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Filosofia é uma forma de vida

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Em entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, o filósofo australiano Peter Singer discute tópicos associados aos seus livros mais importantes. De Libertação animal, que desencadeou o movimento pelos direitos dos animais, à Ética prática, o professor das universidades de Princeton (EUA) e Monash (Austrália) aborda o que se entende por nascer, morrer e estar vivo. Singer também discute problemas filosóficos que colocam em xeque a maneira como se compreende o valor da vida consciente, como ressalta o pensador na entrevista concedida à Ana Carolina da Costa e Fonseca, professora de Filosofia na Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e de Filosofia do Direito na Faculdade do Ministério Público (FMP). A entrevista integral está contida na obra Pensar a filosofia, parte da série de livros Pensar, à venda nas livrarias e na loja virtual da Arquipélago editorial

Fronteiras do Pensamento: Você disse em sua autobiografia intelectual que considera a filosofia como uma forma de vida. Você poderia explicar isso e dizer o que você faz na sua vida de acordo com as suas ideias?
Peter Singer:
Eu penso que filosofia é uma forma de vida e qualquer pessoa que tenha capacidade de pensar pode refletir sobre o que elas querem de suas vidas, sobre como querem viver. Você não precisa seguir necessariamente um caminho que já está predeterminado. Pode fazer escolhas em vários aspectos sobre o que quer fazer e isso vai depender de quais são os seus valores, e esse processo tornou-se claro para mim quando comecei a pensar sobre o que estava comendo e se podia justificar isso.

E o que aconteceu foi que conheci outro estudante, quando estava na graduação em filosofia na Universidade de Oxford, que era vegetariano e decidi falar com ele sobre o porquê de ele ser vegetariano. E nunca havia pensado muito sobre a ética e a forma como nós tratamos os animais, nunca me pareceu uma questão importante, mas então me dei conta de que talvez isso fosse uma espécie de cegueira ética, aquilo era, sim, uma questão importante que eu, assim como outras pessoas, apenas ignorava, porque era conveniente ignorar. E, quanto mais pensava no assunto, mais decidia que não conseguia justificar o fato de comer carne.

Falei sobre isso com a minha esposa, e ela concordou, então nós tomamos a decisão de parar de comer carne — isso há 40 anos. Somos vegetarianos felizes desde então. Outra questão que me incomodava era sobre o quão confortáveis nós vivíamos e como pessoas em outras partes do mundo tinham tão pouco, e nós devíamos fazer algo a respeito.

Então, nós fomos até a Oxfam, que é em Oxford (ela começou originalmente na comunidade da Universidade de Oxford). Estávamos convencidos de que faziam um excelente trabalho, mas que necessitavam de mais apoio. Começamos a doar 10% de nossa renda e gradualmente, com o passar dos anos, começamos a doar mais que isso, mas sempre, pelos últimos 40 anos, doamos ao menos 10%.

Fronteiras do Pensamento: Você concordaria que sua principal preocupação filosófica é a vida? A vida de animais não humanos e a vida de pessoas pobres. Os problemas éticos que concernem ao início e ao fim da vida (aborto, eutanásia, fertilização in vitro). A possibilidade de vida na Terra para gerações futuras, e por isso a preocupação com mudanças climáticas. A vida, e não só a vida humana, parece ser sua principal preocupação. A vida justifica trazer essas questões do plano teórico ao prático?

Peter Singer: Na verdade, diria que o foco é um pouco mais estreito do que você colocou. Porque você mencionou a vida e estou certamente interessado em vida para além da dos seres humanos. Mas não me prendo à vida como um todo porque, você sabe, estou interessado na vida consciente, em que você tem experiências tanto de dor e sofrimento como também de prazer e felicidade, ao contrário da vida colocada de uma forma mais ampla.

Digo isso porque se você diz que a sua filosofia é sobre vida, então, frequentemente as pessoas entendem que isso quer dizer que você é contra o aborto porque o feto está vivo, seja pela concepção ou após a concepção, mas de qualquer forma não está consciente, então não acho que este ser tenha algum tipo de status moral, do tipo que faça com que seja errado terminar com a sua vida, então por isso acho que o foco deve ser um pouco mais estreito.

Fronteiras do Pensamento: Uma vez você disse em uma entrevista que Libertação animal é seu livro mais importante, porque ele começa um grande movimento, o movimento dos direitos dos animais. Você poderia falar sobre a importância desse movimento para você e sobre a forma como as pessoas veem os animais não humanos hoje em dia e a preocupação sobre o uso de animais para comer, fazer roupas, sapatos, cosméticos e experiências científicas?
Peter Singer:
Acho que a demanda humana por animais é uma grande parte de nossas vidas e isso afeta a vida de bilhões de animais ao redor do mundo. Creio que são em torno de 64 bilhões de animais mortos a cada ano apenas para alimentação, e aí não estão incluídos nem sequer os peixes. São apenas animais terrestres.

Estamos falando de quantidades enormes de seres, e por isso a maneira como nós os tratamos é muito importante. É uma grande questão moral. E os resultados do crescimento do movimento de libertação animal são surpreendentes, e certamente não sou o único a pensar assim. Temos mais pessoas conscientes disso.

Por exemplo, em toda a União Europeia tem havido mudanças na legislação sobre o quanto de espaço você tem de dar aos animais — seja às galinhas, seja aos porcos e aos bezerros de vitelo. Estamos falando de mudanças que afetam a vida de centenas de milhares de animais todos os anos apenas na União Europeia.

Houve mudanças em outros países também, então é algo que tem feito uma grande diferença no mundo. Há milhões de pessoas que se tornaram vegetarianas, que é uma forma de apenas ser contra o tratamento cruel dispensado aos animais nas fazendas industriais, onde animais são criados para esse propósito. E também contribuem para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Então acho que é um movimento muito importante para trocarmos ideias sobre a relação entre humanos e animais e para que paremos de ignorá-los ou fazer de conta que eles são apenas coisas que não contam.

Fronteiras do Pensamento: Dois conceitos parecem ser os mais importantes em sua filosofia: especismo e utilitarismo preferencial. Como você entende esses conceitos?
Peter Singer:
São dois conceitos importantes, mas diria que utilitarismo é o conceito-chave — fazer uso do utilitarismo preferencial ou do utilitarismo hedonista é outra questão. Surgirão diferenças em questões pontuais, mas a mais importante é pensar em certo e errado em termos das consequências do que fazemos, e essa é a característica do utilitarismo, não importando se você é um utilitarista hedonista ou utilitarista preferencial.

Especismo é uma ideia mais específica, é a opinião que humanos tipicamente têm. É uma atitude de preconceito ou de pré-julgamento contra seres que não são membros de sua espécie, e há uma tendência a ignorá-los ou a não nos interessarmos por eles. E obviamente o termo foi cunhado para fazer um paralelo com sexismo e racismo.

Em todos os casos, existe sempre um grupo especial que se autointitula possuidor de um status especial e discrimina quem não é desse grupo. E diz que temos direito de explorar e de usar quem é de fora porque eles não têm o status moral ou os valores morais que nós temos. Isso é comum com o racismo e com o sexismo. Eu não inventei o termo, vi em um pequeno livro escrito por um homem chamado Richard Ryder, que se interessava pelo uso de animais em experiências e pesquisas, cujo título era Victims of science [Vítimas da ciência]. E, então, tenho usado esse termo com a sua permissão. Acho que ajudei a popularizar o conceito e o tornei filosoficamente mais preciso. Mas, creio que ele estava ali esperando para ser usado, pois a analogia entre racismo e especismo é bastante óbvia uma vez que você pensa sobre ela.

Fronteiras do Pensamento: Quais seriam algumas das consequências de se recusar o especismo?
Peter Singer:
A maior consequência seria que nós não comeríamos animais a não ser que não houvesse outra forma de sobreviver. Pessoas de classe média não comeriam animais porque elas teriam várias outras oportunidades de comer outras coisas e viver uma vida saudável sem se alimentar de animais. Isso significaria que haveria bilhões de animais que não precisariam ser criados em fazendas industriais e matadouros para consumo humano. Haveria também uma drástica redução nas emissões de gases de efeito estufa e acho que as pessoas seriam mais saudáveis. Poderia haver uma redução no câncer de cólon e de outros tipos de câncer do sistema digestivo.

Mas, haveria outras questões. Haveria a questão do uso de animais para pesquisas, que poderia não parar completamente, mas acho que seria bastante reduzido se não fôssemos especistas. O que sobraria do todo, que seria bem menor, seria que animais não estariam sofrendo da maneira como sofrem agora. Por isso os limites continuariam a ser discutidos e debatidos sobre o que realmente é ético e o que não é. Mas haveria muitas coisas que poderíamos mudar de maneira rápida e fácil e que seriam melhores para nós e para os animais, caso não fôssemos especistas.

Fronteiras do Pensamento: Você acha que hoje em dia temos que nos preocupar com mais questões morais do que no passado? Comer, gastar e economizar dinheiro, o que e onde comprar, o efeito estufa, usar carro, avião ou bicicleta, aborto, decidir sobre nossa própria morte, ter filhos (por fertilização in vitro) se tornaram problemas morais. Estamos criando mais problemas morais?
Peter Singer:
Sim, essa é uma observação interessante, porque se nós tivéssemos vivido em uma pequena comunidade, não pudéssemos auxiliar pessoas fora desta comunidade, não soubéssemos nada sobre os problemas de gases que causam o efeito estufa ou não tivéssemos a tecnologia em medicina necessária para salvar recém-nascidos com malformação congênita ou fazer fertilização in vitro, haveria menos problemas do que temos. Poderíamos viver uma vida mais tradicional e provavelmente uma boa vida, que quase pudemos ter, mas o mundo mudou tão drasticamente, que surgiram novas tensões morais.

A forma como comemos, especialmente se comemos muita carne, vai contribuir para aumentar as emissões dos gases causadores de efeito estufa, assim como a energia que consumimos, se dirigimos ou usamos transporte público, por exemplo. Acho que todos nós devemos fazer algo bastante drástico e bem rápido e, se não o fizermos, causaremos danos irreversíveis ao planeta. Temos de tomar as medidas drásticas que precisamos neste momento, acho que temos de mudar. As pessoas podem mudar seu estilo de vida, mas nós devemos ser politicamente ativos e dizer aos governos que eles têm de fazer algo a respeito disso também.