temos hoje um papa ecumênico, cuja mensagem é menos doutrinaria e mais espiritual.

Bons Fluidos: Qual é a questão filosófica por trás desse novo cenário?
Fernando Schüler: Para a maioria das pessoas, o que chamamos de espiritualidade guarda muito do sentido originário da filosofia, que remonta à tradição epicurista – escola filosófica do período helenístico que se perdeu durante o período medieval e foi retomada na Renascença. O epicurismo se caracterizava pelo cultivo da filosofia como orientação sobre a vida: a grande pergunta era como o pensamento poderia nos ajudar a viver melhor.

Bons Fluidos: E qual era a direção sugerida?
Fernando Schüler: Concebido pelo filósofo grego Epicuro (341a.C–270a.C), essa é uma filosofia da serenidade. Dos prazeres calmos, da alegria suave que obtemos quando aprendemos a aceitar o mundo e suas limitações, a superar a angústia provocada pela excitação estéril do dia a dia, a vencer toda a sorte de medos que nos oprimem, a começar pelo medo do fim, da morte, do “nunca mais". No epicurismo, não há transcendência, no sentido apontado pelas grandes religiões. Seu elemento espiritual vai na direção contrária: a busca de si mesmo, da pacificação de nossa relação com a vida e com os outros. Arriscaria dizer que, em algum sentido, vivemos numa época neoepicurista porque vivemos nos preparando para uma vida cada vez mais longa. A moderação e o cuidado de si assumem a condição de um valor pessoal. Buscamos viver em um ponto de equilíbrio, e intuímos que a filosofia pode cumprir um papel nessa procura.

Bons Fluidos: O que alimenta a ânsia coletiva por viver melhor?
Fernando Schüler: Um dos convidados do Fronteiras do Pensamento, este ano, é o filósofo francês Pascal Bruckner, autor da obra A Euforia Perpétua. Ele identificou um dos males de nossa cultura: a felicidade virou uma obrigação. Questiona se isso não termina por ser uma fonte brutal de angústia e frustração. Num artigo recente, o psicanalista Contardo Calligaris abordou essa questão. Ele diz que não vive para ser feliz, mas para ter uma vida interessante, com suas dores e problemas.

Bons Fluidos: A relação dos homens com a espiritualidade conserva uma raiz imutável ao longo do tempo ou ela vai se moldando às influências de cada época?
Fernando Schüler: O nascimento da modernidade marcou uma mutação significativa em nossa cultura. Deus morreu, no sentido de Nietzsche, filósofo alemão (1844-1900), quando a história se moveu pela força do homem, na Revolução Francesa. No século 19, com o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882). Depois com Freud (1856-1939), com a grande tradição existencialista. Deus morreu muitas vezes, mas curiosamente renasce a cada nova geração. Pois há uma resposta que não é dada, e que possivelmente nunca o será: a resposta sobre o sentido da vida. A filosofia pode nos ajudar a viver melhor, mas não responde a essa pergunta. Logo, a religião continua a cumprir um papel, ainda que “domesticado", e não há por que não supor que isso continue assim por muito tempo.

Bons Fluidos: De quais maneiras certos convidados do Fronteiras do Pensamento abordam a questão da espiritualidade?
Fernando Schüler: Um dos temas mais presentes – e polêmicos – do Fronteiras é justamente o da religião. De um lado, há autores de posicionamento historicamente cético, que destacam o aspecto do fanatismo e da intolerância nas religiões. Por outro lado, tivemos autores que assumem posição favorável a uma série de aspectos. São eles o filósofo britânico Terry Eagleton, crítico dos intelectuais que acreditam que a fé cega as pessoas, e a escritora britânica Karen Armstrong, fundadora da Charter for Compassion, iniciativa internacional focada em promover a compreensão e a paz. Ela defende a compaixão como valor comum às grandes religiões. Valor que pode ajudar a sociedade contemporânea no combate ao fundamentalismo e à intolerância.

Bons Fluidos: O suíço Alain de Botton, autor de Religião para Ateus (ed. Intrínseca), entre outras obras, foi um dos que aproximou a filosofia da espiritualidade?
Fernando Schüler: Botton é agnóstico e, de certo modo, um sátiro. Ele sustenta que nossa cultura combinou habilmente a religião e um saudável ceticismo. Recentemente, criou The School of Life, iniciativa global focada em conferências sobre como o conhecimento pode ajudar as pessoas a viver de maneira mais produtiva, apropriada, para que possam encontrar suas vocações, bem como superar seus medos, problemas e limitações. Alguns se divertem chamando a iniciativa de filosofia de butique, autoajuda ou assemelhados. Penso que isso é uma bobagem. Conheci exímios acadêmicos que pareciam conhecer muito pouco sobre a vida. Gostaria muito de viver em um mundo em que as pessoas se encontrassem para ler e pensar sobre a melhor maneira de viver, com abertura e generosidade. O pensamento deve superar os limites do mundo acadêmico e se tornar um ativo cotidiano. Na pior das hipóteses, isso melhoraria a qualidade de nossa vida pública, além de qualificar um pouco o mar de opiniões que habita as redes sociais.

Bons Fluidos: Você enxerga perspectivas para a problemática da intolerância religiosa?
Fernando Schüler: Esse é o maior desafio do século 21. Por inúmeras razões históricas, o fundamentalismo islâmico recrudesceu nos países menos estruturados, mais autoritários, com bolsões de pobreza. Mas também soube recrutar jovens ingleses. Dizem que são 500 apenas no chamado Estado islâmico. Trata-se de um retrocesso civilizatório. São religiosidades que não passaram pela revolução renascentista e iluminista, calcada na separação entre Igreja e Estado. Como lidar com isso? A violência é o último caso, porque ela é reativa e tende a provocar mais radicalismo. Acho que não há outra solução que não a ampliação do diálogo, do debate, da escolarização e a abertura do pensamento. Estes são valores ocidentais, por excelência, e oxalá se tornem valores universais, em algumas gerações.