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Geoffrey West no Roda Viva: administrar uma cidade é promover interações entre os habitantes

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O físico britânico Geoffrey West é um dos primeiros pesquisadores a estudar os modelos científicos das grandes cidades. Convidado do programa Roda Viva (19/01), discutiu o que tem concluído de seus estudos: as metrópoles, apesar de suas características únicas, são regidas e se desenvolvem com base em uma série de regras universais que determinam seu padrão de crescimento.

Perguntado por Fernando Schüler, curador do Fronteiras, sobre o papel dos prefeitos e urbanistas e sobre a possibilidade de acelerar o processo de inovação das cidades, o convidado esclareceu que a força dos gestores está mais em encontrar formas de promover a interação entre os habitantes do que em decidir o destino deles:

"... As cidades, em muitas maneiras, podem ser pensadas como um lugar, como disse antes, que facilite interações. Por isso as inventamos, por assim dizer. Mas, elas são um caldeirão para criar mais interação e esse crescimento sistemático é um reflexo desse valor de 15%, por assim dizer. É um reflexo do aumento de interação entre pessoas e o papel de um prefeito e da administração da cidade é prover uma cultura, prover mecanismos que facilitem a interação e o empreendedorismo, que facilitem que as pessoas tenham o poder de levar vidas significativas e criativas."

Durante a sabatina, West abordou diversos outros aspectos no que tange o futuro das metrópoles e o crescimento urbano. Confira abaixo o resumo do programa.

Cidades e seus legados
Para West, as cidades foram feitas com o objetivo de facilitar as relações de todos que habitam uma determinada sociedade. “A cidade na maneira que conhecemos hoje, foi uma das maiores invenções do ser humano. Um espaço para interagir com as outras pessoas e aprender".

Questionado sobre o legado de cidades como São Paulo, principalmente em relação a práticas ruins como a escravidão, West não acha que só aqui esse tipo de problema influencie. “Cada cidade tem sua própria historia e legado, aspectos como escravidão e outros. Os Estados Unidos também têm um grande histórico de escravidão. Quem tem que ditar o futuro de grandes cidades, independentemente de legados ruins, são os prefeitos. Eles devem facilitar a integração das pessoas nestas grandes metrópoles", salienta.

Redes
West compara o crescimento exponencial das cidades com o das redes sociais. “Se a cidade dobra de tamanho, dentro de um sistema urbano, você economiza 15% de infraestrutura e de renda per capita toda vez que isso ocorre. Toda a vida é sustentada por redes, parecemos diferentes, mas somos versões em larga escala de nós mesmos", prossegue, dizendo que, “com a universalidade das redes sociais, em nível médio, todos temos coisas em comum, todos temos família, trabalhos, estilos de vidas parecidos."

Valendo-se, ainda, da comparação entre redes e cidades, West fala sobre as fórmulas usadas em seus estudos. “Um dos desafios que temos de lidar ao compreender as cidades é a matemática que permeia as redes sociais. Entendendo isso, como se associa e entrega a rede e sua infraestrutura, entende-se os estudos. Há uma teoria matemática pra tudo", diz.

Espaço de interação
O físico británico explica o que deve ser feito para que cidades brasileiras funcionem de acordo com a sua teoria. “O papel de um prefeito é providenciar cultura, prover mecanismos que facilitem a interação, deixando as pessoas livres para levarem suas vidas de forma criativa e significativa. É preciso haver metodologias e incentivos que forneçam espaços e trabalho tanto quanto aumente a interação", conclui.

Na sabatina, West comenta também a necessidade que os seres humanos encontraram, desde o início da civilização, de se juntarem uns aos outros. “Quando eu e você fazemos coisas juntos, podemos fazer melhor, criar tempos livres que nos permitem meditar, contemplar, criar ideias e apreciar a beleza. Essa é a ideia de viver em conjunto, que trouxe a ideia de cidades", completa.

Antes do final da entrevista, West ainda arrisca uma previsão sobre a população mundial daqui a alguns anos. “A cada dois meses, há uma São Paulo de pessoas aparecendo no mundo. O crescimento não para e, até 2050, deve haver mais de 10 bilhões de pessoas vivendo no planeta", conclui.

Participaram da bancada de entrevistadores Ulisses Capozzoli, editor-chefe da revista Scientific American Brasil; João Sette Whitaker, urbanista, professor e coordenador do laboratório de habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo; Ciro Pirondi, arquiteto, urbanista e diretor da Escola da Cidade; Sabine Righetti, repórter de ciência da Folha de S.Paulo e autora do blog Abecedário; e Fernando Schüler, cientista político e curador do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. O Roda Viva ainda conta com a presença fixa do cartunista Paulo Caruso.

Assista ao primeiro bloco do programa abaixo ou clique aqui para acessar a playlist com os quatro blocos do programa: