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Ian McEwan: "A Inglaterra é o meu país e não quero ser empurrado para fora por questões políticas"

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Em entrevista, o escritor britânico Ian McEwan toca em diversos tópicos que vão da saída da Inglaterra da UE, terrorismo, aquecimento global e, claro, seu mais recente livro, Enclausurado, que gerou atenção mundial antes mesmo de ser lançado por trazer, como narrador, um feto dentro da barriga da mãe. O bate-papo inicia com algo curioso, sobre os títulos de suas obras, geralmente curtos (Solar, Reparação, Sábado, Serena etc):

"Quando Reparação estava pronto para imprimir, dei-o a ler a um amigo que mora aqui perto, o historiador Timothy Garton Ash. A única coisa com que não concordava era o título, que inicialmente era A Reparação. Ele não gostava e veio ter comigo para me convencer a retirar o 'A'. Explicou-me as razões e ajoelhou-se a implorar que o fizesse. Tão pressionado pela sua opinião, aceitei alterar o título. E qual não foi o meu espanto quando disse ao editor que queria eliminar a letra 'A' e ele concordou imediatamente, porque também não gostava. Era o que queriam e ninguém me o dizia. Ou seja, chegamos a uma idade em que não nos dizem as coisas óbvias. Se Timothy não se tivesse ajoelhado aqui na carpete, teria cometido um erro porque Reparação é muito mais forte."

Os seus editores ingleses escolheram como frase de promoção de Enclausurado o seguinte resumo: "Uma história clássica de assassinato e enganos". Revê-se nesta súmula?
Foi-me explicado que não queriam revelar que era um livro em que o narrador é um feto, portanto deram a volta e resumiram assim. Posso garantir que não seria o primeiro resumo para o livro a vir-me à cabeça, mas foi o que decidiram.

O romance será publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos em simultâneo, o que não é muito normal para um autor europeu.
É verdade que a vida dos escritores estrangeiros não é fácil nos EUA. Mas eu fiquei com muitos leitores nos Estados Unidos desde o tempo em que as pessoas lá compravam livros nas livrarias independentes, principalmente desde Reparação, e a partir desse livro todos os outros foram muito bem recebidos.

Há algumas partes eróticas neste Enclausurado que não passam no crivo puritano americano?

Essa situação nunca me aconteceu até agora nos Estados Unidos, mas durante muito tempo costumava existir uma versão com as expressões americanizadas. Eles têm a ideia de que lá ninguém entenderia qualquer coisa diferente. Como pavement em vez de sidewalk. É uma visão de um país que se olha como um império.

Estava a referir-me à parte em que Trudy grávida e o amante Claude têm relações sexuais e o bebê sente o pênis perto. Essa não era uma parte que os americanos decerto gostariam de suavizar?
Pode estar certo, mas como é o que está no livro eu não autorizaria que fosse retirada.

Este não é um romance que passa uma mensagem antiaborto?
Nunca o tinha observado dessa maneira até este momento...

Se o feto pensa, até é o narrador, algumas pessoas poderão utilizar o livro como argumento antiaborto. Não concorda?
Para ser completamente sincero, isso nunca me passou pela cabeça. De fato, nem passou pelo pensamento que pudesse existir um aborto porque é demasiado tarde. Ele está para nascer quinze dias depois dos primeiros acontecimentos que abrem o romance. De qualquer modo, não tenho grandes opiniões sobre a questão do aborto. Claro que aceito o direito das mulheres sobre o seu corpo, mas por outro lado acho que é subestimado o trauma psicológico que o aborto provoca na mulher. No entanto, este não é um livro sobre a questão do aborto.

Alguma vez lhe aconteceu ter pensado no fim da escrita que não gostava de um livro?

Não, até por causa do meu processo de escrita. Escrevo muito devagar e só dou início ao livro depois de pensar muito nele. Portanto, não creio que haja lugar para lamentar o que fiz. Isso não quer dizer que não me tenha acontecido algo semelhante em, por exemplo, O Inocente, que se passava nos anos 1950 em Berlim e havia uma pessoa que sem querer matava outra e precisava de se desfazer do corpo. Então, a solução era cortar o corpo em pedaços e colocá-los dentro de uma mala de viagem. Como não sabia bem como o fazer, fui perguntar a um amigo professor forense que fazia autópsias quanto tempo demoraria ele a cortar uma perna. Ele respondeu-me que fazia autópsias todas as segundas às 8 em ponto: "Venha assistir a uma e logo verá." Ainda lhe perguntei se a família aceitaria a minha presença: "Não se preocupe, ninguém saberá. Só lá estou eu e o meu assistente." Fiquei a pensar no assunto e concluí que se fosse assistir a uma autópsia poderia influenciar-me e iria destruir-me romance. Porque o livro ainda estava em gestação e o que observasse poderia perturbar-me.

E alterou o rumo do livro?
Fui um covarde e acabei por não ir assistir à autópsia. Quando acabei o romance, dei-lhe o livro a ler e ele assegurou-me que estava tudo correto. Eram seis páginas tão violentas como sangrentas, que ninguém gostou. Lamentei tê-las publicado, mas estava muito entusiasmado com o livro, um caso de espionagem, que no final acabou por não ter grande sucesso.

Este romance é muito mais suave e divertido.
É verdade. Quando se decide ter um feto como narrador é sempre possível colocar alguma diversão no texto, não só por causa dessas cenas de sexo mas devido aos efeitos do vinho que a mãe bebe. E queria que o leitor sofresse de certos efeitos; que ficasse de "cabeça para baixo" como o bebê logo nos primeiros parágrafos. Com aquele início fica tudo claro antes do fim do primeiro parágrafo.

Por que um livro apenas com 200 páginas?
A razão porque este é um romance curto deve-se à impossibilidade de manter durante 600 páginas uma história a ser narrada pelo feto. Precisa de ser breve.

Coloca na narrativa certas deixas de quando o bebê está aborrecido muito curiosas. "Gostaria de não ter que nascer", por exemplo.
Uma grande parte do romance cita o Hamlet, designadamente onde Shakespeare faz várias reflexões sobre o suicídio devido à ausência de poder da personagem e da sua impotência para mudar as coisas. Essa frase não é diferente daquilo que se passa em Hamlet, apenas a transformei em prosa, com o cuidado de manter a sonoridade da linguagem da peça. O que se passa com o feto é sentir-se na necessidade de agir mas estar impedido por estar dentro da barriga da mãe.

Há outra parte intrigante, a primeira palavra que o bebê aprende: "veneno". Por que esta?
A minha preocupação era a de os leitores levarem este romance demasiado a sério. Enquanto o escrevia, disse à minha mulher: quando este livro for publicado o melhor é abandonar o país, porque é muito louco e estúpido. Não irei para fora, mas dentro de dias vou refugiar-me no campo como castigo.

Diria que é, pelo menos, inesperado este registro vindo de si?
Concordo. Este romance é uma espécie de férias, como se dissesse: dane-se a realidade. Desta vez queria ser completamente livre, portanto criar um feto perito em vinhos era o ideal. Ele adora o Sancerre e o Pinot Noir, até identifica as vinhas e o ano de produção dos vinhos que a mãe bebe.

A sua obra já contém uma grande galeria de personagens. Há alguma que prefira mais entre todas?
Acho que as várias personagens correspondem a muitas versões da minha própria imaginação. Talvez a mais conseguida seja o narrador de Reparação, mas também aprecio o terrível homem que era o herói de Solar. No entanto, esta personagem que não tem nome e é um bebê também me agrada bastante.

Fez muita pesquisa para este livro?
Não, apenas fui à internet uns dez minutos para conhecer certos vinhos que iria dar a beber à mãe.

Nos seus anteriores romances, é a investigação que faz o livro ou vice-versa?
Na maioria das vezes, faço a investigação em simultâneo à escrita. Portanto, só pesquiso o que preciso para continuar a escrever. Para mim, a investigação faz parte do próprio romance, e penso que escrevê-lo é como uma viagem onde a investigação e a escrita são a própria viagem.

É sempre assim?
Quando escrevi A Criança no Tempo, eu precisava construir um juiz e relatar como era a sua vida no tribunal. Então, falei com um juiz, que me levou muitas vezes ao tribunal para assistir às sessões. Se tivesse começado primeiro pelo romance, as perguntas que lhe teria feito não seriam tão acertadas como as que fiz após toda aquela observação.

No caso de Solar teve de fazer uma investigação muito mais profunda ou não?
Nesse caso, a maior parte da investigação foi realizada através de leituras em vez de encontros pessoais. A exceção foi ter ido ao Novo México procurar uma localidade para ser o cenário onde o romance terminaria, mas aí já tinha escrito a maior parte do trabalho. Sabia bem o que pretendia. Também fui a laboratórios de energia solar para conversar com físicos, mas só após muita leitura para encontrar as perguntas corretas a fazer.

Esse protagonista de Solar acredita que pode salvar o mundo através de uma energia limpa. No seu caso, ainda acha que há salvação?
Mesmo com toda a complexidade do tema das alterações climáticas, há um único graal sagrado: encontrar uma energia barata. Quando a tivermos, surgirão todo o tipo de possibilidades. Atualmente, a energia solar não é suficientemente poderosa para manter Lisboa quente durante o mês de fevereiro, mas um dia encontraremos a solução. Só posso dizer que o problema é muito complexo, mais dificultado ainda pelas circunstâncias políticas tão difíceis que vivemos, onde a preocupação com a política energética foi desviada para o combate ao terrorismo, a situação na França, na Turquia ou o brexit.

Como é ser obrigado a deixar a União Europeia?
É o resultado de uma longa luta no interior de um partido político, os Conservadores. O partido tem estado dividido e o ex-primeiro-ministro David Cameron fez uma aposta com o referendo, achando que fixaria uma posição definitiva em relação à União Europeia por várias gerações. Só que falhou!

Como vê a reação ao não?
Ninguém quer falar sobre o referendo, nem sequer no Parlamento. Aliás, ninguém comenta o papel do Parlamento, nem quando se sabe que é este que deve ratificar qualquer alteração ao tratado por via do artigo 50.º Pelo contrário, o referendo do brexit foi um plebiscito hitleriano com uma margem de 4% enquanto se quisermos mudar a Constituição é necessário mais de 60%. Há uns de nós que se sentem usados por um partido, pois não havia nenhum outro partido a querer o referendo senão o UKIP, até porque o referendo apenas tirou a fotografia ao sentimento nacional de um único dia, obrigando a rever um tratado e a absorver a energia nacional noutra direção. O que nos sairá caro.

Admite deixar a Inglaterra?
Não, gosto muito de viajar mas não por essa razão. Tenho amigos que dizem que se querem ir embora para o Canadá, mas isso é um desabafo pós-referendo. Não acredito, é como os meus amigos americanos que disseram que depois de Reagan ou de Bush iam embora, agora é depois de Trump ganhar, mas ninguém se vai embora porque é muito complicado. A Inglaterra é o meu país e não quero ser empurrado para fora por questões políticas.

Como vê os atentados de Paris e de Nice?
Estava em Paris em novembro quando aconteceram os atentados, mas Nice preocupou-me mais porque vi o ministro da Defesa dizer "isto não vai acabar, é preciso habituarmo-nos". Realmente, três dias depois o Promenade des Anglais estava de novo cheio de turistas, ou seja, parece que nos iremos acostumar a estas situações. Li artigos a dizer que podem matar centenas de franceses que não conseguirão mudar o Estado francês, é como em Bagdad. Lemos que 150 pessoas foram mortas por uma bomba no centro da cidade, antes tínhamos lido que foram 123 ou 75 no mês anterior... É verdade, não se destrói um Estado porque a nação é muito maior, pode é vir a ser uma estranha nova normalidade. Nice estava no coração de todos, mas cada atentado vai ser menos importante para o mundo. Londres pode ter o próximo, quem sabe se Lisboa também, não vejo como isto vai mudar porque é como uma cobra a comer a sua cauda. Desconheço a solução, é só estúpido o que se vê.

O terrorismo afeta tudo...
É maior do que a literatura, do que tudo.

Deu refúgio a Salman Rushdie em sua casa quando foi anunciada a fatwa. Pensou no significado?
Esse foi o capítulo 1 para a nossa geração. Em 2001, o atentado às Torres Gêmeas foi o segundo capítulo. Apercebemo-nos de que o modelo do multiculturalismo tinha mudado de repente e que as comunidades deixaram de ser tão bem acolhidas. De um momento para o outro, uma minoria tinha um pensamento bem diferente em relação ao mundo do que era o nosso. Víamos pessoas em frente ao nosso Parlamento a queimar livros de Rushdie e a dizer que devia morrer. A liberdade de expressão que antes era garantida foi violentamente desafiada e isso preocupa-me.

É fácil escrever um romance sobre assuntos que não estão na agenda social enquanto decorrem todos estes problemas?

Foi sobre isso que quis refletir em Enclausurado, um mundo que fosse entendido pelo que se ouvia na rádio e o que será a vida depois do parto. O romance reflete o estado do mundo, ou é pelo menos um canal para essa percepção.

Quando começa o livro sente ansiedade sobre o que vai escrever?
Vivo um estado mental curioso e com vários componentes. Um entusiasmo que é uma espécie de capa para a ansiedade. Fico entusiasmado com o que quero e numa ansiedade sobre como transmitir tudo o que desejo, e ser bem-sucedido ao desenvolver a ideia do livro. No geral é um bom estado, pois deixo passar muito tempo entre romances, porque não me sinto obrigado a escrever o tempo todo e descanso, o que é um alívio quando regresso à escrita. No início é um sentimento ótimo, como se tivesse um emprego a tempo inteiro, não apenas a ler livros de outros a viajar ou a absorver situações. É como voltar ao ativo. Mas existe sempre essa ansiedade sobre se é o projeto correto. É como no casamento, serei capaz de viver com esta pessoa para sempre? Mas a ansiedade é uma coisa boa, porque mantém o escritor focado.

A ideia para o livro nasce de ver a sua nora grávida. Foi assim?
Sim, tudo começa aí. Estávamos a conversar e ela estava grávida de oito meses. E conversávamos sobre o bebê como se ele não estivesse ali também. Então, imaginei-o de cabeça para baixo dentro da barriga da mãe e descobri que poderia ser uma boa ideia. Abri um arquivo no meu portátil e andei seis meses a pensar nisso, mas não pensava seriamente escrever um romance sobre este assunto. Não avançava, porque tinha a noção de que o bebê era um narrador impossível.

Então, aconteceu uma epifania para que começasse o livro?
Estava numa reunião entediante, era obrigado a manter um sorriso na cara e ouvir pacientemente os oradores, quando me apareceu a primeira frase: "Aqui estou eu de cabeça para baixo dentro de uma mulher." E gostei dela. Então, vieram-me à cabeça todos aqueles pensamentos que tivera. O encontrar da primeira frase gera-me alguma liberdade. E nem estava a pensar no livro, ouvi foi esta frase como se estivesse a ser soprada no meu ouvido. Por Deus, com certeza... Então, foi só encontrar o registro e pensar nas referências ao Hamlet e também de Macbeth.

Usou a palavra Deus...
Estava a ironizar. A frase chegou ao meu pensamento, mas não precisa de uma explicação sobrenatural. Há outras mais fáceis. O meu sentimento não era de entusiasmo, mas de curiosidade e necessidade de investigar.

Não é normal que um escritor agrade tanto aos leitores como à crítica como acontece consigo. Qual a razão?

Gosto de ouvir essas palavras mas, infelizmente, não é bem essa a realidade. Se perguntar ao meu editor inglês, ele dirá que todos os livros que publico têm um misto de opiniões a favor e contra. Eu não leio críticas, mas algumas vezes alguém me faz chegar ao ouvido um ou outro título de um artigo. Como no caso do meu último romance, em que havia um título de uma crítica que dizia ser um livro impossível de esquecer de tão ruim! Isso acontece-me frequentemente. Até preferia que dissessem que seria tão mau que era para esquecer.

Acha que o crítico só quer marcar uma posição?
Sim, porque nem o terá lido. Duvido, ainda não está a venda. Mas mesmo sem o ler faz uma má crítica, imagine-se quando o ler. Não irá dizer que é maravilhoso! Portanto, não tenho críticas gloriosas non-stop, há de tudo. No mesmo dia o romance é uma obra-prima e o pior que já escrevi. Isso é cada vez mais habitual, especialmente nos blogues literários na internet. Felizmente, há o outro lado disto, o encontrar-se um leitor que gostou do romance. Henry James dizia numa - questionável - citação que "o primeiro dever do escritor era interessar o leitor". Atualmente, pode soar como uma vulgaridade mas é impressionante a quantidade de escritores que não acha isso importante. É um erro gigantesco o facto de um livro não ser interessante. Claro, que um leitor pode achar interessante e o outro considerar uma treta, nunca haverá uma unanimidade, e é por isso que há boas e más críticas.

(Via DN)


Acesse o libreto preparatório para a conferência com Ian McEwan, que esteve no Fronteiras do Pensamento 2016. O conteúdo do libreto inclui breve biografia, indicação de livros, ideias do escritor, links para entrevistas e vídeos, bem como o artigo A arte capaz de dar forma a uma sinfonia de contradições, escrito por Flávio Moura, jornalista, doutor em Sociologia pela USP, editor da Companhia das Letras.