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Ian McEwan: a beleza e a tragédia brasileiras

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Após se tornar um fenômeno mundial com a obra Reparação (2002), o escritor britânico Ian McEwan passou a ser conhecido pela escrita precisa, resultado de longas pesquisas que empreende para escrever cada um de seus romances.

No entanto, a carreira literária de McEwan, começou muito antes e com obras muito diferentes. Depois de lançar dois volumes de contos, seu primeiro romance, O jardim de cimento, foi publicado em 1978. As primeiras narrativas carregam tons góticos, distantes da prosa mais direta e realista pela qual o escritor ficaria internacionalmente conhecido.

Na época, McEwan foi criticado por escrever com o propósito de chocar. O jovem escritor negava, mas a maturidade trouxe o olhar necessário para uma admissão.

Em entrevista à Braskem, patrocinadora do site www.fronteiras.com, Ian McEwan confessa que seus primeiros escritos buscavam mais do que descrever a experiência humana.

Ainda, desenvolve uma bela fala sobre o que escreveria caso fosse produzir uma obra sobre o Brasil. A convivência simultânea entre a beleza e a tragédia humana capturaram o autor em sua passagem pelo país, em 2016, quando participou do Fronteiras do Pensamento.

Leia e assista abaixo!


Os temas mais impactantes são uma forma de levar o leitor à reflexão ou são apenas um retrato da realidade?

Ian McEwan: Os assuntos impactantes dos quais já tratei fazem parte da experiência humana. Logo, eles pertencem às nossas vidas sociais privadas e políticas. 

Diariamente, abrimos os jornais para um choque de um tipo ou de outro e a ficção simplesmente representa isso.

Mas, é claro, quando comecei a escrever, eu tinha um material muito, muito obscuro. As pessoas me acusavam de escrever simplesmente para chocar. Eu sempre neguei isso.

Mas, talvez, houvesse um pouco de verdade naquilo. Foi como se chegasse, com 24 anos, e quisesse dizer "aqui estou eu". 

Eu queria pintar com cores selvagens. Eu não queria que a minha ficção fosse gentil. Sim, havia um elemento de projetar as coisas mais obscuras que me vinham à mente como forma de me anunciar ao mundo. Então, era um bocado vulgar. Olhando para o passado, era um bocado vulgar.

Leia também: Entrevista Ian McEwan - Livros para conhecer as identidades dentro de nós

Quais são suas impressões sobre o Brasil? O que o senhor escreveria sobre o país? Há algo que o inspira de alguma forma a escrever?

Ian McEwan: A coisa que mais me marcou foi algo como vislumbrar os extremos do Brasil. Fui assistir à Orquestra Sinfônica de São Paulo. Um dos mais lindos salões de orquestra nos quais já estive. Adaptado de um grande salão na estação de trem. Belamente adaptado. Belamente construído. Uma acústica maravilhosa. Uma orquestra de nível internacional e incrivelmente talentosa. Eles tocaram obras de Ginastera e Shostakovich. O esplendor do som foi de fato avassalador.

Enquanto isso, a 100 metros dali, há uma vizinhança completamente devastada pelo crack, pela desesperança, pela miséria e pela violência. 

Creio que, se eu fosse escrever sobre algo, seria sobre como isso é um reflexo não somente do Brasil, mas de muitos lugares do Ocidente. Eu não excluiria Londres também e certamente Washington. Muitas, muitas outras cidades onde a beleza, o bem-estar e a efervescência cultural convivem lado a lado com o desespero humano completo e como é difícil resolver isso. Especialmente com algo como o crack, que é tão poderosamente e destrutivamente viciante. 

Logo eu começaria com isso, pois seria um olhar sobre algo acerca da condição humana... Do que podemos alcançar. O glorioso primeiro movimento de Shostakovich e o quanto podemos nos afundar.

Assista também: Ian McEwan reflete sobre a grande questão da humanidade, que lhe foi proposta em uma palestra e cuja resposta só lhe surgiu muito tempo após o evento. O sentido da vida segundo McEwan também é uma das premissas de sua obra “Enclausurado”, que traz um feto hamletiano para enfrentar os desafios da existência.