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John Gray: a civilização é natural para os seres humanos – mas também é a barbárie

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John Gray (foto: BBC Radio 4)
John Gray (foto: BBC Radio 4)

Há mais de uma década, poucas pessoas tinham ouvido falar do filósofo britânico John Gray. Ele possuía uma carreira acadêmica muito bem-sucedida e havia escrito um grande número de livros. Ele também tinha criado um nicho acurado de leitores no papel de um profeta, já que previu a queda do comunismo, o colapso financeiro e o desastre no pós-Iraque. Mas, o grande fator de reconhecimento o evitava.

Então, em 2002, seu livro Straw dogs (no Brasil, Cachorros de palha, pelo Grupo Editorial Record) foi lançado e, de uma vez só, tudo mudou. Escrito de forma prática, em pequenos blocos com títulos como A pobreza da consciência, o livro abrangia todas as reflexões de Gray sobre moralidade até suas ideias sobre a al-Qaeda.

A mensagem central, porém, era tão óbvia quanto surpreendente. O progresso humano, declarava Gray, era um mito. Se pensávamos que estávamos nos tornando mais civilizados, era por fruto de uma ilusão. Atualmente, o filósofo é o principal colunista literário da New Statesman e professor emérito da London School of Economics. Gray escreve regularmente para os veículos The Guardian, The Times Literary Supplement, The New York Review of Books e BBC Radio 4. Em entrevista, o filósofo conversa sobre seus livros, a importância dos mitos e aquelas que considera as falhas do humanismo. Confira a tradução abaixo:

Creio que muitas pessoas acharam que Cachorros de palha era fascinante, mas perturbador. Me pergunto se você notou alguma necessidade de oferecer esperança a quem terminou a obra se sentindo abatido e pessimista. Foi isso que o motivou a sair do tom de polemista para um tom mais meditativo?
John Gray:
Você está certo em notar uma mudança de estilo, do mais assertivo para o mais meditativo. Existe uma continuidade, porém: tanto no Cachorros de palha quanto no The silence of animals, eu não estou tentando convencer o leitor de nada. Estou apenas oferecendo uma visão sobre as coisas – visões minhas – que os outros podem achar importante de pensar a respeito.

Ao contrário de Dawkins ou Grayling, não tenho interesse algum em converter alguém a qualquer forma de sistema de pensamento. Isso é, em parte, porque sou cético com relação ao papel da crença na ação humana, mas também porque considero a ideia de filosofia pós-socrática absurda.

A ideia de que vidas analisadas tendem a ser melhores do que as outras me parece uma falsidade óbvia. O único benefício que a filosofia pode conceder é uma espécie de liberdade mental – mas isso não pode ser atingido enquanto a investigação filosófica for uma tentativa de provar alguma coisa para daí persuadir os outros disso.

A própria ideia de investigação filosófica como um projeto de persuasão me parece mais uma versão racionalista do proselitismo religioso. Não sei sequer dizer se o que estou fazendo é filosofia e não me importo. The silence of animals é menos polêmico do que Cachorros de palha, mas não se trata de oferecer esperança, e sim de apontar que, ao longo da história, a maioria dos seres humanos viveu sem qualquer tipo de crença na possibilidade de progresso, crença que hoje tantos dizem ser indispensável. Neste sentido, o livro de fato oferece algum tipo de conforto: se você não acredita que o futuro da espécie será melhor do que o passado, não se preocupe – você está em boa companhia. Muitas pessoas viveram vidas significativas e plenas sem terem qualquer tipo de fé.

Você escreve sobre John Alec Baker, que encontrou muito prazer escrevendo a partir da perspectiva dos animais, especialmente, refletindo sobre a liberdade dos pássaros. Em geral, os seres humanos fariam bem ao considerar o mundo da perspectiva de outros animais?
John Gray:
O valor dos outros animais é que eles oferecem uma janela para fora da visão humana sobre o mundo. Sem esta janela, tendemos à loucura. Como resultado de sua observação do peregrino [no livro The peregrine], J. A. Baker se tornou mais são – e também mais feliz – do que grande parte dos seres humanos. Claro, ver o mundo de forma imaginativa a partir da perspectiva de outras espécies não significa que você pode se tornar como elas ou que você deve tentar imitá-las. Outros animais são superiores aos seres humanos de muitas formas: parcialmente, porque eles não organizam suas vidas com base em crenças, não há felinos que sejam terroristas suicidas. Mas, seres humanos não conseguem simular esta liberdade animal distante da crença. Esta é uma razão pela qual nós – diferentemente de outros animais – precisamos de mitos.

Você critica o humanismo por falhar em reconhecer sua própria mitologia utópica, mas você celebra o valor de certos mitos (você menciona que as histórias de Ícaro e Prometeu como alertas para os perigos da arrogância). Há uma maneira de distinguir mitos prejudiciais de mitos verdadeiros, de distinguir ilusão de insight?
John Gray
: O primeiro teste que qualquer mito precisa passar é o teste ético – se é intrinsecamente prejudicial. Qualquer mito que demonize outros seres humanos caem nesta categoria. A mitologia nazista do antissemitismo é um exemplo perfeito (mesmo que se diga ser baseada em ciência), mas há muitos outros exemplos também. Outro teste é a verdade de um mito – se consegue capturar aspectos profundos e constantes da experiência humana. Neste sentido, o mito Cristão do pecado original é mais verdadeiro do que o mito moderno do progresso.

A crença dominante no progresso presume que seres humanos já são suficientemente avançados para se moverem de acordo com a persuasão racional; se eles persistirem em crueldade e opressão, é por ignorância e erro. O mito Cristão, ou melhor, Paulino, é superior, porque reconhece que os seres humanos são congenitamente e incorrigivelmente próximos do erro (e, portanto, não é apenas um erro). Claro que o mito do pecado original teve efeitos prejudiciais, notadamente ao se tornar obcecado com a sexualidade, mas não creio que seja como mitos racistas, que são intrinsecamente ruins. Mitos verdadeiros são como outras coisas preciosas: eles sempre vêm com alguma impureza.

Falei aqui dos testes para os mitos. Isso não significa que eu acho que mitos são tipicamente escolhidos por aqueles imersos neles. Os mitos mais poderosos não são conscientemente envolventes – eles possuem aqueles que os seguem (isso é mais verdade ainda no dominante mito do progresso). Certo ceticismo pode nos proteger deste tipo de possessão. Mas, a melhor maneira de se proteger dos mitos danosos é geralmente com um bom mito. Por isso sou amigo das religiões tradicionais – mesmo que sejam abusadas com frequência – me parece que elas se encaixam melhor nos seres humanos do que os perigosos conceitos da razão.

Se eu lhe li corretamente, você nos encoraja a ver que a utilidade da razão é restrita pelas limitações da natureza humana, que é falha, e esta limitação marca uma fronteira além, por isso os seres humanos precisam da mitologia, para serem guiados. Por que a mitologia se torna a melhor escolha para interpretar este papel?
John Gray:
Não se trata de, quando a razão acabar, os mitos surgirem pra nos guiar, mas sim de que os humanos sempre se voltarão aos mitos neste ponto. Claro que este movimento não é um processo consciente. As mitologias mais poderosas não são deliberadamente arquitetadas – como os antropólogos dizem, mitos não têm autores – eles entram e ocupam a mente por vontade própria.

Estou longe de ter uma visão pós-moderna como a de Richard Rorty, em que podemos livremente escolher nossos mitos: nós somos capturados pelos mitos. Isso é um ponto importante, já que eu enfatizei que alguns mitos são inerentemente malignos. Qualquer mito que demonize partes da humanidade – como a mitologia antissemita encontrada em muitas tradições Cristãs e no coração do Nazismo – entram nessa categoria. A melhor imunidade contra maus mitos é um mito melhor: o tipo que reflete realidades universais e duráveis e que nos permite viver bem sem negar tais realidades.

Por que os seres humanos precisam dos mitos é uma questão interessante. Eu suspeito que a melhor resposta seja a nossa consciência sobre nossa morte. Para sentir que o significado da vida é seguro precisamos de uma história que não seja cortada pela morte. Muito do poder do mito moderno do progresso vem do fato de que ele responde a esta necessidade.

Alguns de seus opositores (como A.C Grayling) o acusam de ignorar a posição do adversário no debate e de substituí-la por uma versão distorcida. Eles dizem que não conhecem humanistas que vejam o progresso como inevitável.
John Gray:
Nunca sugeri que humanistas seculares pensam que o progresso político ou ético é inevitável e minha crítica ao mito do progresso não é um ataque ao utopismo. O que eu critiquei é o que cada humanista secular de fato acredita: que, ao longo do tempo, apesar de muitas quedas e degenerações, a civilização avança com o crescimento do conhecimento. Nesta visão, avanços em ética e política seriam como avanços na ciência – geralmente, cumulativos e potencialmente irreversíveis. Para os humanistas seculares, o mal na vida humana é, no fundo, um erro – e erros podem ser gradualmente diminuídos.

A crença moderna na possibilidade de melhoria gradual acompanha uma visão da história bastante diferente daquela do mundo antigo. Na Grécia e em Roma, na Índia e na China, por exemplo, a história era compreendida em termos cíclicos como a ascensão e a queda de civilizações. Avanços na ética e na política eram reais e valia a pena lutar por eles, mas eles sempre seriam perdidos no curso das próximas gerações – enquanto o conhecimento pode crescer ao longo do tempo, o ser humano permanece o mesmo. As falhas inerentes e incuráveis do animal humano sempre prevalecerão em qualquer civilização avançada. Como eu coloquei no The silence of animals, a civilização é natural para os seres humanos – mas também é a barbárie.

Richard Dawkins parece ver crenças religiosas apenas como conjuntos de afirmações literais (e falsas) sobre a natureza da realidade. Mas elas não são apenas isso, são?
John Gray:
Como eu compreendo, religiões não são compostas de crenças, mas sim de práticas. Racionalistas seculares pensam em religiões em termos de credo, como conjunto de proposições, como versões primitivas de teorias científicas. Então, eles atacam a religião com base nisso. Isso é um erro fundamental, mas muito compreensível dado que, sob a influência da filosofia grega, segmentos da religião ocidental foram de fato passados sob a forma de credos. Neste e em outros aspectos, o racionalismo secular é uma imagem espelhada dos mais desinteressantes elementos do monoteísmo ocidental. Por outro lado, religiões são afirmações sobre a realidade – as constantes realidades humanas do mistério e da mortalidade, que a filosofia ou a ciência não conseguiram lidar adequadamente.

Você menciona que sua crença na natureza humana é uma das razões pelas quais você não é pós-modernista. É uma suposição ampla e sem argumentação de que o pós-modernismo não tem verdades objetivas. Então, sua visão é a de que uma natureza humana relativamente fixa pode nos dar uma constante na qual conseguimos nos agarrar, uma verdade objetiva para que possamos seguir?
John Gray:
Sim, isso descreve bem minha visão. Sou suspeito com relação ao pós-modernismo desde que escrevi Cachorros de palha, parece-me outra versão do solipsismo. E, mesmo que a filosofia da ciência, que é uma inclinação minha, seja mais instrumental e realista, eu sempre insisto que o progresso é um fato na ciência. São os benefícios do aumento do conhecimento científico que tornaram possível sete bilhões de pessoas no planeta. A ideia de que a ciência é apenas um sistema de crenças entre vários é tão sem sentido que não vale a pena discuti-la. Porém, encontrei insights importantes em alguns escritores pós-modernos (incluindo Rorty). Pós-modernismo é uma daquelas filosofias – como o humanismo secular, que é uma versão do pós-modernismo – que eu não posso levar a sério.

Leia na íntegra no link original (em inglês)